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Chuva de fogo

A confusão entre dois comandantes provocou a explosão de 2600 toneladas de munição, um tsunami e uma tempestade de metal e vidro

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h16 - Publicado em 2 fev 2013, 22h00

Andréia Castro

Explosão
Canadá – 1917 – 1946 mortos – 9000 feridos

A gigantesca nuvem em forma de cogumelo é automaticamente associada à explosão da bomba de Hiroshima, em 1945. Mas, na verdade, esse fenômeno foi visto pela primeira vez décadas antes. Na manhã de 6 de dezembro de 1917, uma colisão envolvendo dois navios cargueiros gerou a maior explosão acidental já causada pelo ser humano. O acidente devastou boa parte de Halifax, no Canadá.

Durante a 1a Guerra, a cidade portuária se tornou um importante ponto de encontro para embarcações que transportavam tropas e suprimentos bélicos, além de navios-hospitais, que regressavam da Europa repletos de feridos através do oceano Atlântico. Ironicamente, a mesma guerra distante que trouxe prosperidade seria decisiva na tragédia que quase a destruiu.

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A explosão aconteceu às 9h04. Enquanto uma nuvem de fumaça de quase 2 km de altura enchia o céu da cidade, um tsunami de 18 m varreu o porto. A explosão foi tão violenta que provocou uma chuva de metal quente e vidro, que caiu sobre os sobreviventes por 10 minutos.

O incidente danificou prédios e estilhaçou janelas no bairro de Windsor Junction, localizado a cerca de 16 km de distância. Também fez paredes tremerem na cidade canadense de New Glasgow, a 126 km dali. O barulho da detonação seria ouvido até no Cabo Norte de Breton, 360 km a leste. O bombeiro Billy Wells foi jogado para longe e, com a movimentação de ar provocada pela explosão, teve as roupas arrancadas do corpo. Dias depois, ele descreveria a devastação do local: “A visão era horrível, com pessoas mortas penduradas nas janelas. Algumas com as cabeças faltando”.

Essa história, cheia de coincidências infelizes e erros crassos de navegação, começa em 1o de dezembro de 1917, quando o cargueiro francês Mont-Blanc, com 3100 toneladas, 97,5 m de comprimento por 13,7 m de largura, partia de Nova York em direção à bacia de Bedford para participar de um comboio que iria para a França. A embarcação, capitaneada por Aimé Le Médec, levava a bordo mais de 2400 toneladas de explosivos, que seriam usados no conflito.

Avaliada em mais de US$ 3,5 milhões na época (cerca de US$ 60 milhões hoje), a carga consistia em 1600 toneladas de ácido pícrico em estado líquido (extremamente explosivo e sensível a choques), 544 toneladas de ácido pícrico seco, 226 toneladas de TNT, 56 toneladas de trinitocelulose e 223 toneladas de benzeno. Para evitar prováveis ataques da Marinha Imperial Alemã, o navio não hasteava a bandeira vermelha que indica carga perigosa. Esse se mostraria o primeiro dos erros que levaram ao acidente.

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Em 5 de dezembro, o Mont-Blanc chegava às ilhas MacNab, último ponto de parada antes de Halifax. Ali passou a noite porque o acesso já estava fechado. Enquanto isso, o navio norueguês Imo, capitaneado pelo comandante belga Haakon From, planejava deixar Halifax com destino a Nova York. Com pouco mais de 5 mil toneladas, 131,5 m de comprimento e 13,8 m de largura, rumava à cidade americana em busca de suprimentos de emergência destinados às vítimas da guerra abrigadas na Bélgica. Ele também teria que esperar o dia seguinte.

Uma 3a embarcação, o navio comercial americano Stella Maris, mudou de direção e acabou dando início a um desentendimento entre Aimé Le Médec, do Mont-Blanc, e Haakon From, do Imo. Foi o 2o erro (veja ao lado). Os dois se viram frente a frente no canal Dartmouth.

Enquanto os americanos seguiram viagem normalmente, tanto Le Médec quanto From insistiram em permanecer no curso e demoraram para mudar de rumo – a teimosia de ambos provocou o 3o e mais decisivo descuido. Os dois acabaram batendo um contra o outro, e o Mont-Blanc começou a pegar fogo. O Corpo de Bombeiros de Halifax foi acionado e a agitação fez com que uma multidão, incluindo crianças, corresse em direção às docas para ver o resgate.

A colisão em si não foi grave. O problema era a carga do navio francês. Após queimar durante 20 minutos, a munição explodiu e levantou o cogumelo de fumaça no ar. “O navio foi completamente destruído”, descreve Laura M. MacDonald em seu livro Curse of the Narrows: The Halifax Explosion 1917 (Maldição de Narrows: A Explosão de Halifax 1917, sem tradução no Brasil). O Imo ficou bastante danificado, mas, depois dos reparos, c0ntinuaria navegando até 1921, quando encalhou nas ilhas Malvinas e foi abandonado.

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Sobreviventes

Quem estava no cais do porto teve poucas chances de sobreviver. Mas, dentro das casas, algumas pessoas, em especial crianças, escaparam com vida. Anne M. Welsh, por exemplo, tinha pouco menos de 2 anos na época. Sua casa foi cortada ao meio pela força da explosão, matando sua mãe, Anne, e o irmão Edwin. Enquanto isso, a garota acabou jogada para debaixo do armazenador de cinzas do fogão. O calor salvou o bebê dos rigores do inverno. Descoberta pelos bombeiros 26 horas depois, ela só viria a falecer em julho de 2010, aos 95 anos.

Com apenas 7 meses de idade, Bill Owen também sobreviveu e, aos 95 anos, continua a viver em Dartmouth, Nova Escócia. “Minha mãe havia colocado um toldo em cima do meu berço e, se não fosse por isso, eu não estaria aqui hoje”, ele declarou em entrevista. Quando foi resgatado, duas horas depois, o tecido que o cobria estava cheio de vidro.

Anos mais tarde, a 2a Guerra trouxe novamente a prosperidade e o crescimento econômico ao porto de Halifax, que já estava reconstruído. Dessa vez, a cidade conseguiu escapar ilesa.

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Trombada bizarra
O acidente poderia ser evitado. Acabou gerando o maior cogumelo de fumaça antes de Hiroshima

1. O navio Mont-Blanc chega à ilha de McNab em 5 de dezembro, tarde demais para seguir rumo a Halifax. Enquanto isso, o carregamento de carvão para o Imo atrasa e ele passa a noite no porto.

2. Às 7h30 do dia 6, quando o Mont-Blanc deixa a ilha, o navio americano Stella Maris sai do porto antes do Imo, no sentido errado do canal Dartmouth. A embarcação francesa muda de lado.

3. O Imo parte de Halifax depois do Stella Maris e se vê frente a frente com o Mont-Blanc. Nenhum dos dois comandantes, o francês e o norueguês, aceita se desviar.

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4. Na última hora, o Imo tenta mudar de rota, mas não consegue. A batida entre as duas embarcações acontece às 8h44. A carga do navio francês explode às 9h04.

Para saber mais 
The Town that Died: A Chronicle of the Halifax Disaster, Michael J. Bird, Nimbus, 1962 

Halifax Explosion Remembrance Book, vários autores, Nova Scotia Museum, 2002

 

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