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O povo de Asterix

Os celtas povoaram a Europa muito antes da ascensão de Roma. Guerreiros, artesãos e artistas, tinham uma cultura voltada para o sobrenatural e uma relação mágica com a natureza. Mas sentiam medo da palavra escrita

Mônica Falcone

À parte os jogadores do Boston Celtics, os monumentais astros do basquete que como o primeiro nome do time indica são americanos e nada mais, os únicos celtas que as pessoas conhecem hoje em dia não são gente de carne e osso, mas figuras de histórias em quadrinhos, os divertidos personagens capitaneados pelo diminuto Asterix. Na vida real, as legiões romanas sob o comando de Júlio César conquistaram em 58 a.C. o território da Gália, que viria a ser a França, e denominaram os habitantes locais, os celtas, gauleses. No gibi, o valoroso Asterix, dono de força sobre-humana, faz gato e sapato dos invasores, com a ajuda do descomunal Obelix. O segredo do bravo guerreiro é uma poção mágica confeccionada pelo druida, o sacerdote da aldeia.Na organização social dos celtas, até onde se sabe, o druida exercia uma multiplicidade de papéis: era não só uma espécie de ministro de Assuntos Religiosos, mas também o guardião das tradições e da cultura, maestro da moral e da teologia. 

Era ainda profeta e às vezes poeta (ou “bardo”), o elo de ligação por excelência entre os habitantes deste mundo e os do outro, como bruxas, fadas, deuses e seres sobrenaturais em geral. Para os historiadores especializados na antiga Europa, os druidas representam a fonte de um problema. Pois a grande dificuldade em estudar a saga desses primeiros europeus — que antes da conquista romana haviam povoado o continente desde Portugal, no extremo oeste, à Cordilheira dos Cárpatos, no leste, da Bélgica, no norte, à Itália no sul — nasce, segundo a lenda, de um decreto druida, os celtas estavam proibidos de escrever a própria história.Júlio Cesar narrou a conquista da Gália nos sete volumes do De bello gallico (Sobre a guerra gália), cujas primeiras palavras,Galia est omnia divisa in partes tres,unam quarum incolunt belgae (Toda a Gália se divide em três partes, numa das quais habitam os belgas), não há estudante de Latim capaz de esquecer. Pois o glorioso César cometeu o equívoco de afirmar que os celtas não escreveram sua história por não confiar na própria memória. 

Na verdade, temiam que a palavra escrita pudesse ser veículo de magia incontrolável — no fundo, um argumento muito parecido com os pretextos invocados pelos censores de qualquer época e lugar. Seja como for, o veto limitou o conhecimento da sociedade celta ao discurso mudo dos objetos encontrados nas escavações arqueológicas em sítios que há mais de 2 000 anos abrigaram povoações. Informações adicionais provêm dos relatos de outros povos antigos, que compreensivelmente descrevem os briguentos celtas sem nenhuma benevolência. Pela primeira vez, porém, graças a uma portentosa exposição organizada no Palazzo Grassi, de Veneza, sede da organização cultural da Fiat, tornou-se possível um esforço multinacional, com a participação de 200 museus 24 países, destinado a permitir uma visão de conjunto do que se sabe hoje a respeito de uma civilização fundamental na formação da Europa.

Intitulada “Os celtas, os primeiros europeus”, a exposição apresenta, explica e relaciona entre si nada menos de 2.200 objetos. Nunca antes vistas lado a lado, são as peças mais significativas resgatadas pelos arqueólogos em escavações passadas e presentes realizadas em toda a Europa, como disse a SUPERINTERESSANTE o professor Daniele Vitali, um dos sete especialistas pescados pela Fiat em cinco países para cuidar do lado propriamente científico da mostra. “Muitos museus refutaram em ceder as peças. por serem muito frágeis”, conta ele. “Mas consideramos o estudo dos celtas, que são afinal as raízes européias, especialmente importante às vésperas da unificação do continente”, raciocina Vitali, aludindo à derrubada das barreiras alfandegárias entre os doze países da Comunidade Européia, marcada para 1992.

O professor é dono de notícias frescas sobre os celtas. Ele dirige há dez anos a escavação de uma aldeia celta em Monte Bibele, a 30 quilômetros de Bolonha, na região da Toscana, no norte da Itália. Trata-se de um vilarejo com sessenta casas, onde viviam famílias pertencentes à estirpe dos boi (nada a ver com o significado da palavra em português). O povoado foi destruído da noite para o dia pelos romanos, que assim praticamente congelaram um momento da vida cotidiana de seus habitantes. Resultado: guardadas as proporções, a povoação de Monte Bibele está para o conhecimento da vida celta assim como Pompéia, petrificada pela erupção do Vulcão Vesúvio, está para o conhecimento da vida romana. “Encontramos todas as casas bem conservadas, com paredes de pedra de 2 metros de altura. Só os tetos de madeira foram destruídos”, descreve Viali. As casas conservam toda a decoração e a distribuição espacial do último dia de vida do povoado. “Achamos muitos utensílios e ferramentas de trabalho, como foices, enxadas, facões, armas, vasos, tigelas, vasilhas”, enumera o professor. 

Em algumas casas, os moradores estavam para fazer uma refeição quando se abateu a tragédia. Isso permitiu descobrir seu cardápio cotidiano. “Eles comiam muitos cereais, como trigo e grão-de-bico, e assados de caça, informa o pesquisador. “Consumiam também maçãs e pêras. Achamos ainda vestígios de animais domésticos.”Dentro de um túmulo aristocrático, anterior no tempo à aldeia de Monte Bibele, escavado no norte da Áustria, na região de Hallstatt, que dá nome ao período mais antigo da civilização celta, foram encontradas as sobras de um banquete fúnebre. A partir da análise desses restos descobriu-se que os celtas tomavam hidromel, a mais antiga bebida alcoólica fermentada, um pouco mais forte do que o vinho atual. O banquete era para nove pessoas, pois haviam sido dispostos nove cornos, que serviam para beber, nove pratos de bronze e nove taças bem grandes, também de bronze. O hidromel estava num caldeirão de origem grega.O túmulo de Hallstatt dá muitas informações adicionais sobre os costumes celtas e sua interação com outros povos. Guerreiros de truz, como os invencíveis Asterix e Obelix da ficção, os celtas eram sepultados junto com todo um arsenal do mesmo modo como tinham vivido neste. No túmulo, um quadrado de 4,70 metros por 1,20 metro de altura, acharam-se coleções de flechas e um punhal trabalhado em ouro. Numa bolsa estavam apetrechos de higiene e embelezamento e três anzóis de pesca. 

O corpo jazia num sofá de bronze, provavelmente de fabricação etrusca. A cabeça estava apoiada num travesseiro de ervas.O morto usava roupas de tecido e de peles e um chapéu cônico de cortiça. No pescoço, um colar, o chamado torquis, de ouro, um adereço muito significativo. “O torquis, como diziam os romanos, é o colar típico dos celtas”, explica Vitali. É um aro tubular com duas dilatações na extremidade, com furos usados para o encaixe do fecho do colar. “O torquis atestava a posição social de quem o usava. Se fosse de ouro, certamente o dono seria um aristocrata”, esclarece. Uma das peças mais importantes da mostra de Veneza, por sinal, é o torquis que faz parte da coleção do museu de Chatillon sur Seine, na França, com decorações de rara beleza.Uma família típica do povoado dos boi, segundo Daniele Yitali, era composta de quatro a cinco pessoas e vivia em casinhas de 20 a 30 metros quadrados, agrupadas em pequenas quadras. No povoado de Monte Bibele viviam umas 250 pessoas. No cemitério local já foram encontrados 134 túmulos, muitos deles de guerreiros mortos em combate, Inscrições funerárias (em etrusco) só aparecem no caso de homens casados com mulheres etruscas. Os etruscos haviam se estabelecido ali antes dos celtas. As inscrições descrevem a mulher e o seu parentesco com os demais. Os mais antigos relatos de que se tem noticia sobre os celtas diziam que eles eram sexualmente promíscuos, trocando freqüentemente de mulheres com parentes e amigos. Daí nasceu a lenda de que até o incesto era comum entre eles. Até hoje não foi possível conferir essas informações. “Os dados arqueológicos”, ensina Vitali, “só permitem afirmar que os celtas muitas vezes se casavam com mulheres de outros povos, por exemplo, os etruscos.”Segundo uma versão, foi graças a esses “bárbaros”, como os romanos se referiam a eles com desprezo, que se difundiu o uso da roda. É certo que os celtas apuraram a técnica da curvatura da madeira que tornou possível o aparecimento não só da roda mas também do barril e de muitos utensílios de madeira. 

A invenção da carroça puxada a cavalos também Ihes é atribuída. Pelo menos as palavras latinas carrus (carro, carroça), carruca (charrua) e carpentum (carruagem) são comprovadamente de origem celta. Assim como os nomes Londres, Paris e Milão, cidades fundadas por eles.As primeiras informações sobre a presença dos celtas na Península Ibérica e na Inglaterra foram transmitidas pelos gregos, há cerca de 2 700 anos. Por volta do ano 600 a.C. eles já ocupavam também as margens do Danúbio e o sul da Alemanha. É desse período o túmulo de Hallstatt, na Áustria. O apogeu artístico e cultural celta se deu na Suíça, à beira do Lago Neuchâtel, em La Tène (daí a designação Período Lateniano), onde se formou uma aristocracia militar cujos príncipes avançaram até a região de Champagne, na França. A partir de então entre os séculos V e III a.C., movidos pelo próprio crescimento demográfico e pressionados pela presença de outros povos, espalharam-se pelo resto da Europa, virtualmente em todas as direções. Atravessaram os Bálcãs, chegando à Turquia e Asia Menor. O que unia as povoações celtas, apesar das imensas distâncias que as separavam, não era a obediência a um único rei, mas a língua, a arte e a religiãoEm 387 a.C. cometeram a temeridade de invadir e saquear Roma. Eles tentaram tomar a cidade de surpresa. Mas, segundo a lenda, foram denunciados pelo grasnido dos gansos do Monte Capitólio, sede do Senado e do poder romano, onde hoje fica a Prefeitura da capital. Para os celtas, habituados à vida no campo, um ambiente tão urbanizado e destacado da natureza como o de Roma foi uma surpresa. 

O professor Sabattino Moscati, presidente do comitê executivo da exposição no Palazzo Grassi, lembra a versão segundo a qual os senadores romanos esperaram os invasores, imóveis em seus assentos. Ao irromper no recinto os celtas tiveram por um momento a impressão de estar diante de uma coleção de estátuas, como as muitas que haviam visto pela cidade. Para tirar a dúvida um deles puxou a barba de um senador, que não conteve a indignação. O resultado foi que os celtas passaram todos eles pelas armas.Nos quadrinhos de Asterix, a conquista de Roma é mais divertida. O guerreiro só não consegue tomar definitivamente a cidade porque acaba derrotado pela invencível burocracia local — cujo sossegado corpanzil inferniza ainda hoje a vida diária dos romanos. Para tudo aquilo que precisasse, Asterix se via obrigado a percorrer corredores subir e descer escadas, enfrentar a empedernida má vontade e má educação dos funcionários públicos. No mundo de verdade, tirar os celtas de Roma foi mais complicado. Eles permaneceram como um pesadelo pousado sobre a cidade durante nada menos de meio século, até a assinatura de um tratado de paz em 334 a.C.Como tantas vezes acontece na história dos povos, o período da maior expansão geográfica dos celtas assinala o início de sua decadência, atribuída à ausência de uma organização política forte o suficiente para unificar as tribos pulverizadas pela Europa inteira. Atacados, de um lado, pelas legiões romanas e, de outro, pela migração dos germânicos, começaram a sucumbir cerca de 200 anos antes da era cristã. No fim do primeiro século do atual calendário, os celtas ou estavam completamente romanizados ou tinham se perdido na multidão de povos que vinham se formando no continente europeu.A grande exceção é a Irlanda, onde a civilização celta de alguma forma deixou marcas que sobreviveram até hoje. Os celtas irlandeses, também chamados galeses, souberam conservar a língua materna, o gaélico, uma derivação do celta original. Variações do gaélico são faladas na Escócia, na Bretanha francesa e, naturalmente, no País de Gales – mas é duvidoso que os atuais irlandeses pudessem ter um diálogo fluente com Asterix e seus amigos.

 

 

 

 

 

Boxes da reportagem

Os tataravós de Picasso

A arte celta e sua expressão figurativa têm uma evolução original, embora nutrida por empréstimos da arte dos povos mediterrâneos, romanos, gregos e etruscos. Os temas típicos são, muito mais do que figuras humanas, os seres sobrenaturais zoomorfos (com forma de animais) e os elementos vegetais, desenhados com linhas curvas e flexíveis. Com sua predileção pelas formas curvilíneas, os celtas usavam muito o compasso, decompondo e recompondo as figuras a ponto de torná-las quase abstratas. Mesmo os elementos inspirados na arte clássica de Grécia e Roma sofriam mutações, integrando-se no rico universo imaginário dos celtas, povoado pelos mistérios da floresta e cheio de reverência diante da natureza.O melhor período do casamento da arte celta com a dos demais povos data do século III a.C., coincidindo com a época de sua maior expansão geográfica. Quatrocentos anos depois, a arte especificamente celta desaparecerá do continente europeu sem deixar rastros. 

Sobreviverá, porém, nas llhas Britânicas para ressurgir, resplandecente, na arte cristã da Irlanda medieval. Elementos da velha arte celta reaparecerão também na arte gótica, com sua obsessão pelas linhas curvas na representação das formas vegetais quase sempre freqüentadas por seres fantásticos ou monstruosos.Há quem veja nessas tramas com motivos animais ou vegetais, assim como no gosto predominante entre os celtas pelas linhas sinuosas um parentesco com uma certa tendência das artes decorativas européias do fim do século passado. A proximidade entre a arte celta e tais correntes artísticas, anticlássicas” surgidas mais de dois milênios depois é interpretada como indício de que os celtas foram os primeiros europeus a promover uma rebelião artística contra o classicismo oficial de Grécia e Roma. Vítimas do conquistador romano, os celtas teriam praticado uma arte de protesto contra a opressão das normas acadêmicas. Se essa teoria for verdadeira, os contemporâneos de Asterix seriam os ancestrais mais remotos do cubismo de Pablo Picasso.