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Google: o lado negro da força

Na Internet, o Google é Deus. Sabe tudo, está em tudo e pode tudo. Mas isso não é coisa do demônio?

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h28 - Publicado em 30 jun 2007, 22h00

Texto Pedro Dória

Em novembro de 2006, o Google comprou o YouTube por US$ 1,65 bilhão. Pagou em ações. O acordo saiu na televisão, na capa de revistas, virou assunto por toda parte. O preço, astronômico, surpreendeu a todos. Talvez ali estivesse o início da tevê via internet. Talvez. Sob o impacto do negócio, a revista Time elegeu como pessoa do ano de 2006 Você, que posta vídeos e produz o conteúdo da web.

Em maio deste ano, o Google anunciou a compra da DoubleClick, empresa de publicidade online, por US$ 3,1 bilhões. Se as agências que regulam esse tipo de negócio nos EUA disserem que o acordo não ameaça o mercado, o acerto será pago em dinheiro. Note bem: US$ 3 bilhões. Cerca de dois YouTubes.

Não é que a imprensa tenha ignorado o assunto. Ele foi coberto sem alarde nas páginas de negócios. E só. Por que é que a DoubleClick­, sobre a qual ninguém ouviu falar, vale o dobro do que o YouTube, que todo mundo usa? Porque ela poderá dar ao Google o monopólio da publicidade online. Mas, para entender como, é preciso antes se familiarizar com as entranhas da internet.

A DoubleClick gerencia a exibição de banners – aqueles anúncios às vezes retangulares, outras quadrados, fazendo o meio-de-campo entre sites e os maiores anunciantes do mundo. Os números são os seguintes: banners, em 2006, movimentaram US$ 3,34 bilhões. Em 2010, devem ser US$ 4,5 bilhões. Nem é o maior negócio da publicidade online. Sabe os tais “links patrocinados” que o Google exibe associados ao tema que você está buscando? Deram lucro de US$ 6,76 bilhões no ano passado. Vão dar US$ 10,3 bilhões em 2010. O Google é o maior desse ramo. A DoubleClick, daquele. Junte os dois e o Google é dono de dois terços de toda a publicidade que circula pela internet no mundo.

Isso é um problema para todo mundo. Em primeiro lugar, monopólios só são bons para o dono. Sem concorrentes, o Google cobra o quanto quer por seus serviços. A inovação míngua – pequenas empresas não conseguem competir. Na internet, isso é fatal. Em segundo lugar, porque quando a empresa que controla a maior quantidade de informação sobre pessoas na rede é também quem controla a exibição de publicidade, a privacidade se perde. Porque ninguém, na internet, sabe mais sobre você do que o Google.

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Rede fechada

Para entender o motivo, é preciso compreender a importância de um site de buscas. Comecemos assim: o Google sabe quem você é. Mesmo. Sabe mais, se bobear, que seu psicanalista. Todos nós usamos sites de busca, principalmente o Google. Muitas vezes é para trabalho ou estudo. Noutras, para encontrar algo que queremos comprar – a melhor câmera digital, o carro ideal. Aí tem aquelas vezes, ali na madrugada, que digitamos na caixa de busca nossos segredos mais particulares. Uma doença grave, a busca por um empréstimo, a procura solitária por um amor. Todo mundo, como sugeriu Fernando Pessoa, sofre da “angústia das pequenas coisas ridículas”. Pois aquilo que escondemos de todo mundo, o Google sabe.

Some a isso a DoubleClick, que tem tecnologia para colocar anúncios específicos na página que você está lendo, e seja bem-vindo ao paraíso dos anunciantes. Um sistema que liga as duas pontas: sabe alguém potencialmente interessado no seu produto e leva sua propaganda a ele no momento certo. Atirar anúncios genéricos para milhões de pessoas a preços exorbitantes para capturar uns milhares de clientes, nunca mais. (Para constar, Sergey Brin, um dos dois fundadores do Google, jura que sua turma vai pensar muito antes de integrar aquilo que o sistema de buscas sabe e o que é passado para o gerente de banners.)

Impressionado? A empresa tem outras garras. O Gmail, seu popular correio eletrônico, vem acoplado com um sistema inteligente de propaganda capaz de ler suas mensagens e encontrar palavras-chave lá. No Brasil, o orkut é um dos sites mais usados. É do Google. YouTube? Google. Metade de todas as buscas na internet são feitas via Google – o que dá ao site o poder de determinar o que será visto e o que ficará enterrado nas profundezas da web. Junte tudo, mais a quantidade de informação pessoal que o Google é capaz de armazenar a seu respeito… e não sobra muito. O Google sabe quem você é. Sabe de que livros gosta – está lá no seu perfil no orkut. Conhece todos os e-mails que você recebe, todos os que envia, qualquer coisa que você procurar na internet (sim, tudo o que é escrito na caixinha de busca fica armazenado). Agora pegue todas as informações e coloque-as à venda. É exatamente esse o negócio que o Google tem nas mãos.

Até hoje, o Google se comportou como uma empresa simpática – seu slogan diz Don’t Be Evil, “Não Seja do Mal”. Mas a frase foi criada quando só os fundadores decidiam tudo. Agora é preciso responder à pressão dos acionistas. E, nas empresas, dinheiro alto costuma contar mais. Se o governo da China pede para censurar algumas buscas, o empresário pensa no compromisso com a liberdade da internet, pensa nas possibilidades do mercado chinês, decide pelo mercado. É o que o Google fez quando o governo chinês exigiu que não exibisse links para assuntos que não lhe interessam. Grupos de oposição, por exemplo.

A propósito: alguém perguntou a Você – aquele, o da capa da Time – se seu segredo mais íntimo – aquele, o da busca na alta madrugada – pode ser colocado à venda?

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