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Em defesa da cabala pop

Ele pode ser visto circulando ao lado de gente como Madonna e Britney Spears. Já foi eleito pela revista Newsweek um dos 5 rabinos mais influentes dos EUA. Comanda, ao lado do irmão, uma rede com 50 centros de cabala espalhados pela planeta. Conheça Yehuda Berg, o porta-voz da cabala pop.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h36 - Publicado em 19 mar 2011, 22h00

Entrevista Marisa Adán Gil

Garoto-propaganda da cabala, um dos rabinos mais influentes dos EUA, um charlatão em busca de dinheiro fácil. Yehuda Berg já foi chamado das 3 coisas, e muito mais. Para alguns, o cabalista de 35 anos estaria fazendo história ao tornar os ensinamentos da cabala acessíveis para milhares de pessoas no mundo todo. Para outros, ele estaria esvaziando todo o sentido da antiga sabedoria judaica, transformando-a em uma coleção de lições de moral para consumo rápido. Ou, como preferem alguns, McMisticismo.

Uma coisa é certa: Berg é hoje um dos maiores responsáveis pela divulgação da chamada “cabala pop”, que tem como especialidade transformar o simbolismo místico judeu em aplicações práticas para solucionar problemas no dia a dia. Ao lado do irmão, Michael, Yehuda comanda o Kabbalah Centre International, com 50 centros de estudo da cabala espalhados pelo mundo e cerca de 3 milhões de alunos. Celebridades como Madonna, Demi Moore ou Susan Sarandon não tomam nenhuma decisão sem consultar o mestre cabalista (ou algum de seus associados). Escritor assíduo, já lançou mais de 20 livros, entre eles os best sellers O Poder da Cabala (Imago), Os 72 Nomes de Deus (Rocco) e A Vida Manda Ver (Contraponto).

Espécie de porta-voz da cabala “light”, Berg vive viajando pelo mundo em busca de adeptos: em maio deste ano, esteve no Brasil para divulgar um novo livro e aproveitou para fazer palestras no Rio e em São Paulo. “Há um grande despertar espiritual acontecendo no Brasil”, diz Berg. “Os brasileiros são muito fiéis às suas crenças, mas ao mesmo tempo estão abertos a outros ensinamentos. Dessa maneira seguem, sem saber, dois princípios importantes da cabala moderna: inclusão e não julgamento.” Na entrevista a seguir, o diretor do Kabbalah Centre fala sobre misticismo, religião, autoajuda e caos.


Qual a importância da cabala no mundo de hoje?
De uma maneira geral, a sociedade evoluiu muito nas últimas décadas. Tivemos avanços na medicina, na tecnologia, nas áreas política e social. Mas ainda há muito caos nesse mundo. E isso faz com que as pessoas saiam atrás de respostas para suas inquietações: um dos lugares onde encontram amparo é a cabala. Eu acredito que, fazendo uso da cabala, podemos promover mudanças importantes no planeta. É claro que não é possível consertar o caos, mesmo porque os problemas que estamos enfrentando levaram anos para ser criados. Vai levar muito tempo para conseguirmos mudanças mais profundas. Mas, como indivíduos, podemos começar consertando a nós mesmos. E é nisso que a cabala pode ajudar.

Por um longo tempo, os ensinamentos da cabala estiveram restritos a um pequeno grupo, geralmente estudiosos judeus com mais de 40 anos. Hoje, a cabala está em todo lugar: na internet, nos livros de autoajuda, em centros de estudo como o Kabbalah Centre. Como isso aconteceu?
Bem, não é só a cabala que está em todo lugar. Todas as informações estão mais disponíveis, já que você pode encontrar qualquer coisa online. Mas acredito que o surgimento do Kabbalah Centre, em 1984, é em grande parte responsável por essa popularização. Meu pai, que fundou o centro, acreditava que estava na hora de a cabala ser revelada para o mundo. E é isso que estamos fazendo. Também acho que é uma questão de timing: na minha opinião, essa sabedoria nunca foi tão necessária quanto agora. O mundo precisa de ensinamentos espirituais fortes, não apenas os da cabala mas todos eles. Durante muito tempo, quando havia problemas, as pessoas se voltavam para as religiões. Hoje em dia, há mais opções. Você não precisa ser religioso para ter uma vida espiritual rica.

No passado, estudar cabala requeria conhecimentos especiais. Hoje, existem dezenas de livros que explicam a cabala de forma simples e didática. Mas fica a dúvida: será que algo não se perdeu nessa tradução?
Essa tentativa de traduzir a cabala não é algo recente. Faz muito tempo que alguns cabalistas se empenham em adaptar os antigos ensinamentos para o público leigo. Quer dizer, os textos originais do Zohar estavam escritos em aramaico, uma língua que apenas alguns poucos estudiosos dominam. Ao longo dos séculos, foram feitas várias tentativas de tradução, não só do idioma mas dos conceitos, sempre tentando tornar essa sabedoria mais acessível. Essa é a essência do meu trabalho: quero que qualquer pessoa seja capaz de entender os fundamentos básicos da cabala. Veja bem: se você quiser se tornar realmente um mestre cabalístico, terá que voltar às fontes, aos escritos originais, estudar o Zohar. Vai levar anos, e não vai ser fácil. Mas, se quiser saber o básico, os livros e cursos disponíveis são mais do que suficientes. Obviamente não é a mesma coisa. Mas por que não garantir o acesso a esse conhecimento, ainda que de uma forma simplificada?

Você usa redes sociais como Twitter e Facebook para se comunicar com os futuros cabalistas. Dá pra ensinar cabala em 140 caracteres?
Dá para plantar a semente. Eu acredito, sim, que um simples post pode ser o toque que aquela pessoa precisa para tomar uma decisão. Claro que ninguém vai mudar sua vida por causa do Twitter ou do Facebook. Mas, às vezes, tudo o que a pessoa precisa é de um empurrãozinho…

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Em todas as suas entrevistas, você enfatiza que a cabala não é uma religião. Existe uma preocupação em desvinculá-la do judaísmo?
No passado, somente os judeus podiam estudar a cabala. Então, algumas pessoas acreditam que ainda é assim. Por isso, acho importante acabar com essa percepção. Quer dizer, você não tem que ser hindu para seguir os ensinamentos de Deepak Chopra, certo? Desde o início, a cabala sempre foi pensada como sabedoria, não como religião.

Você é judeu?
Não diria que minha religião é o judaísmo. Eu formulei meu próprio sistema de crenças, com base em várias religiões diferentes. Eu tirei lições do Alcorão, da Bíblia, da Torá. Então, minha religião não tem um nome específico. Só sei que ela é importante para mim. Acredito que a religião é um presente que nos foi dado para nos conectarmos com Deus. Mas, infelizmente, algumas vezes ela é usada como um meio de separar as pessoas, em vez de uni-las. E aí perde sua função original.

Você diz que não é necessário ser judeu para estudar a cabala. Mas ajuda?
Conhecer o idioma hebraico pode ajudar na hora de entender os textos originais, ou os ensinamentos contidos no Zohar. Mas essa seria a única vantagem. Quer dizer, alguém que conheça muito bem a Bíblia, como um padre, por exemplo, também vai ter mais facilidade na hora de estudar a cabala. Qualquer pessoa com conhecimentos profundos sobre as escrituras sagradas já sai na frente. Mas tanto faz se for a Bíblia ou a Torá.

Tanto católicos quanto judeus costumam ter uma certa desconfiança a respeito da cabala. Por que acha que isso acontece?
Muita gente tem medo de que a cabala vá se contrapor à sua religião, entrar em choque com ela. Mas as duas coisas podem conviver em harmonia: os ensinamentos funcionam como um complemento. Outro problema é que pessoas muito ligadas à sua religião costumam fazer julgamentos a respeito do que consideram “misticismos”. Os judeus, até mais do que os católicos. Já me senti bastante julgado pela comunidade judaica.

Em seus livros, você fala muito sobre ação e reação. Uma de suas principais orientações é que é necessário ser proativo, e não reativo. O que significa isso?
Se você apenas reage ao que acontece em sua vida, acaba sendo um efeito desse mundo, quando, na verdade, você deveria ser a razão pela qual as coisas acontecem. Ensino que, nessa vida, há duas opções: você pode tomar as suas decisões ou deixar que alguém decida por você. Ser reativo é exaustivo, porque você fica o tempo todo esperando o que vai acontecer em seguida, para só depois decidir como vai reagir àquilo. Quem assume uma postura proativa não espera que o seu futuro seja definido pelo acaso. Essa pessoa sabe que existem coisas que pode mudar e outras não, e assume a responsabilidade por isso. Esse é o começo da mudança proposta pela cabala.

Algumas pessoas chamariam isso de autoajuda?
Tudo depende de como a pessoa vai se relacionar com esse conhecimento. Quer dizer, se você pega a Bíblia, lê um trecho, tira uma lição dali, é autoajuda. É algo superficial, temporário, que não deixa marcas. A cabala pode ser estudada em vários níveis. Então, alguém pode vir ao centro, dar uma espiada, ler alguma coisa e depois ir embora. Não vai significar nada. Mas há milhares de pessoas que estão estudando a cabala há 10, 15, 20 anos. Para elas, cabala é uma coisa duradoura, e não uma solução temporária. Elas levam os ensinamentos muito a sério.

Boa parte da fama do Kabbalah Centre se deve ao fato de o centro ser frequentado por gente como Madonna e Demi Moore. Não seria isso apenas uma estratégia de marketing para ganhar mais adeptos?
Bom, nós nunca corremos atrás das celebridades, elas é que vieram até nós. Não são elas o nosso público-alvo. Se elas querem vir ao centro, ótimo, mas não fazemos disso um objetivo. Tem muita gente por aí julgando o que o Kabbalah Centre faz, mas tudo o que digo é: venha ao centro, assista a uma aula, consulte o site, conheça o nosso trabalho. Se você gostar, ótimo. Se não gostar, ótimo. Mas não julgue antes de experimentar por você mesmo.

Seu pai, Philip Berg, foi o criador do Kabbalah Centre. Sentiu desde o início uma pressão para seguir os passos dele? Você tem 5 filhos, como vai ser quando eles crescerem?
Ele nunca me disse o que deveria fazer. Eu poderia ter escolhido qualquer outra carreira. Mas teve um ponto na minha vida, aos 23 anos, em que eu disse: “Deixa eu tentar fazer parte desse trabalho”. Gostei da experiência e continuei. Eu gostaria que meus filhos também estudassem a cabala. Mas a decisão vai ser deles.

“Nunca fomos atrás das celebridades, elas é que vieram atrás de nós. Seria melhor se as pessoas conhecessem o nosso trabalho antes de fazer julgamentos.” Yehuda Berg

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