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Os reis do asfalto

Como jovens americanos, copiando manobras do surf, fizeram do skate um dos esportes mais radicais e festejados do planeta

Texto Marco Antônio Lopes

Para um brinquedo que nasceu apelidado de surf de calçada, a falta de água era mesmo a parceira ideal. Foi durante uma das maiores secas nos EUA, na década de 1970, que o skate consolidou seu espaço entre a moçada que gosta de manobras arriscadas – e acabou por se transformar num dos esportes radicais mais cultuados do planeta. No princípio, era o scooter, nome em inglês para aqueles patinetes de madeira com um guidão para se equilibrar. Sem esse “leme”, garotos americanos já andavam pelas ruas sobre a pequena prancha com rodinhas nos anos 20 e 30! Em 1934, até os Três Patetas apareceram na TV fazendo palhaçadas tentando não cair. E assim foi por muito tempo. “Ninguém dava bola para o esporte. Só em 1959 o novo brinquedo passou a ser manufaturado com o nome de skate (abreviação de skateboard, ·prancha de skate·)”, diz Michael Brooke em seu livro Concrete Wave, a History of Skateboarding (“A Onda de Concreto, a História do Skate”, sem tradução no Brasil). Mas era tudo muito precário. As rodas de madeira não davam segurança aos praticantes e, como ninguém queria se arriscar, o ioiô e o bambolê faziam muito mais sucesso.

No início dos anos 60, justamente o apelo do perigo fez o skate virar mania. Em 1963, o surfista americano Larry Stevenson, dono da revista Surf Guide, começou a promover o estranho esporte que imitava, nas ruas, os movimentos feitos sobre as ondas. Com reportagens e fotos, ele passou a divulgar as peripécias dos skatistas. Na época, adolescentes praticavam o free-style (todo tipo de acrobacia sobre rodinhas), o street (descer ladeiras em velocidade) e o slalom (ziguezagues em volta de cones espalhados no asfalto).

Havia tantos garotos com skates nas ruas que a revista Life dedicou uma capa à nova febre. A edição de 14 de maio de 1965 traz uma foto da skatista Pat Macgee, de San Diego, descendo uma rua de cabeça para baixo. A paixão pelo esporte logo fez surgir publicações especializadas (a primeira foi The Quarterly Skateboarder) e logo se formaram centenas de equipes interessadas em disputar campeonatos pelo país. Só que os acidentes eram tão comuns que a prática ganhou fama de maldita. As rodas já eram feitas de metal ou de plástico, mas continuavam não oferecendo boa aderência. Assim, o número de jovens quebrados no asfalto era de fato assustador. Até que…

Do laboratório à piscina

Como toda boa história, esta também tem o momento da reviravolta fundamental. No caso, dois: o primeiro ocorreu em 1974, quando o engenheiro químico e surfista Frank Nashworthy descobriu o uretano. Com o material, ele criou as rodas Cadillac, que davam mais tração e segurança ao skate e a seus praticantes. A segunda grande virada deu-se no ano seguinte, quando uma seca assolou a costa oeste dos EUA. O governo da Califórnia decretou um racionamento e muita gente teve de esvaziar a piscina do quintal. Daí, um grupo de adolescentes resolveu dar outra utilidade àquelas formas arquitetônicas de fundo levemente arredondado. Eles simplesmente invadiram as mansões de Venice, Beverly Hills e outros distritos ricos da região de Los Angeles. De vassoura em punho, eles chegavam tirando as folhas e a poeira – e terminaram multiplicando as possibilidades de manobras e revolucionando o esporte, ao torná-lo muito mais acrobático e vistoso.

Auto-intitulados Z-Boys, eles andavam de uma borda à outra, tomavam posição na beirada, desciam até o fundo e, do outro lado, rodopiavam no ar, para tomar impulso no sentido contrário. Muitas vezes a polícia os expulsava, mas tudo bem. Tony Alva, Jay Adams, Stacy Peralta e outros 9 amigos, todos na faixa dos 13 aos 15 anos, simplesmente reinventaram o esporte. Eles treinaram tanto (e criaram jeitos diferentes de se equilibrar sobre a pranchinha, entre eles o chamado skate vertical) que no primeiro campeonato de que participaram deixaram os juízes sem saber como classificar suas apresentações.

Imitando os surfistas

Alva, Adams e Peralta adoravam ver os mais velhos surfando na praia de Santa Mônica. Era um lugar perigoso, onde as ondas quebravam no meio de pilares e pedras sob o píer. Eles se contentavam em assistir e freqüentar a loja dos surfistas, que se chamava Zephyr e vendia pranchas, acessórios e… skates. Passavam o dia sobre 4 rodinhas, pichando muros ou vendo vídeos de surf. Seu ídolo era o havaiano Larry Bertelman, que se abaixava na prancha para fazer manobras com a mão na água. A turma tentava imitá-lo nas ladeiras, com a mão no asfalto. Quando descobriram as piscinas secas, o trabalho ficou fácil: a moçada fazia na borda o que nas ondas se chama cut back. Até que um fã das aventuras, filho de milionários, cedeu a mansão para os Z-Boys treinarem. Os donos da Zephyr foram vê-los em ação e ficaram embasbacados.

Jornalistas e fotógrafos da Skateboarder produziram várias reportagens sobre a turma, com destaque para o visual desleixado dos moleques: calça rasgada e cabelo comprido, numa atitude 100% roqueira. O novo estilo não demorou a pegar e os Z-Boys ganharam imitadores (Stacy Peralta chegou a aparecer num episódio da série de TV As Panteras).

Por aqui, os primeiros skatistas apareceram no final da década de 1960. No Rio de Janeiro, onde já havia centenas de surfistas, os garotos formavam turmas para ziguezaguear cones nas ruas. Chamados de “surfistinhos”, os adeptos da nova modalidade pregavam rodas de patins em shapes de madeira e rodavam pelo bairro da Urca, na zona sul. “Em 1968, minhas paixões eram o surf e um skate com rodas de massa e madeira laminada. Consegui com uns gringos, filhos do pessoal que trabalhava no consulado americano”, afirma o carioca Cesinha Chaves, 49 anos e um dos primeiros praticantes do esporte no país, no livro Onda Dura – 3 Décadas de Skate no Brasil. Em 1974 surgiu o primeiro parque com pistas de skate, em Nova Iguaçu. A cidade também abrigou, 3 anos mais tarde, o primeiro campeonato, organizado pelo próprio Cesinha.

“Houve um pequeno boom no fim dos anos 70”, diz o jornalista paulistano Alexandre Viana, dono da revista 100% Skate e presidente da Confederação Brasileira de Skate. “O pessoal andava na rua mesmo, pois o esporte ainda era meio marginal e a indústria não havia chegado por aqui.” Mas a fama dos Z-Boys se espalhou rapidamente. Todos os torneios passaram a ter disputas no formato vertical. Os novos half pipes, tanques parecidos com as piscinas invadidas de Beverly Hills, fizeram explodir o esporte no planeta, abrindo caminho para a profissionalização. Nasceram revistas especializadas e programas de TV, e foram criados rankings mundiais e confederações. Nomes como Gregg Weaver, Denis Shufeldt, Doug Saladino e Tony Hawk viraram ídolos nos anos 80 e 90.

E, claro, vários brasileiros entraram na história pela porta da frente. Rodrigo Menezes, Bob Burnquist, Sandro Dias “Mineiro” e Lincoln Ueda conquistaram campeonatos no exterior e ajudaram a popularizar o skate, que hoje é praticado por mais de 3 milhões de pessoas no país. Mineiro, especialista no 900 graus (em que dá duas voltas e meia em torno do próprio corpo no ar), foi campeão mundial em 2003 e 2004. Bob, ou melhor, Robert Dean Silva Burnquist, filho de pai americano e mãe brasileira, foi o primeiro atleta do país a vencer uma etapa do circuito mundial, em 1995, no Canadá. Em 2000, ele foi campeão mundial e hoje mora nos EUA e tem um patrocínio de 1 milhão de dólares por ano (já virou até personagem de game e de um programa da MTV brasileira).

Atualmente, Bob treina para ser um dos melhores na big ramp, uma das modalidades que faz mais sucesso nos X-Games. Numa rampa de 20 a 30 metros de altura, o skatista desce e ganha velocidade até chegar a outra rampa, de onde salta, gira e pousa em uma terceira (loucura total). Já há skatistas querendo voar mais longe, em equipamentos ainda mais inclinados e mais altos. Alguém duvida que eles vão conseguir?

Anos 1960

Os skates têm base comprida e rodas de madeira, plástico ou metal. Os praticantes usam até uniforme escolar para plantar bananeira e descer ladeiras nas cidades da Califórnia ao som de Beach Boys, Dick Dale, The Ventures e outras bandas de surf music.

Anos 1970

As rodas de uretano aumentam a segurança e, nas piscinas vazias por causa de um racionamento de água, os Z-Boys revolucionam o esporte imitando surfistas. Led Zeppelin, Deep Purple, Jimi Hendrix e muito rock de garagem embalam os vôos de jovens que querem ser roqueiros.

Anos 1980

Os skates, com seus shapes estreitos e rodinhas ainda mais aderentes e velozes, permitem manobras verticais. As grifes começam a entrar em cena: nos pés, só tênis All-Star; no corpo, bermuda longa e camiseta de bandas hard-core e de rock barulhento-experimental.

Anos 1990

Nos torneios, a moçada disputa provas verticais e nas big ramps (além do já tradicional street). Cada vez mais profissional, o skate esquece a fase marginal. No embalo de hip-hop e metal, o negócio agora é pôr um boné na cabeça e desfilar marcas como Adidas e Nike.

Anos 2000

Os brasileiros, como Bob Burnquist e Mineirinho, se tornam estrelas do esporte, que ganha o mundo com suas manobras 100% radicais. Metal e hip-hop continuam fazendo a cabeça dos praticantes, que usam capacete, joelheira e cotoveleira nas competições.

Para saber mais

The Concrete Wave, the History of Skateboarding – Michael Brooke, 1999, Warwick (EUA)

A Onda Dura, 3 Décadas de Skate no Brasil – Compilação de textos de vários autores, 2000, Parada Inglesa

Dogtown and Z-Boys, Onde Tudo Começou – Stacy Peralta, 2001

Os Reis de Dogtown (Lords of Dogtown) – Catherine Hardwicke e Stacy Peralta, EUA, 2005 (em cartaz nos cinemas)