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Evolução apressadinha

DNA humano sugere que a nossa espécie se modificou 100 vezes mais rápido do que o normal nos últimos 10 mil anos

A idéia parece cópia descarada de um episódio de Heroes: os seres humanos estariam passando pela maior explosão evolutiva de sua história. No entanto, é nessa hipótese que um grupo de pesquisadores americanos está apostando suas fichas. Eles dizem que, nos últimos 10 mil anos (desde a invenção da agricultura, mais ou menos), a evolução da nossa espécie ficou 100 vezes mais rápida do que nas fases anteriores. O resulta­do: geneticamente, seríamos tão diferentes das pessoas de 5 mil anos atrás quanto elas diferiam dos neandertais, cuja li­nhagem se separou da nossa há 500 mil a­nos.

“A maioria dos cientistas assume que a evolução humana ‘parou’ há uns 40 mil anos, principalmente em termos comportamentais. É que, nessa época, nossos ancestrais já produziam arte de altíssimo nível e tinham instrumentos e vida social complexa. Mas essa é uma afirmação sem nenhuma evidência que a apóie”, diz Robert Moyzis, co-autor do estudo e pesquisador da Universidade da Califórnia em Irvine. Existem vários argumentos em favor da tese de Moyzis. Acontece que a população humana cresceu umas 7 mil vezes desde que a agricultura surgiu. Mais gente significa mais cópias do DNA humano circulando por aí. Mais cópias = mais mutações nesse DNA – e mutações são a matéria-prima da evolução. Para completar, nos últimos milhares de anos, o Homo sapiens colonizou praticamente todos os ambientes da Terra e criou culturas variadas – ou seja, um grande número de oportunidades para que as novas mutações se mostrassem vantajosas.

“Os genes ligados ao comportamento também parecem estar evoluindo, como os que controlam as mensagens químicas nos neurônios”, diz Henry Harpending, da Universidade de Utah, que também assina o estudo. Faz sentido, diz ele: a vida social “civilizada” é muito diferente da dos caçadores-coletores. “Assim como nós domesticamos os animais, talvez tenhamos domesticado a nós mesmos”, compara Moyzis. Para a dupla, não há sinal de que o processo esteja realmente parando. Apertem os cintos.

 

Quanto mais gente melhor

Como o crescimento da população na Terra acelerou a evolução
 

7 milhões de anos atrás – Sahelanthropus tchadensis

Os fósseis desse primata encontrado no Chade são considerados os mais antigos da linhagem humana. Seu crânio sugere que já caminhava com duas pernas, como fazemos nós e nossos ancestrais conhecidos – e ao contrário dos chimpanzés. As razões da mudança na locomoção não estão claras.
 

1,8 milhão de anos atrás – Homo erectus

Aparentemente originário do leste da África, o erectus é o primeiro ancestral do homem a apresentar grande crescimento no tamanho do cérebro, chegando a cerca de dois terços da capacidade craniana que temos hoje. As proporções de seus braços e pernas também são próximas das nossas.
 

190 mil anos – Homo sapiens anatomicamente moderno

Também no leste da África, aparecem os primeiros fósseis cuja anatomia geral é praticamente idêntica à nossa. No entanto, por razões ainda misteriosas, apresentavam comportamento pouco complexo, sem instrumentos refinados ou arte.
 

35 mil anos – Gene “neandertal” favorece o crescimento do cérebro

Há indícios de que a forma mais comum de um gene ligado à evolução de cérebro foi, na verdade, introduzida no nosso genoma a partir do cruzamento de antigos Homo sapiens com neandertais. O aumento da freqüência desse gene sugere que ele foi favorecido pela seleção natural.
 

20 mil anos – Surge a cera de ouvido seca

“E daí?”, você deve estar perguntando. Acontece que o mesmo gene que regula essa característica também diminui a produção de suor. Cientistas apostam que ele surgiu entre os povos que colonizaram o nordeste da Ásia, como adaptação ao clima frio da região – lá, ficar com suor congelado perto do corpo não é boa idéia.
 

10 mil anos – Primeiros humanos com olhos azuis

Todas as pessoas com olhos azuis parecem compartilhar a mesma seqüência no DNA. Isso pode indicar que descendem de alguém que teria vivido há cerca de 10 mil anos. A mutação teria se espalhado por seleção sexual – algum grupo passou a considerar olhos azuis uma característica atraente.
 

6 mil anos – Adultos europeus tornam-se capazes de digerir leite

Durante a maior parte da história, só crianças bebiam leite puro. Mas, com a domesticação das vacas, tornou-se vantajoso também para adultos poder absorver o alimento. Uma mutação com essa característica se espalhou rápido no norte da Europa e entre povos vaqueiros do leste da África.
 

1,2 mil anos – Mutação protege portadores da anemia

Em algum lugar do noroeste da Europa – possivelmente na Grã-Bretanha ou na Irlanda –, uma alteração no gene HFE aumentou a capacidade do organismo de absorver ferro, conferindo proteção contra a anemia. Os descendentes do mutante se espalharam para o sul e o leste da Europa.
 

700 anos – Gene dá resistência à Peste Negra

Quem possui uma variante “desligada” do gene CCR5 costuma ser resistente à aids – o CCR5 funciona como uma porta para a invasão do HIV. Acredita-se que essa forma do gene, comum na Europa, ganhou proeminência durante a peste negra, na Idade Média. É que ele também protege contra o micróbio da peste.