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Konstantin Tsiolkovsky

Surdo, pobre, isolado e ignorado, ele desenvolveu todos os princípios científicos que levariam à conquista do espaço

Dizem que no espaço ninguém ouve você gritar. Bem, isso certamente era verdade para o pai das viagens espaciais, que desde criança era praticamente surdo.

Konstantin Tsiolkovsky tinha tudo para ser sido ninguém. Filho de um polonês exilado na Rússia por suas atividades revolucionárias, ele contraiu escarlatina aos 9 anos. Recuperou-se da doença, mas perdeu praticamente toda a audição.

Em razão dessas circunstâncias, ele foi recusado por todas as escolas da região. Teve de aprender tudo sozinho. Quando jovem, passou a frequentar uma biblioteca e, livre dos preconceitos que professores poderiam lhe impor, construiu sua própria formação.

Inspirado em parte pela ficção de Júlio Verne, Tsiolkovsky decidiu dedicar sua mente ao desenvolvimento dos transportes aeroespaciais. A começar por um dirigível com uma estrutura metálica – um precursor do zepelim. Seu primeiro plano para um veículo do tipo foi produzido em 1892. Mas ninguém deu muita bola para ele ou se arriscou a financiá-lo.

Dois anos depois, Tsiolkovsky se voltou para os aviões e desenvolveu um projeto de monoplano com fuselagem, não muito diferente dos que apareceriam duas décadas depois. É bom lembrar que isso foi em 1894, 9 anos antes que os irmãos Wright fizessem seu primeiro voo motorizado. O governo russo, mais uma vez, não se interessou.

Para testar seus conceitos, em 1897 Tsiolkovsy construiu o primeiro túnel de vento russo, para estudar aerodinâmica. A essa altura, seus interesses já estavam mais ligados ao espaço sideral.

NASCE A COSMONÁUTICA

Ao se voltar para o estudo e a aplicação de jatos produzidos por reações químicas, o russo se deu conta de que essa era uma forma prática de realizar voo espacial. Nascia a ciência da astronáutica, ou, como preferem seus compatriotas, cosmonáutica.

Em 1903, Tsiolkovsky publicou seu trabalho mais revolucionário, em que não só defendia o uso de foguetes para atingir o espaço como também calculava a velocidade necessária para que ele escapasse da gravidade da Terra e entrasse em órbita e defendia o desenvolvimento de veículos com múltiplos estágios, movidos, preferencialmente, a hidrogênio e oxigênio líquidos.

De uma tacada só, ele resumiu os princípios que levariam à conquista do espaço – mais de meio século depois.

Logo depois que ele publicou seu trabalho seminal, Tsiolkovsky ficou decepcionado com a falta de interesse do meio acadêmico. Estava claro que ele estava muito adiante de seu tempo.

Foram necessárias décadas para que suas contribuições fossem devidamente apreciadas. Mas elas foram, tornando-se leituras obrigatórias para gente como o alemão (depois naturalizado americano) Wernher von Braun e o russo Sergei Korolev, pais dos dois principais programas espaciais do século 20.

Além do princípio dos foguetes, Tsiolkovksy também anteviu muitas das necessidades da exploração espacial, como o desenvolvimento de giroscópios para controlar a “atitude” (orientação que a nave tem no espaço) de veículos, a criação de trajes espaciais para atividades extraveiculares e até mesmo o conceito de um elevador espacial – uma estrutura que ligasse a Terra ao espaço -, inspirado pela construção da Torre Eiffel, em Paris.

O cientista e pensador russo defendia que o futuro do ser humano estava no espaço. Sua clássica frase: “A Terra é o berço da humanidade. Mas não se pode viver no berço para sempre”.

Detalhe: durante toda sua vida, Tsiolkovsky foi apenas um professor de matemática do ensino médio. i

POLÊMICAS DO VELHO KONSTANTIN

1. Ele passou a maior parte de sua vida numa casa de madeira nos arredores de Kaluga, a 200 km de Moscou. Recluso, era visto como esquisito pelos vizinhos.

2. Sua popularidade de início não floresceu no regime soviético, em razão de escritos em que ele defendia a eugenia, uma tentativa de aperfeiçoar artificialmente a espécie humana.

3. Tsiolkovsky promoveu, ao fim da vida, uma filosofia panpsiquista (em que toda matéria tem algum tipo de consciência) e pregou que a humanidade deveria colonizar a Via Láctea.