GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Distúrbios bipolares

Às vésperas da guerra, potências européias disputavam uma louca corrida armamentista e dividiam o continente em dois blocos antagônicos

Texto Bianca Nunes

Na primeira década do século 20, o mapa da Europa poderia ser quase todo desenhado com apenas dois lápis de cor: de um lado, os países que formaram a Tríplice Aliança – Alemanha, Áustria-Hungria e Itália; de outro, as nações que deram origem à Tríplice Entente – França, Grã-Bretanha e Rússia. À primeira vista, tudo não passava de um alinhamento natural entre Estados com interesses comuns. Mas é óbvio que tamanha polarização não poderia cheirar muito bem. Enquanto as maiores potências européias se juntavam para manter equilibrada a balança do poder, uma corrida armamentista sem precedentes acirrava os ânimos entre elas.

Três dessas potências impunham respeito não apenas por seu crescente poderio bélico. Para franceses, britânicos e alemães, o século 19 tinha sido um período de profunda transformação social e econômica. Foram décadas seguidas de intenso desenvolvimento, especialmente nas indústrias química e siderúrgica. No rastro da modernização de sua economia, populações cresceram, descobertas científicas se multiplicaram e inovações tecnológicas tornaram-se corriqueiras.

A cada avanço, porém, uma nova carta ia parar na manga dos generais de plantão. Armamentos mais e mais poderosos eram inventados a todo instante. Rádio e telefone revolucionaram as comunicações, facilitando como nunca o planejamento de operações militares. Trens e navios a vapor, cada vez mais velozes, já não precisavam de semanas para transportar regimentos inteiros até uma frente de batalha. Agora longas viagens eram feitas em poucos dias. E novidades como os motores a diesel finalmente transformaram submarinos em máquinas de guerra potencialmente letais.

“Mobilizar exércitos gigantescos tornou-se perfeitamente possível”, diz o historiador Stephen Badsey, da Universidade de Wolverhampton, na Inglaterra. “Em 1914, França, Alemanha, Áustria-Hungria e Rússia já tinham, juntas, algo entre 3 milhões e 6 milhões de combatentes à disposição.” Numa Europa dividida por nações imperialistas, que alimentavam rixas históricas e mostravam-se sempre dispostas a ampliar seus domínios, o resultado dessa equação não poderia ser outro: um conflito militar de proporções inimagináveis.

Locomotiva alemã

A Alemanha começou a virar uma pedra no sapato de britânicos e franceses logo após sua unificação, concluída em 1871 e comandada pelo “chanceler de ferro”, Otto von Bismarck. Dali em diante, o país embarcou num processo de desenvolvimento que, embora tardio, revelou-se impressionantemente acelerado. Não demorou para que França e Grã-Bretanha, acostumadas ao exercício de um poder hegemônico sobre a Europa, se sentissem ameaçadas. “Os alemães tinham um Exército moderno e uma Marinha em expansão”, afirma Nicholas Martin, professor do departamento de Estudos Alemães da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. “Os rivais acreditavam que eles tinham planos de ampliar suas fronteiras.”

Em poucos anos, a Alemanha converteu-se numa espécie de locomotiva da Europa. Sua indústria siderúrgica passou a produzir mais ferro e aço que França e Grã-Bretanha juntas. A produção de carvão cresceu 800%. E sua população saltou de 41 milhões, em 1870, para 66 milhões, em 1914. Detalhe: boa parte desse milagre econômico deveu-se às ricas províncias de Alsácia e Lorena, tomadas dos franceses ao final da guerra Franco-Prussiana, em 1871. A França jamais engoliu a perda desses preciosos territórios. E sentia-se alfinetada a cada demonstração de sucesso dos oponentes.

Do outro lado da Europa, conflitos fronteiriços e rixas veladas também geravam inquietação. A Rússia e o Império Austro-Húngaro, assentados sobre uma variedade de etnias, lutavam para evitar a desintegração de seu território. Financiados pela França, os russos tentavam modernizar sua economia. Mas temiam que o processo desse asas à imaginação de minorias e estimulasse movimentos separatistas. Já os austríacos se preocupavam com a Sérvia, que não escondia o desejo de unir todos os sérvios e croatas numa única nação. Como havia duas vezes mais sérvios no Império Austro-Húngaro do que na própria Sérvia, essa intenção só poderia soar como ameaça.

Foi nesse contexto tumultuado que, no final do século 19, as potências européias procuraram se alinhar de maneira defensiva. Em 1879, Alemanha e Áustria-Hungria firmaram um acordo de proteção contra possíveis ataques da Rússia. Três anos mais tarde, em 1882, a Itália – rival da França no Mediterrâneo – juntou-se aos dois países, constituindo a Tríplice Aliança. A contrapartida veio em 1904, com a assinatura de um tratado entre França e Grã-Bretanha. Três anos depois, em 1907, o Império Russo aderiu ao bloco, dando origem à Tríplice Entente.

Tensão nos Bálcãs

Ocupada demais com a administração de seu vasto império ultramarino, a Grã-Bretanha só foi se dar conta do real perigo que a Alemanha representava na passagem do século 19 para o século 20. Àquela altura, os alemães não apenas expandiam sua Marinha de Guerra – queriam transformá-la numa armada tão poderosa quanto a britânica. O troco veio na mesma moeda, com o Reino Unido aumentando o ritmo de sua produção naval. Mas a Alemanha não deixou barato e reforçou seu Exército, ampliando-o em 30%. A corrida armamentista parecia irrefreável. E tudo indicava que a próxima guerra na Europa levaria a níveis de destruição jamais vistos.

Enquanto alianças se consolidavam entre as principais potências, mais um barril de pólvora entrou em cena. Nos Bálcãs, duas províncias turcas – Bósnia e Herzegovina – foram formalmente anexadas pelo Império Austro-Húngaro em 1908. Os sérvios, que também estavam de olho naqueles territórios, ficaram inconformados e deram início à convocação de estrangeiros dispostos a lutar pela construção da Grande Sérvia. Quatro anos mais tarde, eles se uniram à Bulgária para expulsar os turcos da Europa. Junto com gregos e montenegrinos, formaram a Liga Balcânica, que logo em seguida declarou guerra ao Império Otomano. Um mês depois, já não restava um único turco em território europeu.

O triunfo dos sérvios e seus aliados desestabilizou o Império Austro-Húngaro. Agora calar a Sérvia era uma questão de soberania. Em 1914, o governo austríaco decidiu promover operações militares na Bósnia, numa clara provocação à vizinha rival. Francisco Ferdinando, sobrinho do imperador austríaco e herdeiro do trono, foi enviado para Sarajevo como observador. O clima nas ruas da capital bósnia era tenso. E a situação pegou fogo de vez quando, no dia 28 de junho daquele ano, Ferdinando foi assassinado por um integrante da organização clandestina Mão Negra, que lutava pela criação da Grande Sérvia. Era o que faltava para mergulhar toda a Europa num conflito armado. Em 28 de julho, a Áustria-Hungria declarou guerra à Sérvia, levando a Rússia a mobilizar suas tropas em defesa do país aliado. No dia 1o de agosto, foi a vez de a Alemanha se manifestar, declarando guerra ao Império Russo. França e Grã-Bretanha entraram na briga logo em seguida. O sistema de alianças que dominava o continente funcionou. Assim teria início a 1ª Guerra Mundial.

Rede de intrigas

A Europa estava metida num emaranhado de relações perigosas quando o século 20 começou

Grã-Bretanha

Até gostava da idéia de uma Alemanha forte, que fizesse alguma sombra à eterna rival França. Mas nem tanto.

França

Pobre coitada: antes da guerra, sofreu com britânicos e alemães, que não suportavam a idéia de vê-la forte demais.

Alemanha e Áustria-Hungria

Irmãos de sangue, faziam qualquer negócio para garantir um lugar entre as potências européias.

Itália

Fechou com Alemanha e Áustria-Hungria antes da guerra, mas foi para as frentes de batalha junto com os Aliados.

Rússia

Pobre e atrasada, preferia evitar encrenca com os vizinhos austro-húngaros. Mas encontrou na França um bolso amigo.

Império Otomano

Perdeu a Bósnia e a Herzegovina para os austro-húngaros em 1908. Mas tudo bem. A Áustria era inimiga dos seus inimigos nos Bálcãs.

Tiros em Sarajevo: Vai começar a grande guerra

Texto Fernando de Martini

Por pouco o arquiduque Ferdinando não escapa do atentado que tirou sua vida, matou sua esposa e deu início a um dos conflitos mais sangrentos da história. Vire a página e descubra como foi.

Reportagem fotográfica