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Oficina do inferno

Espécie de versão masmorra do Manual do Escoteiro Mirim, o livro chamou a atenção de artistas e as peças viraram até exposição na Europa.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h26 - Publicado em 31 out 2003, 22h00

Leandro Fortino

Aqui se produz brasa. Calor. Fogo. Até parece o inferno, mas é a oficina secreta dos presidiários, erguida longe da vista dos guardas e vigias para fornecer aos detentos aquilo que eles querem, mas não podem ter. Isqueiros, aquecedores, tostadores de sanduíches, forninhos, tudo isso feito com clipes de papel, pedaços de escova, palitos e outros objetos simples do dia-a-dia.

Trinta dessas invenções carcerárias, desenhadas por presos americanos, acabam de ser publicadas no livro Prisoners’ Inventions (“Invenções de Prisioneiros”, sem tradução para o português). Espécie de versão masmorra do Manual do Escoteiro Mirim, o livro chamou a atenção de artistas e as peças viraram até exposição na Europa.

Mas os detentos brasileiros também são engenhosos. Prova disso é a fabricação da aguardente “Maria Louca”, que envolve complicados processos de fermentação e destilação, na antiga Casa de Detenção do Carandiru. Bom, complicado para nós. Para eles, era uma festa só.

Com auxílio do físico Cláudio Furukawa, da USP, a Super construiu e testou algumas dessas traquitanas. Duas delas envolvem eletricidade e, portanto, perigo. “Basta o preso tomar cuidado para manejar os objetos. Não deve estar descalço, não pode encostar nos metais nem molhar os dedos na água enquanto os fios estiverem ligados. Ou vai tomar um choque perigoso”, afirma o físico.

Sem falar que um curto-circuito pode queimar o fusível e deixar tudo às escuras. Ou seja, não tente fazer isso em casa: você não é o MacGyver.

Aquecedor de água

Café quente na cela? Com objetos comuns, um presidiário reproduziu o que os físicos chamam de efeito Joule. Duas tiras de metal saem da tomada e entram num copo d·água. A pouca corrente elétrica que passa pelo líquido gera calor. No protótipo da Super, o copo começou a fumegar em 30 minutos. Demorou? Não esqueça que, na prisão, o tempo custa a passar…

Isqueiro

Até parece um barbeador elétrico, mas é uma engenhoca para acender bitucas. Um preso americano bolou e nós comprovamos: o cigarro acende mesmo, mas dá medo chegar perto. Isso porque, para melhorar a condutividade, joga-se uma pitada de sal na água. Em segundos, o copo esquenta e a parte imersa do clipe escurece. É a reação de eletrólise, na qual os sais da água grudam no metal.

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Saleiro

Para que guardar as especiarias em potinhos impessoais quando se pode usar um elegante galheteiro? Com palitos de sorvete, tiras de alumínio cortadas de lata de refrigerante e caixas de fósforo, constrói-se uma peça de design bacana para não misturar o sal e a pimenta. São objetos simples como esses que fazem de uma cela um lar.

“Maria louca”

No Brasil, os presos estão mais preocupados em fazer cachaça. No extinto Carandiru, eles faziam. Com água, fermento e arroz, e dominando as artes da fermentação e da destilação, eles produziam a “Maria Louca” (veja o processo acima). Também chamada de “Água de Coco” e “Zulu”, a garrafa custava 150 reais nos pavilhões, igual a um uísque escocês 12 anos no supermercado. E olha que a “Maria” levava só seis dias para fazer.

Destilaria da “Maria louca”

Presos do Carandiru faziam essa bebida em segredo

1 – Fermentação

Os presos misturam água, arroz, fermento e açúcar (mais casca de frutas, café ou cravo para dar gosto) em garrafas plásticas e escondem em um buraco na cela. Uma luz fornece o calor necessário. As tampas vão sendo giradas aos poucos para soltar os gases. O processo dura seis dias.

2 – Destilação

Num galão, eles esquentam o líquido com uma tesoura plugada na tonada. O álcool, com ponto de ebulição menor que o da água, vira vapor logo. Esse vapor é resfriado na serpentina e vira o precioso líquido, pronto para o consumo dos condenados.

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