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Monge , meditar em prol da paz

O monge Laurence Freeman acredita que a disciplina espiritual conquistada com a meditação pode diluir o sentimento de violência.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h25 - Publicado em 31 out 2002, 22h00

Maria Fernanda Vomero

Antes de se tornar um monge beneditino, o inglês Laurence Freeman foi jornalista, teve emprego em um banco de investimentos e passou seis meses trabalhando no escritório da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova York, como assistente do embaixador inglês. Em seu currículo, consta também um mestrado em Literatura Inglesa na Universidade de Oxford. Quando o monge John Main – que havia sido seu professor no colégio beneditino – criou um centro de meditação cristã para leigos em Londres, em 1975, Laurence resolveu participar da experiência. Passou seis meses no mosteiro aprendendo a meditar. “No fim daquele período, quando eu pensava em voltar para o meu trabalho como jornalista e para a vida acadêmica, já não conseguia sentir entusiasmo”, diz. Ao mesmo tempo, a vida contemplativa dos monges o deixou encantado. “Levei o verão todo para decidir o que fazer. A meditação foi o começo de uma longa jornada espiritual.

Como eu era um aprendiz vagaroso e indisciplinado, resolvi me tornar monge para continuar aquela jornada.” Em viagens e retiros espirituais pelo mundo, Dom Laurence divulga a prática meditativa como maneira de promover a paz. Ele é o guia espiritual da Comunidade Mundial para a Meditação Cristã, que reúne 27 centros de meditação e mais de uma centena de grupos presentes em mais de 50 países, inclusive no Brasil. Numa das visitas a São Paulo, Dom Laurence conversou com a Super.

Super – Qual a importância da prática da meditação?

A meditação é importante nos dias de hoje por causa do desequilíbrio das nossas vidas. Vivemos numa velocidade muito alta, sempre lutando contra o tempo. Gradualmente, vamos perdendo o contato com o centro do nosso ser, onde experimentamos paz, alegria, amor e os sentimentos essenciais para estarmos bem. Dia desses, em Londres, eu buscava um lugar para estacionar o carro. Ao virar a esquina, achei uma vaga e fiz uma manobra. Um ciclista que estava atrás de mim teve que desviar bruscamente. Não aconteceu nada grave, mas percebi que ele me seguia para tirar satisfações. E me xingava, gritando. Voltei-me para ele, pedi desculpas e perguntei o que poderia fazer para ajudá-lo. Ele ficou tão surpreso – afinal, esperava uma reação nervosa da minha parte – que disse apenas: “Prometa que nunca mais fará isso”. Foi engraçado, mas preocupante. O rapaz sentia uma raiva profunda, não somente por causa da fechada no trânsito. Era uma vontade de brigar, uma infelicidade intensa. Se falta paz dentro de cada um, imagine na sociedade como um todo.

A meditação pode resgatar essa paz interior?

Certamente. Note como, na sociedade, existe uma certa obsessão pela violência, mesmo nos momentos de lazer, em filmes e jogos. Por causa das condições da vida moderna, não temos tempo de estar em contato com as fontes de paz e alegria dentro de nós mesmos. Por isso, é fundamental ter uma disciplina espiritual, como a meditação. Sem esse contato profundo consigo mesmo, o indivíduo morre como ser humano. Hoje há um grande interesse no autoconhecimento. As pessoas querem saber mais sobre si mesmas, buscam os psicólogos. Isso é útil e proveitoso, afinal precisamos nos conhecer bem para viver com qualidade. As tradições religiosas, contudo, entendem o autoconhecimento de uma maneira bem mais profunda. Não se trata somente de saber algo mais sobre a própria personalidade, mas de estar em contato com o profundo de nós mesmos, onde Deus está. A tradição cristã sempre ensinou que conhecer-se verdadeiramente é conhecer a Deus.

A meditação sempre esteve presente na tradição cristã?

Sim, mas não tem sido central na vida espiritual diária dos cristãos. Durante muito tempo, a Igreja Católica ocidental envolveu-se em questões seculares e esteve preocupada com sua dimensão externa e com a conversão dos pagãos. Perdeu, aos poucos, sua vida interior e contemplativa. Nos séculos XVI e XVII, a contemplação foi marginalizada e a meditação acabou restrita a monges, padres e freiras. Nos últimos 50 anos, porém, vários monges católicos retomaram a tradição meditativa e formaram comunidades para estimular essa prática.

Há diferenças entre a meditação cristã e a budista?

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Tanto diferenças quanto similaridades. A meditação é uma prática espiritual presente em diversas tradições religiosas. Pode ser definida como um jornada da mente para o coração. Você sai de uma atividade consciente para uma vivência espiritual. Conseguimos isso com muita disciplina, estando tranqüilos e silenciosos. Na prática, tanto cristãos quanto budistas vivem essa mesma experiência espiritual e os frutos são iguais: paz, alegria, paciência, bondade etc. Mas o significado da experiência meditativa é diferente. Nós, cristãos, acreditamos que, ao meditar, rezamos como Jesus Cristo rezava. Ele tinha tanto os momentos de contemplação profunda quanto de compromisso com os semelhantes. A ação concreta é resultado dessa viagem interior.

O senhor é um grande defensor do diálogo inter-religioso. Um exemplo foi o programa The Way of Peace (O Caminho da Paz), com o Dalai Lama. Como o senhor avalia a experiência?

Foi um programa que durou três anos, de 1998 a 2000. Queríamos explorar o diálogo entre budistas e cristãos, por meio da meditação, em três diferentes caminhos: uma peregrinação, um retiro espiritual e um trabalho conjunto pela paz. No primeiro ano, estivemos com o Dalai Lama em Bodhgaya, na Índia, um lugar sagrado para o budismo. No ano seguinte, o diálogo foi num retiro na Itália. E, por fim, fomos a Belfast, na Irlanda do Norte, refletir sobre a amizade entre as religiões e o processo de paz. Quisemos mostrar que a amizade espiritual entre budistas e cristãos, via meditação, podia colaborar para a solução dos conflitos entre católicos e protestantes. Em outras palavras, a amizade espiritual, em profundidade, contribui de modo poderoso para a paz entre as pessoas. Acho que fomos bem-sucedidos. Tivemos encontros com políticos, líderes religiosos, jovens e vítimas da violência. O Way of Peace continua com encontros anuais, quando refletimos sobre a ligação entre a meditação e o processo de paz. Tentamos mostrar que a violência não leva a lugar algum.

Como explicar os conflitos justificados pela religião?

Todas as religiões, em sua origem, pregam o amor e a paz. Se estimulam o conflito, alguma coisa está errada. Hoje há uma grande confusão entre fé e crenças. A fé é a capacidade humana para transcender, ou seja, para estabelecer um relacionamento profundo com Deus. Cada um descreve sua experiência de fé de um jeito diferente. As crenças são justamente o modo de expressar essa fé, conforme a tradição, os costumes e a cultura. Se nos apoiamos somente nas nossas crenças e esquecemos a fé, todos aqueles que têm uma crença diferente se tornam inimigos. Daí as divisões dentro da própria Igreja e entre os diversos grupos religiosos, as inimizades, os confrontos. A oração precisa ser profunda, senão a religião se torna perigosa.

Como a meditação contribui para o processo de paz no mundo?

Ela nos deixa conscientes das sementes de violência que estão dentro de nós: perda ou rejeição, tristeza, raiva. Assim, podemos corrigi-las precocemente. A meditação também nos coloca em contato com um espaço interior comum a todos os homens. Quando o indivíduo se sente parte desse “espaço de humanidade”, entende que é possível partilhar com os demais. Essa é a base da cooperação, da existência pacífica.

Dom Laurence Freeman

• Monge beneditino do mosteiro de Cristo Rei em Cockfosters, Londres.

• Tem 51 anos e é autor de seis livros sobre meditação cristã.

• Gosta de ler romances e, quando vem ao Brasil, aprecia correr ao longo da praia de Copacabana, no Rio.

Frase

“A meditação nos deixa conscientes das sementes de violência que estão dentro de nós”

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