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Partilha da África – O grande oportunista

Com o pretexto de levar a civilização ao Congo, no fim do século 19, o rei Belga Leopoldo 20 acumulou uma fortuna invejável. Acumulou também a Bagatela de 10 milhões de nativos mortos

01. Fura-fila

Em 1885, a Conferência de Berlim dividiu o continente africano entre as nações europeias e ditou as regras para a colonização. Mas bem antes que a partilha fosse oficializada – e a África se tornasse uma colcha de retalhos de fronteiras artificiais – Leopoldo 20, rei da Bélgica, já se agilizava no grande negócio da exploração daquelas bandas. Em 1876, na Conferência Geográfica de Bruxelas, criou a Associação Internacional Africana, com a promessa de levar hospitais, fé cristã e conhecimento ao Congo – e abolir a escravidão. Tudo para legitimar sua interferência, claro.

02. Bala na agulha

Leopoldo 20 alisou muito a longa barba branca antes de escolher a região e o povo que receberiam sua missão civilizatória. A resposta veio nos relatos do explorador inglês Verney Lovett Cameron, noticiados pelo jornal The Times em 1876, e do jornalista americano Henry Morton Stanley, correspondente do New York Herald. Eles davam conta de uma terra exuberante, onde alguém disposto a investir poderia lucrar plantando cana ou extraindo borracha.

03. Chegou o coronel

O rei ainda não tinha colocado os pés no Congo quando, em 1879, mandou Henry Morton Stanley – sim, o exjornalista e agora seu braço direito – trabalhar naquelas que seriam suas futuras terras. Construíram-se estradas de ferro, vilas e bases de armamento. E lugares foram batizados com nomes sugestivos: Leopoldville, Lago Leopoldo 20, Stanleyville, Stanleyfalls.

04. Feliz proprietário

Outras nações podiam circular e vender produtos nas terras da bacia do Congo, enquanto o rei belga administrava o território e os nativos. Leopoldo 20 fez com que os líderes das tribos assinassem contratos com um X – não sabiam escrever – cedendo a ele a posse das terras e o lucro pela exploração. Pronto, o homem era dono de um feudo 75 vezes maior que a Bélgica.

05. Abaixo a escravidão

Os primeiros produtos a serem extraídos do Congo foram o marfim e o látex (impulsionado pela invenção do pneu em 1888). Para todos os efeitos, não havia escravidão. Só trabalho forçado: enquanto as mulheres e crianças eram feitas reféns, os homens trabalhavam na fl oresta. Só podiam voltar depois que a cota de látex fosse cumprida. Quem não conseguia cumprir a meta tinha mãos ou narizes decepados e lançados às fogueiras. Dependendo do humor dos soldados, eles enfileiravam congoleses e os fuzilavam – não sem reclamar, em seguida, do desperdício de cartuchos com aquela gente.

06. Uma nova agonia

Em 1908, o governo da Bélgica assumiu a administração do Congo, transformando-o legalmente em colônia – até então as terras não eram do Estado, mas propriedade de Leopoldo, que recebeu £2 milhões em troca. (A essa altura, o rei já tinha acumulado em torno de US$ 1,1 bilhão, em valores de hoje). O país só se tornou independente em 1960, quando os europeus se retiraram e começaram os confl itos civis pelo poder.

TERROR CRÔNICO

Em outros países africanos, a situação hoje não é melhor que a do Congo, onde a expectativa de vida é de 46 anos. Em Ruanda, outra ex-colônia belga, a maioria hutu massacrou com facões 800 mil tutsis e hutus moderados entre abril e junho de 1994 – e olha que hutus e tutsis não são etnias de fato, mas grupos divididos arbitrariamente pelos colonizadores. Bernard Munyagishari, um dos cabeças do genocídio, foi detido em maio de 2011, depois de 17 anos foragido, e será julgado por crimes contra a humanidade. No Sudão, a rivalidade extrema é entre muçulmanos e não-muçulmanos, os primeiros apoiados pelo governo do ditador Omar al-Bashir. A milícia árabe Janjaweed já matou cerca de 300 mil civis nos ataques que deixam as vilas em ruínas. A criação de um novo país no sul da região, que concentra os animistas e católicos, programada para julho de 2011, pode dar algum alívio aos perseguidos.

10 MILHÕES DE NATIVOS MORTOS NO CONGO