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PCC – Crime sem cabeça

Desde 2003, quando os fundadores do Primeiro Comando da Capital foram depostos por Marcos Camacho, o Marcola, não há mais poderes absolutos, e as decisões foram descentralizadas. Entenda como funciona a maior facção criminosa prisional do Brasil.*

Irmãos
São os membros do PCC, ou seja, quem foi batizado na cadeia e paga mensalidade. Só entra na facção quem tem mérito, como ter se destacado numa rebelião ou num debate na prisão. É preciso ainda ser indicado por dois membros – os padrinhos, que respondem pelo sujeito caso ele pise na bola. Quem não é irmão, mas convive na boa com o estatuto do PCC, é o primo. São irmãos em potencial.

Torres
O alto escalão. Concentram as decisões mais importantes e traçam as diretrizes. Para isso, consultam as cadeias. No discurso, isso significa que ninguém manda mais e que até as torres são iguais aos outros. Mas sanções só podem ser aplicadas com o seu consentimento.

Pilotos
Os olhos e as bocas do PCC. Eles passam para frente os salves (comunicados) que chegam das torres ou de outras cadeias e fazem o contato com as autoridades públicas em rebeliões. Também garantem a ordem – é proibido dar em cima da mulher de outro, tirar a camisa em dias de visita, usar crack ou estuprar outro detento. Para não concentrar o poder, normalmente são eleitos dois presos para o cargo.

Faxinas
Os administradores. Ficam reunidos numa cela exclusiva e cuidam da organização interna dos pavilhões. Os faxinas são os únicos autorizados a falar com os funcionários para fazer requisições – por exemplo, pedir remédios ou reclamar que agentes estão pegando pesado na revista dos visitantes.

Disciplinas
Encarregados de fazer justiça no mundão – ou seja, fora da cadeia. Responsáveis por uma área, eles punem – às vezes com a morte – delatores ou aqueles que mentirem e extorquirem em nome da facção, por exemplo.

Bin ladens
Os endividados. São irmãos que não conseguem arcar com a mensalidade do PCC ou estão em dívida por outros motivos. Podem saldar seus débitos de várias formas – por exemplo, realizando ataques como os que deixaram São Paulo em pânico em 2006.

“Não existe um ditador. Embora a imprensa fantasie, romanticamente, que exista o líder do crime. Existem pessoas esclarecidas dentro da prisão que angariam a confiança de outros presos. Por quê? O preso vem com um problema, você dá uma solução.” MARCOLA, EM 2006.

Coisas
São os inimigos. Pertencem a facções rivais ou então foram convidados a se retirar do PCC. Precisam ser isolados do convívio se forem transferidos para uma unidade dominada pelo grupo.

* Organograma baseado em Junto e Misturado – Uma Etnografia do PCC, da antropóloga Karina Biondi, cujo marido esteve preso em cadeias comandadas pelo PCC.

O pior não passou

São Paulo não está livre de ataques como os de 2006, segundo o relatório São Paulo sob Achaque, recémdivulgado pela ONG Justiça Global e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos de Harvard. Afinal, ainda não foi remediado o que teria motivado a reação do PCC: superlotação das cadeias, corrupção da segurança pública, violência policial. O estudo sugere que autoridades públicas e a facção fizeram um acordo para cessar a violência. Mas esses pactos são frágeis, e a qualquer hora o PCC pode “esticar o chiclete” de novo – gíria da facção para “retomar o assunto”.

OU PASU?
ENQUANTO IS, O SECRETÁRIO DE SEGURANÇA PÚBLICA DE SÃO PAULO, ANTÔNIO FERREIRA PINTO, VEIO A PÚBLICO EM MAIO DE 2011 DIZER QUE O PODER DA FACÇÃO DIMINUIU DESDE 2006 E QUE HÁ NO MÁXIMO 30 LÍDERES, TODOS PRES NA PENITENCIÁRIA DE SEGURANÇA MÁXIMA DE PRESIDENTE VENCESLAU (SP).

NINGUÉM É UMA ILHA
Além do PCC, outras facções disputam espaço nos presídios paulistanos.

ADA (Amigos dos Amigos)
A organização carioca é uma das três maiores do Rio e se opõe ao Comando Vermelho. Em São Paulo, já batizou membros na penitenciária de Presidente Prudente.

CRBC (Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade)
Nasceu em 1999 com dissidentes do PCC, tem estatuto definido e prevê cobranças para os membros que desrespeitam as regras. Age principalmente nas cadeias de Guarulhos.

SS (Seita Satânica)
Surgiu nos anos 1970, no Carandiru. Seus membros cultuam o demônio, e sua principal marca é a falange do dedo mindinho cortada. Hoje o grupo não tem grande expressão. Em Presidente Prudente, uniu-se à ADA para fazer frente ao PCC.