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O homem que jurou mentir

Ex-general da KGB, Oleg Kalugin fala da vida de espião nos EUA e revela como a URSS mentia para difundir o antiamericanismo

Por Fábio Marton Atualizado em 31 out 2016, 18h24 - Publicado em 12 mar 2011, 22h00

Aos 24 anos, o russo Oleg Kalugin mudou-se para os EUA para estudar Jornalismo na Universidade Columbia. Ganhou tantos amigos e namoradas na cidade que o New York Times fez um perfil sobre ele, chamando-o de “russo popular”. Até 1965, Oleg foi o único correspondente soviético nos EUA e depois virou chefe de imprensa na embaixada soviética em Washington, onde frequentava festas e a roda de intelectuais americanos. A boa vida acabou em 1970, quando Oleg voltou correndo para a Rússia. Uma reportagem do jornalista Jack Anderson acusou-o de espionagem, mostrou provas e questionou por que o governo não o expulsava do país.

O russo popular entre os americanos era filho de um oficial da então agência de espionagem NKVD. Quando adolescente, apaixonado pelo comunismo, aprendeu quatro idiomas e preparou-se para ser agente secreto. Conseguiu. A KGB viu nele um agente secreto em potencial e mandou-o para os EUA.

Depois de desmacarado, Oleg teve de voltar à Rússia, onde foi promovido, aos 40 anos, a general da KGB. Em 1980, por conta da politicagem interna da agência, foi demovido do cargo. Transformou-se então em crítico do sistema que tanto ajudara a manter. Em 1995, desiludido com o comunismo e a nova política russa, voltou aos EUA. Crítico severo de Putin, acabou condenado a 15 anos de prisão na Rússia em 2002, e ganhou asilo político dos EUA. Desde então dá palestras e consultorias sobre segurança e contrainteligência e ajuda a manter o Museu da Espionagem (Spy Museum, em Washington).

Como era seu trabalho nos Eua?

No começo, eu tinha de alertar o governo soviético sobre planos militares – eles eram paranoicos com a possibilidade de um ataque atômico. Mas o coração e a alma do trabalho da KGB não estavam na informação, mas na subversão, criando histórias para semear discórdia entre aliados dos EUA e torná-los vulneráveis à desconfiança e à raiva de outros povos. Nesse sentido, a inteligência soviética era sem igual. Como correspondente, eu tentava recrutar americanos jovens e idealistas como eu. Quando fui secretário de imprensa na embaixada, cultivei amizades com vários jornalistas – às vezes, passava informações quentes, às vezes, apenas desinformação.

Dizem que a União Soviética perdeu a Guerra Fria, mas humilhou os EUA na guerra da informação. Verdade?

O antiamericanismo está muito vivo pelo mundo, mas a KGB foi eficiente em desinformação só até certo ponto. Quando o comunismo começou a desabar, em grande parte por sua ineficiência econômica e sua desumanidade, a KGB não teve o que fazer. O golpe de 1991 foi o fim da velha agência e a vitória da CIA.

Havia algum contato no Brasil?

Como chefe da contrainteligência da KGB nos EUA, eu tinha familiaridade com todas as operações internacionais, inclusive no Brasil. O que posso dizer é que tínhamos muito suporte dos movimentos de esquerda da América Latina.

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Você orquestrou o assassinato do escritor dissidente búlgaro Georgi Markov, em 1978. Como foi isso?

Essa operação foi um trabalho dos búlgaros, nós apenas provemos as armas para eles, sem envolvimento pessoal. Eles escolheram como arma um guarda-chuva que disparava uma cápsula de ricina. A cápsula deveria se dissolver no corpo em 24 horas. Isso não aconteceu, e o caso tornou-se um escândalo. Eu fui um dos primeiros a discutir o caso abertamente.

Em 1970, seu trabalho como espião foi desmascarado pelo jornalista Jack Anderson. qual foi o seu erro?

Eu era um agente da KGB muito ativo e produtivo, e acabei dando bandeira. O artigo de Jack Anderson acabou sendo um jeito de denunciar minhas atividades. Mas o governo dos EUA não tinha uma base legal para me expulsar.

A imprensa tem algum papel na queda das ditaduras?

Sim, claro. Na Rússia atual, dúzias de jornalistas tiveram de fugir para evitar cadeia ou assassinato. Essa é uma forma pela qual o regime autoritário se protege. Outra é espalhando sua própria informação (ou desinformação) por canais oficiais e privados de comunicação. A antiga liderança soviética controlava a imprensa, e isso ajudou a manter o sistema vivo por várias décadas. Gorbachev chegou ao poder e disse: “é hora de parar de mentir para o mundo e para nós mesmos”. Sete anos depois, a União Soviética desabou.

O que fez você deixar o comunismo?

Quando jovem, eu estava determinado a entrar para o serviço secreto. Achava uma grande honra servir à segurança e inteligência soviética, e era muito motivado, inspirado pela fé no sistema e ideologia marxistas. Mas houve a fala de Nikita Kruschev em 1956, que denunciou os crimes de Stalin. Depois, a invasão soviética da Tchecoslováquia em 1968. Terceiro, a experiência de vida no mundo ocidental fez todo o meu ponto de vista mudar.

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