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Por que descemos das árvores?

Flávio Dieguez

A descoberta recente de três fósseis e uma montanha de análises novas mudam completamente a história da evolução do homem. Primeiro, são muitos mais, e espalhados por várias regiões, os ancestrais da humanidade. Depois, surgem novas hipóteses para uma pergunta crucial:

Se você pensa que é diferente dos macacos porque tem o cérebro maior que o deles, e acredita que foi por ser mais inteligente que começou a andar com duas pernas, bem, você errou. O seu crânio é mesmo maior, mas o que separou você dos macacos foram os pés. Para os antropólogos, a massa cinzenta do homem só cresceu depois que seus primeiros ancestrais, os hominídeos, ficaram eretos. Aí, tiveram as mãos livres para confeccionar instrumentos e para outras artes – e foram essas tarefas que estimularam o aprimoramento do raciocínio. Mas aí é que está: então por que esses ancestrais, os hominídeos, ficaram de pé? Até hoje, a explicação mais aceita era a seca que há 5 milhões de anos matou parte das matas africanas, forçando nossos ancestrais a virar bípedes. Eles precisavam cruzar rapidamente os descampados para buscar comida. Só que essa idéia já não faz sentido. Achados recentes mostram que vários hominídeos moravam mesmo na mata, e mesmo assim andavam de pé. E agora? Como admitiu à SUPER o especialista Bernard Wood, da Universidade de Liverpool: “A nossa velha hipótese virou fóssil.”

A busca de uma resposta agita a ciência

Desde 1974, os paleoantropólogos cultivaram a noção de que os símios antigos começaram a virar bichos humanos porque uma seca transformou parte das florestas africanas em áreas de vegetação mais rala, as chamadas savanas. E aí, quem não se equilibrasse sobre duas pernas, que é um jeito mais eficiente para alguém como um macaco andar depressa, ia se dar mal. Era preciso buscar a comida bem longe – e ainda fugir de predadores.

Pelo menos era assim que se explicava a evolução do homem, cuja marca registrada é ser o único bípede dentro da ordem dos macacos. Mas no final de 1995 apareceram ossos de três precursores da humanidade que foram habitantes das matas fechadas, e não das savanas. E, não obstante, eram bípedes.

Com os achados, a teoria da seca ficou de quatro. Ainda mais porque, de lá para cá, outros fósseis foram reanalisados e ficou claro: eram eretos e habitavam florestas fechadas. Ou seja, vai ser preciso achar um outro jeito de explicar porque alguns macacos evoluíram e aprenderam a ficar de pé, dando início à evolução humana. A vantagem é que são justamente os grandes desafios que levam a descobertas novas. “Está começando uma nova era no estudo do homem”, assegurou à SUPER o paleoantropólogo Michel Brunet, da Universidade de Poitier, França.

Oito maneiras de ficar de pé e caminhar

Nos últimos dois anos, o número de possíveis ancestrais da humanidade simplesmente dobrou. A lista antiga incluía quatro bichos do gênero dos australopitecos: o afarense, o africano, o robusto e o boisei. A nova relação reúne mais quatro hominídeos. Três deles são classificados no gênero dos australopitecos: o anamense, o barelgazali e o etiópico. Mas há também um quarto animal, o ramido. Seu esqueleto é tão primitivo que os cientistas decidiram abrir um gênero novo só para classificá-lo, o dos ardipitecos. Para se ter uma idéia da relevância do achado, basta dizer que, desde 1925 – quando foi encontrado o Australopithecus africanus –, é a primeira vez que os pesquisadores concordam em criar um gênero novo.

Foi com um certo susto que se verificou que todos os oito, tão diferentes entre si, andavam de pé. Até hoje, a presunção da ciência era de que um único ser, o afarense, teria sido capaz de dar o salto evolutivo, o salto bípede, que resultaria na nossa ereta civilização. O fascinante, e de certo modo assustador, é que todas as outras também estavam passando pelas transformações anatômicas: todas sabiam caminhar. Ou seja, esses sete bichos representaram evoluções paralelas, como se fossem versões variadas de uma invenção evolutiva muito bem sucedida: ficar de pé e sair marchando pelo mundo.

E o segundo passo foi o cérebro

A lição definitiva que se aprende com as descobertas recentes é que a evolução não cria somente uma espécie nova de cada vez, como numa fila indiana. Em vez disso, as inovações são adotadas por diversos seres ao mesmo tempo, como ficou provado com o grande número de macacos bípedes, os chamados australopitecos e ardipitecos. Além dos oito fósseis desse tipo desenterrados até agora, outros ainda podem aparecer. E isso foi só o comecinho da escalada do homem. Como você vê aí ao lado, a proliferação de espécies repetiu-se na etapa seguinte, que teve início há cerca de 2,5 milhões de anos.

Nesse período despontaram os primeiros representantes do gênero humano, chamado de Homo. Isso mesmo: no passado, houve mais de uma espécie humana no planeta. Atualmente, os antropólogos reconhecem a existência de seis, inclusive, é claro, o Homo sapiens, na qual você está incluído. Naturalmente, depois de toda essa história, a marca registrada dos humanos foi o aumento da massa encefálica, que ficou quase três vezes maior que a dos australopitecos. Mas não foi ela que nos fez andar. Foi o contrário. O cérebro cresceu depois que a coluna vertebral se esticou para cima. O cérebro vai ser importante agora para entender, afinal, por que é que um dia os hominídeos desceram das árvores.

O lugar de cada um

Veja como eram os hábitats em que foram achados os ancestrais do homem.

Bahr el Ghazal

Há 3,5 milhões de anos, era uma região em que mesclavam-se florestas e capinzais.

Lago Turkana

Fica numa região que era seca, no passado, mas suas margens teriam sido cobertas por floresta fechada.

Laetoli

Vista inicialmente como uma área de arbustos, pode também ter abrigado vegetação densa.

Sterkfontein

As pesquisas feitas nos últimos anos mostram que era uma área coberta por grandes árvores.

Os ancestrais fora do berço

Eles agora são encontrados por toda parte na África.

Os australopitecos, gênero que daria origem à linhagem humana há uns 5 milhões de anos, foram descobertos em 1925 pelo anatomista sul-africano Raymond Dart em Taung, na África do Sul. A espécie foi denominada Australopithecus africanus. Em 1974, o americano Donald Johanson e o francês Yves Coppens desenterraram Lucy, uma fêmea de australopiteco da espécie afarense, no nordeste africano, e desde então quase todos os fósseis foram achados nessa região, que passou a ser considerada o berço da humanidade. Mas a partirdo final de 1995 começaram a aparecer esqueletos em vários outros lugares. Desde então, o centro da origem humana se perdeu. Para Michel Brunet, da Universidade de Poitier, França, descobridor do Australopithecus bahrelghazali, “seria ingenuidade, agora, tentar determinar um único local para o berço da humanidade.”

Entre a floresta e a savana

E o clima tornou-se um personagem no romance da evolução.

A paleontóloga Elizabeth Vbra, da Universidade de Yale, foi a primeira a notar que as matas tropicais africanas diminuíram de tamanho porque o clima ficou mais seco. Hoje há indícios de que a mudança pode ter começado há 5 milhões de anos, mas há dúvidas se o efeito foi persistente ou se oscilou entre mais úmido e mais seco ao longo dos milênios.

Há mais de 5 milhões de anos, a vegetação úmida ocupava espaço muito maior do que hoje, chegando até a costa leste. Aí começou a encolher.

Entre 5 milhões e 3 milhões de anos, chuvas e estiagem, em sucessão, fizeram o tamanho da floresta crescer e diminuir constantemente.

Há 2,8 milhões de anos a tendência à aridez consolidou-se, criando extensas áreas de savanas, que têm vegetação como a do cerrado brasileiro.

Esse é o aspecto da África hoje. A longa estiagem deu ao Saara a dimensão que se vê no mapa. Nos lados leste e noroeste, as savanas dominam.

A lista completa dos antepassados

Todos eles eram eretos e moravam nas matas.

Ardipithecus ramidus

Período: 4,4 milhões de anos atrás

Local: Aramis

Ambiente: floresta fechada

Australopithecus anamensis

Período: 4,1 milhões de anos atrás

Locais: Turkana, Kanapoi

Ambiente: Savana e matas de beira de rio ou lago

Australopithecus bahrelghazali

Período: 3,6 milhões de anos atrás

Local: Bahr el Ghazal

Ambiente: matas fechadas

Australopithecus afarensis

Período: de 3,9 milhões a 3,1 milhões de anos atrás

Locais: Awash, Omo, Koobi Fora,Turkana, Laetoli

Ambiente: savana mesclada a áreas florestais

Australopithecus aethiopicus

Período: de 2,6 milhões a 2,2 milhões de anos atrás

Locais: Rio Omo, Lago Turkana

Ambiente: vegetação de beira de rios e lagos

Australopithecus boisei

Período: de 2,6 milhões a 1 milhão de anos atrás

Locais: Turkana, Omo, Koobi Fora

Ambiente: savana mesclada a áreas florestais

Australopithecus robustus

Período: de 2 milhões a 1,2 milhões de anos atrás

Local: Kromdraai

Ambiente: florestas densas

Australopithecus africanus

Período: de 3 milhões a 2,3 milhões de anos atrás

Locais: Sterkfontein, Taung

Ambiente: florestas densas

Os três humanóides mais antigos

Todos eles sabiam andar, mesmo escalando troncos e galhos durante uma parte dos seus dias.

Suspense fóssil

A descoberta do ramido deixou os estudiosos num tremendo suspense. O autor do achado, o americano David Pilbeam, ainda não terminou de analisá-lo e não quer dar dicas sobre o que achou. Só diz que ele podia “andar” pelos galhos tão bem quanto no chão, sobre dois pés. “É um meio de locomoção inteiramente novo”, disse Pilbeam à SUPER. Idade do fóssil: 4,4 milhões de anos.

Ancestral do meio

O anamense, como todos os hominídeos, compartilhava vários traços com o chimpanzé: braços longos comparados às pernas, crânio com um terço do tamanho do nosso e mandíbula grande. Mas o dedão do pé dos macacos parece um polegar: é bem afastado dos outros dedos. O dedão do anamense já era um pouco menos separado, o que ajuda muito a andar ereto. Mas, há 4,1 milhões de anos, ainda preservava a habilidade de escalar os galhos.

O elo encontrado

O afarense tinha a anatomia mais próxima à humana, com as pernas encaixando-se bem debaixo da bacia. Esse alinhamento garantia o equilíbrio ao andar, enquanto o chimpanzé fica meio agachado porque sua bacia forma um ângulo com o fêmur. Por isso tem que apoiar-se nas quatro patas para locomover-se. Mesmo o afarense devia sentir-se em casa nos galhos. Ele sobreviveu 1 milhão de anos, entre 3,9 milhões e 3,1 milhões de anos atrás.

Uma viagem no tempo

Dos chimpanzés ao Homo sapiens passaram-se cerca de 6 milhões de anos.

6 milhões de anos atrás

Período que antecedeu o aparecimento dos primeiros australopitecos. De macaco, na Terra, havia somente antepassados dos chimpanzés e dos gorilas. Vários deles tiveram a “idéia” de andar sobre duas patas. Ou seja, deram início à transformação que criaria os homens, muito mais tarde.

4,5 milhões de anos atrás

Entre os bichos que se tornaram bípedes estavam o Australopithecus ramidus, o Australopithecus anamensis, o Australopithecus bahrelghazali e o Australopithecus afarensis. Este último sobreviveu até 3,1 milhões de anos atrás e foi a ponte evolutiva para os primeiros bichos do gênero Homo, do qual faz parte o Homo sapiens, nós mesmos.

2,5 milhões de anos atrás

Você já encontra, nessa etapa, os dois primeiros representantes dos humanos, que são o Homo habilis e o Homo rudolfensis. Mas também vê bichos que deram continuidade ao gênero australopiteco. São o Australopithecus africanus, o Australopithecus robustus, o Australopithecus boisei e o Australopithecus aethiopicus.

1,5 milhão de anos atrás

Todos os australopitecos extintos, restaram os humanos. O Homo ergaster desapareceu por volta de 1,4 milhão de anos atrás. O Homo erectus existiu até uns 500 000 anos atrás e foi o primeiro a povoar a Europa e a Ásia. Teria dado origem ao Homo sapiens, que somos nós, entre 200 000 e 100 000 anos atrás, na África. O Homo neanderthalensis pode ter surgido há uns 500 000 anos. Extinguiu-se há 30 000 anos.