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E se Tancredo não tivesse morrido?

Paula Bianca Bianchi

Ele estaria velhinho, com 101 anos. E o Brasil de hoje possivelmente seria menos miserável e mais nacionalista. Tudo por causa da popularidade desse político que foi internado em 14 de março de 1985 – véspera de tomar posse como o primeiro presidente civil após a ditadura no Brasil – e morreu pouco mais de um mês depois.

Tancredo foi um dos líderes das Diretas Já, que em 1984 chegaram a reunir mais de 1 milhão de pessoas em passeatas por eleições presidenciais diretas. O movimento fracassou, mas Tancredo participou das negociações que ajudaram o país a ter, pelo menos, eleições indiretas. E acabou escolhido como o novo presidente pelo colégio eleitoral encarregado da votação. Com a morte de Tancredo, o comando do país coube a José Sarney, um político que não tinha o carisma do companheiro de chapa e ainda havia sido do PDS, antiga Arena, partido dos militares.

Ao assumir o cargo, Sarney teve como desafio domar a alta inflação – passou dos 230% em 1985. Lançou o Plano Cruzado, que mudou a moeda e congelou preços. “Foi um plano eleitoreiro, para ganhar popularidade”, diz Sergio Bessa, professor da FGV do Rio de Janeiro. Com o congelamento, começou a faltar produto no mercado – e os preços voltaram a subir. “Tancredo não tentaria medidas tão radicais. Ou evitaria o Plano Cruzado ou acabaria com ele logo que os problemas surgiram”, afirma Bessa.

Ou seja: para Bessa, a estabilidade que o Brasil alcançou com o Plano Real em 1994 talvez tivesse chegado antes. E nós poderíamos ter escapado da sucessão de planos econômicos: Bresser, Verão, Collor… Aliás, Collor quem mesmo? Ele se elegeu criticando Sarney, não teria tanto material de ataque contra Tancredo. Possivelmente ficaria como uma força da política alagoana – e só. Tancredo poderia aproveitar sua popularidade como líder da democracia para fazer um sucessor. Até Lula ficaria longe do Palácio do Planalto. Quer dizer, não tão longe. Ficaria ali pelas redondezas, no Congresso Nacional.


O Brasil do doutor Tancredo

A família brasileira teria a tão sonhada casa própria e andaria de Gurgel. E adolescentes loucos por tudo o que não fosse made in Brazil

Éééééé doooo Brasiiiiiiiiiil

Tênis, computador, tudo de marca nacional. Os carros da Gurgel, fábrica brasileira, talvez tivessem sobrevivido. “Tancredo era nacionalista. Não abriria a economia a importações antes de nossa indústria se fortalecer, como fez Collor”, afirma Pedro Bandeira, professor de economia da UFRGS.

Juventude alienada

Em 1992, estudantes pediram o impeachment de Collor. Em 1994, ajudaram a eleger um novo presidente. Depois disso, no entanto, a participação de eleitores de 16 e 17 anos caiu. Sem um movimento estudantil como o de 1992, os jovens ficariam ainda mais distantes da política.

Lula, só mais um cara

Lula teria assistido de longe à visita de Obama ao Brasil. A popularidade que levou o sindicalista à Presidência veio, em grande parte, da oposição a Collor. Sem essa alavanca, Lula poderia se manter como deputado federal, cargo para o qual foi eleito em 1986.

Contação de histórias com Sarney

Sarney teria mais tempo para se dedicar à sua outra carreira: a literária. Fundador do pós-modernismo no Maranhão ao lado de Ferreira Gullar, ele participaria de discussões e feiras literárias. Poderia até ser indicado ao Prêmio Nobel, como aconteceu com Gullar em 2002.

Pobres, porém limpinhos

Mais gente teria casa para morar. Em 1991, o congelamento da poupança derrubou quase à metade a venda de imóveis residenciais. Sem medidas como essa e a sucessão de planos econômicos, a redução da miséria brasileira – iniciada no fim dos anos 90 – poderia ter começado antes.

Fontes Ipea, Secovi-SP; Abecip; José Augusto Dias Júnior, professor de história na Faculdade Cásper Líbero; Rodrigo Patto Sá Motta; pesquisador da UFMG; Ricardo Barros Sayeg, professor de história do Colégio Paulista (Copi); Pedro Sérgio, professor de história do cursinho Universitário; Fábio Wanderley Reis, professor de ciências políticas da UFMG; Pedro Bandeira, professor de economia da UFRGS; Sérgio Bessa, professor da FGV-RJ.