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Perdeu, playboy

Sete homens e uma proeza: perder tudo em negócios furados, empresas falidas, divórcios e até tigres-de-bengala

Por Cristine Kist Atualizado em 31 out 2016, 18h26 - Publicado em 15 set 2014, 22h00

Ficar rico não é fácil. Mas empobrecer é mais difícil ainda. Normalmente, nasceu pobre, morreu pobre; nasceu rico, morreu muito rico. Essa “imobilidade social” no topo da pirâmide acontece porque os filhos de famílias bem de vida costumam receber uma educação acima da média, e os pais sempre têm um conhecido influente que pode abrir portas naquela multinacional que está todo ano na lista da Forbes. E tem mais: ricos tendem a se casar com outros ricos. Uma pesquisa da Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, mostrou que, se as pessoas não estivessem inclinadas a casar com gente da mesma classe social, a desigualdade no mundo seria bem menor.

O que dizer então de sujeitos que perderam milhões ou até mesmo bilhões? São façanhas memoráveis, grandes feitos da história da economia. Juntos, os sete cavalheiros destas páginas perderam mais de US$ 100 bilhões (duas vezes o PIB do Uruguai). Mesmo assim, eles não ficaram pobres, só (muito) menos ricos. Eike preju.

Masayoshi Son (56 anos / Japão)

Prejuízo – US$ 70 bilhões.

Erro – Bolha da internet.

Não é que o japonês Masayoshi Son seja pobre. Ele é o terceiro homem mais rico do Japão e o 128 º mais rico do mundo (não é uma posição lá muito glamurosa, mas pelo menos ele não passou meses reclamando do preço do tomate no Facebook). Mesmo assim, Masayoshi entrou para a história por ser a pessoa que mais perdeu dinheiro em todos os tempos.

Fundador da empresa de software Softbank, o empresário se tornou um grande investidor de negócios digitais na virada do milênio. No início dos anos 2000, ele tinha participação em pelo menos 25% da internet inteira. Masayoshi era dono de mais de 20% do Yahoo e sócio do inesquecível Geocities, antigo serviço de hospedagem de sites. Até no portal de saúde brasileiro ConnectMed ele investiu. Com isso, o japonês ficou multibilionário, e chegou a ser um dos homens mais ricos do mundo, o 8 º em 2000. Só que aí a bolha da internet estourou, as ações da Softbank caíram 98% e, de um dia para o outro, ele viu US$ 70 bilhões escorrerem pelo ralo. Ficou “só” com US$ 1 bilhão. Então, ele investiu em empresas de telefonia, games e, mais uma vez, internet. Agora, sua fortuna está em US$ 9 bilhões. Uma merreca.

Eike Batista (57 anos / Brasil)

Prejuízo – R$ 60 bilhões.

Erro – Excesso de otimismo.

Eike Batista provavelmente ainda é muito mais rico que eu e você (que eu, com certeza). O problema é que ele não queria ter mais dinheiro que eu e você: ele queria ser mais rico que todo mundo. Em 2011, Eike jurou que seria o maior multibilionário do planeta até 2016. Só que aí chegou 2013 e, bom, ele perdeu 91% de tudo que tinha.

No início dos anos 80, o Brasil vivia o auge da corrida do ouro. O jovem Eike pediu um empréstimo de US$ 500 mil e foi correndo para Serra Pelada, no Pará. O negócio dele era comprar ouro direto da fonte e revender mais caro no eixo Rio-São Paulo. Os US$ 500 mil viraram US$ 6 milhões rapidinho. E esses milhões foram investidos em máquinas que extraíam ouro. Depois, em minas de ouro. Aos 40 e poucos anos, Eike já era um bilionário.

Em 2005, ele fundou a sua própria mineradora, a MMX. Deu certo e, logo depois, ele criou também a OGX, a petroleira do grupo. A OGX teve suas ações vendidas antes de sair do papel, e, nessa brincadeira, o pai do Thor e ex da Luma levantou mais alguns bilhões. Esses novos bilhões também não ficaram parados. Eike aproveitou o dinheiro para colocar em ação o seu plano mais ambicioso: montar uma rede de empresas interdependentes, o “Império X”. Ele precisava de um porto para escoar o minério extraído pela MMX, então criou a LLX, uma empresa especializada em, bem, construção de portos. Depois veio a MPX, a termelétrica que forneceria energia para a MMX, a OGX e a LLX. Mas Eike não contava com o efeito dominó. Quando a OGX saiu do papel, revelou-se que seus campos de petróleo eram improdutivos. Aí já era. O ocaso da OGX derrubou todas as outras empresas X. E hoje Eike tem mais dívidas do que bens. Teve até que vender o iate, coitado.

T. Cullen Davis (80 anos / EUA)

Prejuízo – US$ 630 milhões.

Erro – Tentar (ou não) matar a ex-esposa.

A família do americano T. Cullen Davis era dona de uma multinacional do petróleo chamada Kendavis International. Mas Davis já tinha começado a torrar a grana do clã bem antes disso.

Em 1974, sua esposa, Priscilla, pediu o divórcio. Ela continuou morando sob o teto que dividia com ele até ser surpreendida por um homem encapuzado ao chegar em casa com o novo namorado. O sujeito disse “oi” e desandou a atirar. Priscilla levou um tiro, mas sobreviveu. O namorado e a filha morreram.

Quando se recuperou, ela disse que o encapuzado era Davis. Ele foi julgado e entrou para a história como o homem mais rico a responder por homicídio na Justiça. Só que foi inocentado, já que Priscilla retirou a acusação ao firmar um acordo de alguns milhões de dólares (olha aí o dinheiro indo embora). Anos depois, um condenado no corredor da morte disse que era o verdadeiro assassino, mas, bom, ninguém acreditou.

Em crise, a Kendavis pediu falência em 1986. Davis estava quebrado, devia mais de US$ 230 milhões. Mas ele parecia não ligar muito para frivolidades como dinheiro. Junto com um amigo pastor, destruiu mais de US$ 1 milhão em objetos decorativos feitos de ouro e marfim da sua antiga mansão porque, segundo Davis, as peças honravam falsos deuses.

Hoje, o antigo barão do petróleo vive longe dos holofotes e pouco se sabe de sua vida. A última notícia a respeito falava de um incêndio na casa dele, em 2008. Haja azar.

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John Law (1671 – 1729 / França)

Prejuízo – Boa parte do dinheiro da França.

Erro – Revolucionar a economia 200 anos antes da hora.

Malandro, com um histórico de dívidas e uma condenação à morte na Inglaterra, o escocês John Law ganhou vida nova quando chegou à França no século 18. Ficou amigo do duque de Orleans, o regente na época, e virou ministro da Fazenda. Law criou o Banco Nacional da França, depois de prometer ao duque que o banco assumiria as dívidas deixadas por Luís 14, o Rei Sol. Em troca, a coroa só tinha que aceitar as notas emitidas pelo banco como forma de pagamento de impostos – até então, o sistema financeiro era todo baseado em ouro e prata. E foi assim que o dinheiro de papel começou a circular entre os franceses.

Tudo estava dando certo: Law ficou milionário (ele era o dono do banco e podia imprimir quanto dinheiro quisesse), o duque não devia nada para ninguém e as pessoas estavam satisfeitas com a praticidade de carregar papel em vez de metal. Mas elas só estavam satisfeitas porque achavam que podiam trocar as notas do banco por ouro e prata quando quisessem. Até que um dia alguém se deu conta de que existiam notas demais no mercado, e que a França não tinha tanto ouro assim. Aí foi todo mundo tentar trocar as notas por metal – só que não tinha metal. Law tinha “esquecido de avisar” que o dinheiro do banco não tinha lastro. As pessoas ficaram furiosas, voltaram a usar ouro e prata e o escocês foi condenado à morte de novo (dessa vez, ele fugiu para Veneza). Mas deixou o seu legado: hoje, o mundo todo usa dinheiro sem lastro.

William Durant (1861 – 1947 / EUA)

Prejuízo – US$ 1,8 bilhão.

Erro – Quebrar uma montadora. Duas vezes.

Durant era um bem-sucedido fabricante de carrocerias para carruagem do século 19 quando foi convidado a investir num negócio promissor: a carruagem sem cavalos (também conhecida como carro). Ele topou e, em 1908, sua montadora se juntou a outras líderes do setor, formando a General Motors. Durant foi nomeado o presidente da empresa, e, em apenas dois anos, conseguiu o que parecia impossível: quebrou. E foi demitido. Mas, em vez de se lamentar, o (ex) empresário aproveitou para fazer novas amizades. Foi assim que ele conheceu o piloto Louis Chevrolet, que na época estava tentando construir seu próprio carro. Durant se ofereceu para ser sócio. Da parceria dos dois, nasceu a Chevrolet.

Deu tão certo que ele logo juntou o suficiente para comprar a GM de volta. Mas aí, para provar que alegria de rico às vezes também dura pouco, veio a crise de 1929. Os investidores queriam de volta a grana que tinham colocado na GM, e Durant teve que pagar do próprio bolso. Acabou pedindo falência pessoal e foi afastado de novo. Mesmo assim, ainda reuniu forças para investir em outro negócio: pistas de boliche. E quebrou de novo.

Mike Tyson (47 anos / EUA)

Prejuízo – US$ 423 milhões.

Erro – Divórcios e tigres-de-bengala.

Depois de uma noite agitada, o ex-lutador Mike Tyson perdeu uma mala (quem nunca?). Acontece que, dentro da mala, tinha US$ 1 milhão. Em sua autobiografia, ele contou que “tinha tido uma noite difícil” e “esqueceu onde deixou”. A mala acabou sendo encontrada (e devolvida) uma semana depois, mas a história ilustra bem por que ele perdeu tudo.

No auge, Tyson faturava até US$ 30 milhões por luta. Mas ele gastou o que tinha e o que não tinha em carros, festas, tigres-de-bengala e divórcios. Só com a segunda esposa, Monica Turner, foram US$ 9 milhões. Quando pediu falência em 2003, o lutador estava devendo US$ 17 milhões só em impostos.

Mas Tyson não é o único atleta que faltou às aulas de economia doméstica: 60% dos jogadores da NBA e 78% dos da NFL (a liga de futebol americano) quebram cinco anos depois de se aposentar. No Brasil, também há diversos casos como o de Müller, bicampeão mundial pelo São Paulo, que torrou todo seu dinheiro e chegou a morar de favor. Tyson ainda tem casa própria, mas já avisou aos credores que deve, não nega e possivelmente não vai pagar nunca mais.

Jorginho Guinle (1916 – 2004 / Brasil)

Prejuízo – Cerca de R$ 20 milhões.

Erro – Viveu demais.

O carioca Jorginho Guinle só morreu pobre porque viveu demais. “Achei que fosse morrer com uns 75 anos e estou com 87. Calculei mal e gastei tudo antes da hora”, disse na sua última entrevista, pouco antes de falecer, em 2004. Na época, ele morava de favor e comia de graça no Copacabana Palace, hotel fundado no Rio por um dos seus tios. Sua renda se restringia a uma aposentadoria de R$ 1.588, que ele recebia por ter batido ponto numa empresa da família por 30 anos. E era só isso mesmo que ele fazia no trabalho: bater ponto. Colocar a mão na massa para valer, nem pensar.

Jorginho se orgulhava de nunca ter precisado trabalhar. Herdeiro de uma das famílias mais ricas e influentes do Brasil, ele jurava que não tinha torrado tudo sozinho, mas também não sabia exatamente quanto gastou. Só dizia que gastou cerca de R$ 20 milhões ao longo da vida.
Preferia estar na capa de CARAS que em EXAME. Era um boa-vida. Namorou Marilyn Monroe e outras musas de Hollywood. Diferente dos outros cavalheiros citados aqui, Guinle ficou pobre praticamente porque quis. Se John Law descobriu a magia do dinheiro, ele descobriu que dinheiro é para gastar.

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