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Mergulho a seco

Ricardo Arnt

Secando um pedaço de mar, arqueólogos recuperaram, no Golfo do México, o galeão La Belle, que afundou em 1686. Sem molhar os pés, eles descobriram um verdadeiro museu fantasma da colonização francesa na América.

Um museu afogado há três séculos

A água era escura, mas o detector de metais não falhou. Em julho de 1995, o arqueólogo americano Barto Arnold III, seguindo a pista de relatos históricos, descobriu um canhão do La Belle na Baía de Matagorda, no Texas. A nau do explorador francês René-Robert Cavelier, Senhor de La Salle (cidade a oeste de Montreal, no Canadá), enviado pela França para colonizar o delta do Mississipi, estava enterrada na lama. Um fim inglório.

Recuperar o navio era um desafio e tanto. Depois de meses de estudos, a Comissão Histórica do Texas decidiu construir uma ensecadeira em pleno mar e bombear a água para fora. Assim, os arqueólogos poderiam tomar um barco na cidade mais próxima, viajar 24 quilômetros até o “serviço” e escavar com pés secos, no maior conforto.

Dito e feito. Em dois anos de trabalho, encerrado em julho de 1997, descobriram 1 milhão de objetos, 750 000 dos quais contas de vidro colorido – a melhor moeda de comércio com os índios. Acharam pratos, talheres, machados, cerâmicas, sinos, rolos de arame, ferramentas, espadas, mosquetes, candelabros, jóias, sapatos de couro, os ossos de um cachorro, um solitário fêmur humano e um esqueleto completo e misterioso.

Tudo isso, agora, está sendo recuperado na Universidade do Texas, em Houston. “Descobrimos o mais antigo galeão francês da América”, disse à SUPER o diretor do Projeto La Belle, James Bruseth. “Em termos arqueológicos, é como achar um arquivo completo do início da colonização francesa nos Estados Unidos. É inestimável.”

Um erro de cálculo fatal

La Salle partiu da França em 1684 com 300 homens e a missão de colonizar a bacia do Rio Mississipi, na América. Tinha quatro bons navios: o La Belle, o L’Aimable, o Le Joly e o Saint François. Mas a expedição foi um desastre. Nas Antilhas, perdeu o Saint François para piratas. Na viagem, o escorbuto e a malária mataram muita gente.

A frota passou direto pelo Mississipi e foi parar no Texas, 800 quilômetros adiante. Na Baía de Matagorda, o Belle contornou os baixios da entrada e fundeou em águas calmas. Mas o L’Aimable afundou, levando suprimentos vitais. Então, parte dos tripulantes desistiu e voltou para a Europa no Le Joly.

La Salle ficou só com um navio, 170 homens e uma vontade de ferro. Construiu o Fort de Saint Louis, 120 quilômetros ao sul de onde hoje fica Houston e, em dezembro de 1685, saiu, de canoa, atrás do Mississipi. O Belle ia atrás. Durante um mês, os dois grupos exploraram a região sem manter contato, até o galeão ser encontrado às moscas: a tripulação inteira fora morta pelos índios. Duas semanas depois, o explorador saiu de novo, deixando oito homens a bordo. Nunca mais viu o navio. Uma tempestade afundou-o.

Em 1687, La Salle partiu desesperado, a pé, com dezessete homens, para buscar ajuda a pelo menos 1 500 quilômetros de distância. Dessa vez, seus comandados não agüentaram: mataram-o a tiros, durante a viagem. Só três conseguiram chegar, exaustos, a Montreal, para contar a história sinistra. No ano seguinte, os índios destruíram o que restava do pobre Fort de Saint Louis.

Pérolas na lama

Em dois anos de trabalho, os arqueólogos isolaram o barco e retiraram 1 milhão de objetos dos seus escombros.

Vista do alto

O dique, feito com vigas de metal, media 15 metros de altura. Tinha 9 metros enterrados no fundo do mar e 2 acima da linha d’água.

Espaço vital

O Belle era pequeno: tinha 17 metros de comprimento por 4,5 metros de largura. Veio da França abarrotado com 75 homens. Um sufoco.

Solução criativa

A ensecadeira era um octógono de paredes duplas, recheadas com a própria areia do fundo. Media 27 metros de comprimento por 17 metros de largura. Custou 1,3 milhão de dólares ao governo do Texas.

O bandeirante do norte

La Salle foi o maior explorador francês da América.

René-Robert de Cavelier (1643-1687) foi um autêntico bandeirante francês na América. Comerciante de peles, aprendeu dialetos indígenas e explorou territórios desconhecidos. Navegou o Rio Illinois, de canoa, até o Mississipi, indo do Canadá até o Golfo do México. Em 1682, tomou posse do delta do Mississipi para a França fundando o território da Louisiana, em homenagem ao monarca francês Luís XIV. Em 1684, o rei apoiou sua volta à região. A idéia era invadir o México espanhol com 300 franceses e 15 000 índios – uma idéia de louco, digna de La Salle. Era um líder impetuoso, que exigia muito dos comandados. Demais.

Mas, um século depois, em 1803, quando os franceses venderam a Louisiana aos americanos, o território fundado por La Salle tinha se expandido até ocupar 2,1 milhões de quilômetros quadrados. Napoleão Bonaparte estava em guerra e precisava muito de dinheiro. Vendeu um terço dos Estados Unidos, incluindo o porto de Nouvelle Orléans (atual Nova Orleans), por 27 milhões de dólares. Uma pechincha.

De quem é este esqueleto?

Geneticistas também gostam de brincar de detetive.

O esqueleto achado no galeão pertencia a um homem de 40 anos e 1,64 metro de altura. Tinha o nariz quebrado e cáries nos dentes. Sofria de artrite na coluna. Seus dados foram digitalizados e um modelo tridimensional do rosto foi composto sobre o crânio, na Escola de Arte da Universidade de Michigan. Agora, os cientistas pretendem examinar o DNA dos ossos para comparar com o DNA de franceses vivos e tentar localizar descendentes do marinheiro na França. Só então, o rosto poderá ganhar um nome.