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O senhor dos pixels

Jobs comprou a produtora Pixar a preço de banana e a transformou na mais rentável de Hollywood. Tudo isso começou porque George Lucas, o antigo dono da empresa, precisava de grana

Por 8 Maio 2012, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h29
  • Álvaro Oppermann

    “Na Santíssima Trindade da Pixar, tem o Pai, o Filho… e o Espírito Santo é o Steve Jobs.” Era assim que Brad Bird, o diretor de Os Incríveis e Ratatouille, definia o patrão. Ele tinha bons motivos para a rasgação de seda. Depois que comprou a Pixar por uma pechincha, o fundador da Apple a transformou num estúdio inovador, e o mais rentável de Hollywood, com uma impressionante média de faturamento global de US$ 602 milhões por filme desde 1995. Mas ele precisou de nove anos para achar um caminho para a empresa, antes que ela ficasse famosa por produzir longas-metragens premiados como Toy Story, Vida de Inseto, Monstros S/A, Procurando Nemo, Carros…

    Em 1986, Steve Jobs adquiriu a divisão de computação da Lucasfilm, empresa fundada em 1979 por George Lucas, por US$ 10 milhões – deu metade a Lucas e investiu o resto na companhia, que ele rebatizou de Pixar (um trocadilho com “pixel”, como se chama o menor ponto de uma imagem digital). Naquele momento, ela era apenas um grande abacaxi sem comando nem utilidade.

    George Lucas tinha fundado a área de computação na época em que trabalhava na saga Star Wars. Era caro e muito demorado produzir as cenas com sabres de luz e espaçonaves. Lucas queria empregar computadores para desenhá-los em larga escala e com maior realismo, mas isso não chegou a acontecer. A computação não estava pronta para tamanho salto tecnológico. E a Lucasfilm Computer Division ficou parada, sem orçamento para criar absolutamente nada.

    Para piorar a situação, desde 1983 Lucas estava atravessando um divórcio turbulento. Sua ex-esposa, Marcia Lucas, uma montadora de filmes em Hollywood, exigia quase metade do patrimônio do casal. E o pobre George precisava de dinheiro, e bem rápido. “Pobre” não é de todo força de expressão. Em 1986, a saga estrelar já tinha secado, o seriado dos Ewoks ia de mal a pior e, no cinema, ele encarava o fiasco de sua produção recém-lançada, Howard, o Super-Herói.

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    Chefe bonzinho

    Nesse cenário sombrio, Steve Jobs surgiu como um Luke Skywalker. Não é à toa que ele ainda é chamado pelos funcionários da Pixar de “benfeitor benevolente”. Diferentemennte da Apple, onde era um ditador, na empresa de animação Jobs não se metia nos assuntos criativos. Ele deixou a condução para os outros dois nomes da trindade: o Pai era Ed Catmull, visionário cientista da computação gráfica que estudava animação em 3D desde a faculdade, nos anos 70. Quando comprou a empresa, Jobs fez dele diretor de tecnologia. Já o Filho era John Lasseter, um talentoso animador, ex-funcionário da Disney, de onde foi demitido em 1983 por ser muito “original e indisciplinado”, nas palavras de seu supervisor.

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    Foi nessa época que a Pixar criou suas primeiras duas animações, The Adventures of André and Wally B. e Luxo Jr. A crítica adorou, o público ignorou. Jobs então investiu no setor de hardware. Oferecia o Pixar Image Computer para agências do governo, hospitais e a própria Disney, interessada em adotar a computação gráfica. As vendas ficaram abaixo do esperado, e essa área acabou sendo vendida em 1990. O passo seguinte foi desenvolver comerciais de TV para, por exemplo, o suco de laranja Tropicana e o antisséptico bucal Listerine. O faturamento melhorou um pouco, mas ainda não alcançava nem mesmo os US$ 2 milhões anuais. Foi nesse período que a Pixar montou sua equipe com novatos talentosos, caso de Andrew Stanton (que mais tarde dirigiu Procurando Nemo) e Pete Doctor (de Monstros S/A e Up). Em 1994, um desanimado Jobs pensou em vender a empresa – chegou a sondar a Microsoft. Mas uma animação revolucionária colocaria a Pixar nos eixos de uma vez por todas.

    Em 1991, a Disney topou produzir uma animação modesta, que tinha o nome provisório de Toy Story. O projeto quase parou no storyboard. Guiados por uma pesquisa de mercado insana, os executivos queriam personagens mais malandros. Se o ponto de vista da Disney tivesse prevalecido, é provável que Woody e Buzz Lightyear passassem o filme todo se xingando e cuspindo. Woody não seria Woody, mas Roy, Frank ou Clint, nomes mais “machos”. E o resultado teria sido uma bela bomba.

    Só não foi assim por causa de Jobs. Irritado com as interferências, ele chegou a comentar com seus funcionários: “Se é assim, é melhor a gente sair. Que a Disney vá à merda”. Os dois lados acabaram se entendendo e Toy Story , como se sabe, foi um sucesso assombroso.

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    Acionista da Disney

    Pode parecer estranho, mas o descolado Jobs teve um choque de cultura na Pixar. O ambiente era ainda mais louco e criativo do que ele achava possível acompanhar. Por exemplo, as salas dos animadores recriavam o interior de saloons do Velho Oeste e as espaçonaves de Star Trek. “Assim não dá”, queixou-se ele. Foi tranquilizado por John Lasseter: “A gente tem que deixar os caras pirarem um pouco”. Apesar de sua política de não interferir em um ramo de negócio que não conhecia, Steve deixou suas marcas. Criou, por exemplo, a Pixar University. Diferentemente do que o nome indica, não é uma universidade, mas um ambiente dentro da sede em que são ministradas aulas de animação, roteiro de cinema, Photoshop, krav maga. Para estimular o contato entre os funcionários, ele também instalou a cafeteria e os banheiros bem no centro do edifício.

    Outra herança do patrão é o trabalho insano por trás de cada produto. “A única coisa da qual temos medo é a acomodação”, disse Ed Catmull à revista McKinsey Quarterly. Em Vida de Inseto, de 1998, foram criados 27 mil desenhos no storyboard. Uma década depois, Wall.E precisou de 98 mil. “Nós nunca terminamos nossos filmes. É que chega uma hora em que temos de lançá-los”, diz Lasseter.

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    Em janeiro de 2006, a The Walt Disney Company adquiriu a Pixar por US$ 7,4 bilhões. Jobs tornou-se o maior acionista individual da Disney, com uma fatia de 7% do grupo. Jobs e Bob Iger, CEO da Disney, encontraram-se dias depois do anúncio da compra, num evento realizado num cinema de San Jose, na Califórnia.

    Na saída, Bob Iger perguntou: “Mas que diabos, Jobs? Como é que vocês nunca erram a mão?” Steve sorriu. “É que eu não lanço nada sem que o produto esteja 100% redondo. Isso vale pro iPod ou para as animações da Pixar.” E saiu andando.

    Para saber mais

    • A Magia da Pixar, David A. Price, Campus/Elsevier, 2009.

    https://www.slashfilm.com/pixars-television-commercials/

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