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Que fim levou Atlântida?

Há 2 500 anos o homem moderno procura no mapa a cidade que o grego Platão criou para ilustrar sua filosofia

Natália Rangel

“Vou lhes contar uma antiga história que ouvi de um homem de quase 90 anos quando eu tinha pouco mais de dez…” É assim, como quem inventa uma história para embalar o sono dos filhos pequenos, que o narrador Critias começa a revelar nos Diálogos do filósofo grego Platão (427-347 a.C.) o que viria a ser uma das histórias mais fascinantes da humanidade: a existência ou não de Atlântida.

A detalhada descrição de uma avançada civilização, que “em apenas um dia e uma noite desapareceu nas profundezas do oceano”, como foi reproduzida nos diálogos platônicos Timeus e Critias, deixa intrigado qualquer cético de carteirinha. Prova disso é que a história pegou. Há 2 500 anos, arqueólogos, geólogos e curiosos de diversas áreas de estudo se debruçam sobre o mistério desse reino perdido no Oceano Atlântico. E sempre que há alguma nova pista ou descoberta, são feitas as devidas referências às latitudes e longitudes, dimensões e outras características contidas nos textos de Platão. “As buscas inesgotáveis por Atlântida sugerem a sua existência”, diz o arqueólogo Álvaro Allegrette, professor da Pontifícia Universidade de São Paulo (PUC-SP). “O imperador Alexandre, o Grande, encontrou Tróia após seguir as indicações dadas na obra Ilíada, de Homero. Estes paralelos inspiram o imaginário humano e trazem em si uma dimensão mítica capaz de mover montanhas.”

A novidade mais recente vem do geógrafo sueco Ulf Erlingsson, da Universidade de Uppsalla, autor no livro Atlantis from Geographer´s Perspective: Mapping the Fairy Land, lançado em setembro na União Européia. Erlingsson afirma que a descrição geográfica de Atlântida, presente no livro de Platão, é baseada numa ilha que ainda existe: a Irlanda. “Ela tem as mesmas dimensões, 480 quilômetros de extensão por 320 de largura, e apresenta um planalto central que encontra saída para o mar. Estudei as 50 maiores ilhas e somente a Irlanda possui essa descrição”, disse Erlingsson ao jornal inglês The Guardian. Ele acredita que a Atlântida idealizada por Platão é utópica, mas que foi imaginada tendo como referência uma ilha de verdade – que, em sua opinião, só pode ser a Irlanda.

ELO PERDIDO?

Alguns fatos históricos que intrigam os pesquisadores são as semelhanças entre as culturas do Velho e do Novo Mundo. As pirâmides do Egito e as grandes construções dos maias e astecas, no México, estão todas localizadas na mesma latitude, 30 graus. No meio do caminho, no oceano Atlântico, estaria Atlântida, uma civilização avançada, saudável e bela que teria contribuído para a troca de informações entre as duas culturas. Uma hipótese é que a degeneração moral da sociedade lhe impingiu um histórico castigo: ela teria submergido após um maremoto e estaria na região das Bahamas, na América Central, próxima à Ilha de Andros e Bimini. Uma expedição liderada pelo explorador francês Jacques Cousteau achou por acaso na região uma grande caverna a 50 metros de profundidade. E, dentro dela, mergulhadores encontraram formações de estalactites, uma evidência de que o complexo de cavernas já estivera fora d’água. A análise geológica do sítio revelou que datam de 10 000 anos antes de Cristo, o que reforçaria a possibilidade de se tratar do império perdido.

Mas há pelo menos outras 15 teorias que localizam Atlântida em diferentes partes do planeta. Entre elas, na Sardenha (Itália), na ilha dos Açores (costa oeste africana), nos Andes (América do Sul), na Indonésia (Ásia) e em Santorini (Grécia). Mais recentemente, imagens de satélite revelaram, na região da Andaluzia (Espanha), duas estruturas retangulares rodeadas por anéis de terra. “Esse é o único lugar que se assemelha realmente ao que está nos escritos do Platão”, disse à BBC o pesquisador alemão Rainer Kuhene.

Uma ilha sem fantasia

O que seria de Atlântida se ela existisse hoje?

A Atlântida descrita por Platão era uma grande ilha, “maior que a Líbia e a Ásia juntas”, com o formato circular, lembrando um imenso estádio de futebol. Sua capital ficava bem no meio de um conjunto de círculos concêntricos de terra e canais. Supondo que essa ilha realmente tenha existido, suas condições favoráveis – com água, terra fértil, metais preciosos e recursos naturais abundantes – a teriam provavelmente transformado numa potência nos dias de hoje. Só de pensar nessa hipótese, ela causa arrepios. “Parece-me aterradora a idéia da sobrevivência política de Atlântida. Ela teria imposto ao resto do mundo seu regime ditatorial de castas, em que uma elite dirigente se coloca acima de todas as leis”, diz o arqueólogo Álvaro Allegrette, professor da PUC-SP. “Por ser hipoteticamente muito mais antiga, estaria já bem mais desenvolvida quando florescesse a civilização grega ou romana e poderia se impor sobre esses povos.”

Eu acredito!

“Apesar de ser um cético, acredito que Atlântida possa ter existido. Fiquei fascinado por essa civilização desde a primeira vez que ouvi falar dela, num gibi do Tio Patinhas. A tecnologia atual está rastreando melhor o nosso planeta e, a qualquer momento, uma descoberta arqueológica pode revelar novidades sobre os atlantes. Mas só a possibilidade de Atlântida ter existido já é um fenômeno psicoemocional que tem a força do mito. Está no nosso (in)consciente coletivo e influencia nosso modo de ver o mundo.”

Marcelo Musarra, publicitário e jornalista