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Quais foram as maiores rebeliões populares da história?

10 milhões de grevistas – dois terços dos trabalhadores da França – pararam o país em maio de 1968. Mas essa é apenas uma das maiores revoltas populares

Por Lidia Neves Atualizado em 26 abr 2017, 15h55 - Publicado em 31 jan 2006, 22h00

Nenhuma revolta juntou mais pessoas que a de maio de 1968, na França. Começou com estudantes que brigavam contra a administração linha dura de uma universidade dos arredores de Paris, a Nanterre. Em março daquele ano, 140 alunos invadiram o prédio da reitoria. Isso inspirou outros estudantes, e os protestos foram aumentando, até que em 2 de maio o reitor quis “acabar com a bagunça”: fechou os portões do campus. Aí que o bicho pegou. Centenas de alunos da Universidade Sorbonne se juntaram para protestar contra a resolução. Chamaram a polícia. Mais de 100 acabaram feridos e a Sorbonne terminou ocupada por policiais. Os estudantes, então, passaram dias enfrentando a polícia com pedras e coquetéis molotov. A luta motivou organizações trabalhistas a sair para o pau também. Elas chamaram uma greve geral no dia 13 de maio. E no fim do mês o número de grevistas chegava a 10 milhões – dois terços dos trabalhadores. Os líderes da revolta, agora, queriam a saída do presidente Charles De Gaulle. Para evitar o caos, o governante convocou eleições presidenciais às pressas e ameaçou endurecer caso a greve continuasse. Deu certo: o movimento murchou e De Gaulle, com a imagem melhorada por ter trazido a paz de volta, acabou reeleito. Só que maio de 1968 não morreu aí: a magnitude da rebelião fortaleceu partidos de esquerda no mundo todo. E olha que tudo começou praticamente do nada. Qualquer revolta popular que se preze, afinal, começa desse jeito. Olha só.

532 – Insurreição das torcidas

Onde: Constantinopla, Império Bizantino.

Por quê: Membros das duas maiores “torcidas organizadas” de corridas de biga, a Azul e a Verde, tinham sido presos e condenados ao enforcamento. O imperador Justiniano 1º, entusiasta do esporte, aliviou a pena para prisão, mas isso não agradou aos torcedores, que queriam o perdão total.

Como foi: Os “azuis” e os “verdes” invadiram o presídio e libertaram seus colegas. Colocaram fogo na cadeia e em outros edifícios da cidade, gritando nika! (“vitória!”), igual faziam nas corridas de biga. Alguns senadores viram o motim como uma oportunidade para derrubar o imperador e deram armas aos rebeldes.

O que conseguiram: Derrubaram Justiniano. Mas as forças do imperador fizeram uma armadilha no hipódromo e encurralaram os rebeldes. Depois de 300 mortes, tudo voltou ao normal.

1811 – Quebra das máquinas

Onde: Nottingham, Inglaterra.

Por quê: Foi uma reação contra a implantação de máquinas na indústria. A queixa era que elas tiravam o emprego dos trabalhadores braçais.

Como foi: Operários destruíam fábricas como forma de protesto. Eles se autodenominavam ludistas – se diziam seguidores do lendário Ned Ludd, um trabalhador que teria quebrado um tear mecânico em uma revolta contra o uso das máquinas no final do século 18. O governo britânico repreendeu duramente os rebeldes. Alguns deles foram condenados à morte e outros, deportados para a Austrália.

O que conseguiram: O movimento perdeu força com o surgimento dos sindicatos. Hoje o termo ludista é usado como sinônimo de quem se opõe ao avanço da tecnologia.

1881 – Luta pelo carnaval

Onde: Port of Spain (1881), San Fernando e Princes Town (1884), Trinidad e Tobago.

Por quê: Colonizadores britânicos tentaram proibir o Canboulay, o carnaval de Trinidad e Tobago. Achavam que a festa, cheia de ritos e bacanais, era uma “ameaça à ordem pública”.

Como foi: A primeira ofensiva partiu do chefe da polícia local, Arthur Baker, que tentou reprimir o Canboulay em Port of Spain. Os foliões foram para o pau com a polícia para garantir a festa, e até tiveram o apoio do governador inglês. Três anos depois, Baker tentou acabar com a folia nas cidades de San Fernando e Princes Town, e o povo reagiu do mesmo jeito.

O que conseguiram: O Canboulay se mantém firme até hoje. Das cantorias dos ex-escravos surgiu o calipso, na década de 1920. E os motins ainda são lembrados durante a festa.

1968 – Motins por Luther King

Onde: Washington, Chicago e Baltimore, EUA.

Por quê: Quando Martin Luther King foi assassinado, algumas pessoas saíram às ruas pedindo o fechamento de lojas em respeito ao luto pelo líder do movimento contra a segregação racial.

Como foi: As manifestações foram ganhando adeptos. O que era meia dúzia virou uma multidão. E o que era uma marcha pacífica virou uma revolta violenta. Mais de 20 mil saíram às ruas.

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O que conseguiram: Nada. Com mais de 13 mil soldados, a polícia e as Forças Armadas abafaram as rebeliões. Saldo: 12 mortos, 1 097 feridos e 6 100 presos. Cerca de 1 200 prédios foram queimados. E os prejuízos com a destruição foram de 150 milhões de dólares em valores de hoje.

1969 – Levante gay

Onde: Nova York, EUA.

Por quê: Na década de 1960 era normal a polícia americana prender freqüentadores de bares gays. No Stonewall Inn, que também funcionava como boca-de-fumo em Nova York, isso rolava com mais freqüência ainda.

Como foi: Em 28 de junho a polícia entrou no bar quando ele já estava cheio – o que não era comum – e disse que ia prender quem estivesse vestido de mulher. A multidão reagiu com garrafadas e a galera dos bares vizinhos foi ajudar na briga. No fim, 2 mil pessoas enfrentavam 400 policiais.

O que conseguiram: Depois do episódio de Stonewall, formaram-se as frentes de libertação gay em vários países. A data da rebelião é lembrada no mundo todo com o Dia do Orgulho Gay e com as paradas gays.

1989 – Insurreição contra Ceausescu

Onde: Timisoara e Bucareste, Romênia.

Por quê: A polícia foi prender um padre de Timisoara que tinha criticado o regime socialista. Uma multidão cercou a casa dele para tentar impedir, hurrando gritos de guerra contra o comunismo. A polícia reagiu com gás lacrimogênio. E a revolta aumentou.

Como foi: Rebeldes invadiram prédios da administração comunista. Rolaram brigas e tiroteios. O ditador Nicolae Ceausescu mandou tropas a Timisoara e convocou os trabalhadores das cidades vizinhas para acalmar a situação. Só que eles se juntaram aos amotinados.

O que conseguiram: Fileiras de trabalhadores invadiram Bucareste e tomaram o prédio do Partido Comunista no dia 22 de dezembro. O líder do Exército recolheu suas tropas. E Ceausescu acabou pego. O ditador, condenado em uma corte militar, morreu fuzilado.

1992 – Revolta racial

Onde: Los Angeles, EUA.

Por quê: Um júri majoritariamente branco absolveu 4 policiais brancos do crime de ter espancado Rodney King, um motorista negro.

Como foi: Negros e latinos, revoltados com a decisão, quebraram carros, saquearam lojas e incendiaram vários edifícios. Enquanto um motorista de caminhão branco era espancado por uma multidão, gente que assistia aos motins pela televisão saiu de casa para resgatá-lo. No dia seguinte, os donos de lojas coreanos começaram a reagir ao vandalismo com armas de fogo, criando um clima de guerra total.

O que conseguiram: A Justiça americana reabriu o caso Rodney King e dois dos 4 acusados foram considerados culpados.

2001 – Panelaço

Onde: Várias cidades da Argentina.

Por quê: O país vivia uma crise financeira que já durava 3 anos. Para evitar a quebra dos bancos, o ministro da Economia, Domingo Cavallo, elaborou o “corralito”, um plano econômico que impunha limites aos saques de dinheiro. Resultado: quem era de classe média passou a viver como pobre. Quem já era pobre caiu na miséria.

Como foi: Começou uma onda de saques a supermercados e lojas. O presidente Fernando De La Rúa decretou estado de sítio e suspendeu as garantias constitucionais por um mês. Ao verem o discurso do presidente na TV, as pessoas saíram às ruas batucando em panelas. Uma barulheira só.

O que conseguiram: Cavallo e De La Rúa tiveram seus poderes tolhidos pelo Congresso e renunciaram.

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