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Memórias do subsolo

Vestígios de bombas - e até corpos, vindos da Primeira Guerra levaram mais de 80 anos para serem encontrados

Por Guiliherme Pavarin Atualizado em 22 nov 2018, 16h03 - Publicado em 31 out 2004, 22h00

Acordar cedinho, arar a terra e, entre um golpe e outro no solo, desenterrar projéteis enferrujados da Primeira Guerra Mundial (1914-1919). Acredite, essa é a rotina atual de muitos fazendeiros belgas. Depois mais de cem anos após o início dos combates, o subsolo da Europa ainda guarda memórias do conflito. Desencavá-las não é só passatempo de historiadores. Como muitas armas ainda estão ativas, encontrá-las pode salvar vidas.

De 2001 para cá, milhões de balas, granadas, minas e bombas foram encontradas. Apenas em 2012 foram coletadas 185 toneladas de munição não-detonada – o maior volume desde que esse trabalho começou a ser feito. A maior parte foi recolhida na região de Ypres, município da província de Flandres Ocidental, na Bélgica, onde quatro sangrentos combates entre 1914 e 1918 mataram mais de meio milhão de soldados.

A Primeira Guerra é, disparado, o grande conflito com mais achados de combate. Nesse caso, a arqueologia militar pode agradecer ao agronegócio: fazendas, plantações, silos, frigoríficos e até empreendimentos imobiliários estão se instalando nas antigas zonas de combate e trazendo o passado à tona. “Recentemente houve um grande aumento de construções nessas áreas bombardeadas”, confirma Peter Francis, membro da Commonwealth War Grave Comission, instituição que cuida dos registros das guerras travadas pelo Império Britânico. A chamada colheita bélica segue uma lógica simples de escavação: quanto mais fundo, mais balas. “Não à toa operários de obras estão entre os que mais encontram projéteis.”

E há muito mais a cavar. Estima-se que um terço do 1,5 bilhão de projéteis disparados em Ypres tenha caído na terra sem explodir. (Você leu certo: 1,5 bilhão.) Para se chegar a essa estimativa astronômica, considere disparos constantes de ambos os lados da linha de combate durante quatro anos. Todo esse acervo aguarda embaixo da terra.

Embora cause fascínio em caçadores de relíquias, o campo minado preocupa. Vinte homens do esquadrão antibombas da Bélgica já morreram durante operações de desarmamento. E há ainda outro perigo enterrado: artefatos tão mortais que seu uso foi inclusive banido por tratados internacionais. Nos campos da Bélgica e da França, o fantasma das armas químicas ainda está vivo.

Com gás

Cerca de 5% das armas usadas na Primeira Guerra eram químicas – suficiente para preocupar até hoje. O risco de contaminação não é baixo, como descobriram os vizinhos de Ypres do outro lado da fronteira. Em 2001, os 12 mil habitantes do vilarejo francês de Vimy tiveram de evacuar o local depois que o exército descobriu recipientes de gás em vazamento. O lugar, um antigo depósito temporário de armas, continha 173 toneladas de munição da Primeira Guerra. Havia 16 mil peças disparadas por britânicos, alemães e franceses. O detalhe sórdido: quase tudo continha gás de mostarda e fosfogênio. Um contato superficial com essas substâncias provoca erupções na pele, e a exposição prolongada é fatal. As munições foram transportadas em veículos refrigerados para campos militares de Suippes, 200 quilômetros ao Leste, a fim de serem reestocadas em condições mais seguras. Os moradores tiveram de esperar dez dias para poderem voltar para casa.

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O mais alarmante, afirmam pesquisadores, é que os armamentos anacrônicos também podem prejudicar o ambiente. Aubin Heyndrickx, chefe de toxicologia aposentado da Universidade de Gent, na Bélgica, defende que as armas com gás mostarda apresentam grandes riscos à saúde humana mesmo se forem jogadas ao mar, como os exércitos fizeram por décadas. “Quando uma das cápsulas se rompe, o gás mostarda é liberado e pode ser lançado à terra firme da praia”, afirma em estudo. “Querem nos iludir de que esse gás mostarda se dilui rapidamente na água do mar e se torna inofensivo, mas é uma grande mentira. Permanece ativo, perigoso e mortal.”

Em novembro de 1918, soldados abandonaram o front ocidental de Flandres e muitos deles – primeiro ingleses, depois alemães – jogaram as munições inutilizadas no oceano. Os armamentos eram colocados em cargueiros, que derrubavam tudo no mar. É possível ver nos jornais da época que o governo belga tomou a decisão de jogar as munições no mar por causa do medo da população de que as bombas estourassem em terra firme e causassem uma série de mortes. Um relatório da marinha belga estima que as munições e cápsulas com gases derrubadas no mar chegaram a 340 toneladas por dia. A operação durou seis meses.

De acordo com outro relatório, do pesquisador J. P. Zandres, da Universidade Livre da Bélgica, há 1,1 milhão de litros de gases tóxicos nas águas das praias dos povoados de Knokke, Duinbergen e Heist, na Bélgica. Para não repetir os erros do passado, hoje o esquadrão responsável por encontrar, receber e desarmar as bombas do país conta com aparatos especiais, como scanners de raio-x para verificar o conteúdo dos projéteis. Se não for arma química, explodem em regiões desabitadas. Do contrário, o armamento passa por um processo de congelamento e depois é destruído em câmaras a vácuo ou é queimado com fornos equipados para neutralizar as toxinas.

Mas os esquadrões não encontram só bombas. Muitas das suas vítimas da guerra ainda estão nos campos de batalha onde tombaram.

Soldados reconhecidos

Corpos de ex-combatentes continuam sendo retirados dos antigos fronts da Primeira Guerra Mundial. Em média, cerca de 20 soldados são encontrados a cada ano. As áreas mais comuns são, além da região de Ypres, o campo de batalha de Somme e a cidade de Lille, ambos no norte da França. A novidade é que agora, com ajuda das tecnologias de identificação de DNA, fica mais fácil saber de quem é o corpo.

Entre 1994 e 2004, 124 soldados australianos (na época, súditos do império britânico) foram localizados nos campos franceses de Fromelles. Os traços genéticos são identificados a partir de dentes e ossos. Retalhos de uniformes, distintivos e fivelas de cinto ajudam a tornar o processo mais ágil.

Ao encontrar alguma pista, o primeiro traço estudado é a qual batalhão o corpo pertencia. Se for de um pequeno grupo de indivíduos, a comparação fica mais fácil. O projeto coleta DNA e outras informações de potenciais parentes daqueles que lutaram na região. “Muitos são encontrados sem nenhum artefato militar. Acabam sendo enterrados como soldados desconhecidos”, diz Sue Raftree, oficial do Ministério de Defesa Britânico. “Mas conseguimos muitas vezes encontrar pistas e resolver um caso que parecia sem solução.” Os especialistas nas investigações possuem conhecimentos em arqueologia forense, genealogia e antropologia.
Devido ao povoamento dos antigos campos de batalha, a expectativa é que a média de números de corpos encontrados aumente. De acordo com os registros, há mais de 155 mil militares que nunca tiveram seus corpos identificados. Se as previsões se confirmarem, o futuro será marcado por descobertas. E, tomara, nenhuma explosão inesperada.

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