GABRILA65162183544miv_Superinteressante Created with Sketch.

Jetsün Milarepa

Caco de Paula

Nunca houve tanta ênfase quanto hoje na idéia de que cada um traz dentro de si as soluções para os seus problemas. Presente nas palavras de Sócrates e de Cristo, essa mensagem também está entre os conceitos centrais do budismo tibetano. Não por acaso, um dos livros mais vendidos este ano no Brasil é A Arte da Felicidade, do Dalai Lama, o líder do Tibete no exílio. Sua principal afirmação: a felicidade é resultado de atitudes mentais que o homem pode controlar. Na origem desses conceitos estão os Upanishads – escrituras védicas produzidas na Índia a partir de 800 a.C. – e os ensinamentos do Buda Sakiamuni (aproximadamente 563-483 a.C.). Mas a forma como os conceitos chegam até nós incorpora muito da cultura do Tibete e de seu maior iogue e poeta, Jetsün Milarepa (1040-1123).

Grandes homens santos das mais diversas tradições têm sua vida contada pela descrição de eventos que pertencem ao aspecto simbólico da fé – como a imagem do profeta judeu Elias subindo ao paraíso em um carro de fogo, ou Jesus se erguendo da morte em seu corpo espiritual. A vida de Milarepa é também recheada de acontecimentos transcendentais, como voar, permanecer em mais de um lugar ao mesmo tempo ou ser capaz de transferir a dor de seu corpo para uma porta de madeira, fazendo-a ranger e rachar. O santo nacional tibetano simboliza o homem como senhor de seu destino, sujeito a erros mas capaz de corrigir a rota e evoluir através da compaixão e da renúncia. Na juventude, tornou-se feiticeiro e, entre outras proezas, matou dezenas de pessoas por vingança. Mesmo assim, pelo remorso e com os sacrifícios que fez sob as ordens de seu mestre, Marpa, purificou-se de suas ações negativas e atingiu a iluminação. Sua biografia é o retrato de um homem para quem a busca da auto-realização supera tanto a fé cega quanto o conhecimento intelectualizado. Para Milarepa, o essencial é a prática. No Tibete, ele é considerado o iogue que mais experimentou as possibilidades da mente. Em seu poema “Gur-Bum” (“Cem Mil Canções”, em português), o iogue cantor entoa verdades que permanecem atualíssimas, como esta: “Aquele que não tem em si mesmo a fonte da felicidade encontra apenas sofrimento nos prazeres externos”.

No seu livro O Tao da Física, Fritjof Capra mostra como certas concepções da ciência moderna, sobretudo da teoria atômica, aproximam-se do misticismo oriental – exemplo disso é a interdependência dos fenômenos.

A idéia de não-dualidade – presente em “Cem Mil Canções” –, quando traduzida para os atuais conceitos de teoria quântica, é a de que não há um observador isento diante do objeto observado. Da mesma forma, o budista tântrico não crê que haja um mundo externo e independente dele. Ambos são apenas dois lados do mesmo tecido, no qual os fios de todas as forças e eventos se entrelaçam e se condicionam mutuamente. A idéia de teia cósmica desempenha um papel central no budismo tântrico, surgido na Índia por volta do século III d.C. e que constitui a escola mais importante do budismo tibetano. Suas escrituras são denominadas tantra, termo cuja raiz (“tecer”) se refere ao estado de entrelaçamento e à interdependência de todas as coisas e eventos.

Isso tem tudo a ver com a vida do homem contemporâneo, a começar pela percepção de que as fontes dos maiores problemas não são provocadas por entidades externas, nas quais se possam depositar as culpas, mas sim pela própria disposição mental de cada indivíduo. “Nós temos um padrão mental de atitudes negativas que se manifestam sem esforço, como raiva, inveja e desejo de vingança”, diz Daniel Calmanowitz, diretor do Centro de Dharma da Paz, em São Paulo. “O que Milarepa nos diz é que é possível produzir atitudes mentais positivas. Dá trabalho, mas os benefícios são enormes.”

* Editor da revista Veja São Paulo.