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Conheça o homem que foi os olhos brasileiros de Darwin

Nas selvas catarinenses, o alemão Fritz Müller fez descobertas que encantaram o pai da evolução e os cientistas europeus

Um lugar distante, de clima imprevisível, com animais estranhos e plantas desconhecidas. Quando o alemão Fritz Müller chegou ao interior de Santa Catarina, em 1852, era como se pousasse em outro planeta. Um planeta onde ele realizou estudos minuciosos, que lhe renderam fama internacional e o apelido de “príncipe dos exploradores” – cortesia de seu ídolo e fã, Charles Darwin.

O fascínio pela fauna e flora abaixo do Equador foi o que atraiu o médico e filósofo de 31 anos ao vale do Itajaí, um deserto verde onde dois anos antes Hermann Blumenau havia criado uma colônia alemã batizada com seu sobrenome.

Agnóstico, Müller não se entendeu com o fundador luterano e mudou-se para Desterro (hoje, Florianópolis). Foram 11 anos como professor de matemática e aluno autodidata da vida marinha. Graças a seus estudos, conquistou o prestigiado cargo de naturalista viajante do Museu Nacional do Rio de Janeiro, que garantiria financiamento para suas pesquisas em Blumenau.

Tudo lhe interessava: dissecou plantas para entender a composição de seus órgãos, estudou as asas das borboletas, descreveu a organização social das formigas, pesquisou os formatos de colmeias e analisou os hábitos de águas-vivas e pássaros. Entre crustáceos, insetos, aves e plantas, o alemão identificou 248 novas espécies.

Boa parte dessas descobertas foi dividida com um correspondente muito especial: entre 1865 e 1882, Müller e Charles Darwin trocaram 70 cartas. Não se sabe quem escreveu primeiro, mas o bromance começou em 1864, quando Müller publicou na Alemanha Für Darwin (“Para Darwin”), conjunto de suas observações científicas defendendo a Teoria da Evolução. O inglês encomendava várias pesquisas a Müller e maravilhava-se ao ver a precisão com que o alemão desenhava plantas e dissecava animais. Em 1881, lhe escreveu: “Não acredito que haja alguém no mundo que admire seu zelo pela ciência e seu grande poder de observação mais do que eu”.

Além de ser uma honra, ajudar o autor de A Origem das Espécies (1859) bombava o currículo: Darwin remetia os estudos de Müller a outros cientistas e promovia sua publicação na Europa. Apesar de distante, Fritz Müller estava incluído na comunidade científica.

Ainda assim, o alemão jamais deixou o Brasil. “Não troco o meu mato pela Europa”, dizia. Admirado como o mais notável dos naturalistas brasileiros, Müller morreu em Blumenau em 1897, quando tinha 75 anos e pesquisava bromélias – uma planta pela qual jamais se interessara, mas que vinha cultivando para atender ao desejo dos dois netos de tê-las no quintal.
 

Grandes momentos

–  Fritz Müller contribuiu consideravelmente para povoar o vale do Itajaí: teve 9 filhas – o único filho que teve morreu horas depois do parto.

– As pesquisas de Fritz Müller são citadas 17 vezes nas edições posteriores à primeira impressão de A Origem das Espécies, o clássico de Charles Darwin.

– A casa onde viveu o naturalista é hoje o Museu Fritz Müller, onde estão objetos pessoais, além de animais e plantas usadas nas pesquisas. O museu está fechado, pois parte do solo está comprometida desde as chuvas que atingiram a região em novembro do ano passado.