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Querem derrubar Lula?

Um certo Grupo Rio estaria tramando a queda do presidente. As reuniões para traçar a estratégia .

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 18h27 - Publicado em 30 set 2005, 22h00

Maurício Oliveira

TEORIA – Campanha difamatória contra Lula

OBJETIVO – Desestabilizar o governo e forçar a saída do presidente

No início de junho, circulou pela internet um e-mail apócrifo relatando a atuação de um certo Grupo Rio, que estaria tramando um golpe de Estado contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O nome do grupo não é uma referência à Cidade Maravilhosa, mas sim à rua Rio de Janeiro, em Higienópolis, bairro de classe média alta de São Paulo onde vive o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. De acordo com o e-mail, as reuniões do grupo ocorreriam no apartamento de FHC e contariam com a presença não apenas de políticos “neoliberais”, mas também de latifundiários, empresários da grande imprensa e, claro, agentes da CIA, o serviço americano de inteligência – afinal, eles são presença obrigatória em qualquer boa teoria conspiratória.

Em vez de recorrer à força das armas, como nos golpes de Estado tradicionalmente executados na América Latina, o Grupo Rio teria optado por um caminho bem mais sutil: uma campanha de difamação contra o Partido dos Trabalhadores (PT) para desestabilizar o governo e tornar insustentável a permanência de Lula no poder. O primeiro passo da estratégia teria sido “corroer a popularidade” da prefeita Marta Suplicy, de São Paulo, para deixar o terreno preparado para a eleição de José Serra.

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Embora seja assinado por três pessoas que se identificam como membros de um grupo chamado Jornalistas Independentes do Brasil (Jibra), supostamente sediado em Londres, o e-mail é, na prática, de autoria desconhecida, já que ninguém jamais ouviu falar de Chico Nader, Morgana White e Alberto Salvador e muito menos de tal grupo. A única referência na internet diz respeito a Morgana White, mas como autora de um livro em espanhol chamado Nombres Mágicos para Tu Bebé – pela disparidade entre as duas atividades, tudo indica não se tratar da mesma pessoa.

Para dar credibilidade à narrativa, o texto usa um estilo próximo do jornalístico, citando supostas informações secretas. Diz, por exemplo, que o primeiro encontro oficial do Grupo Rio contou com 13 participantes e que no segundo já eram 19, incluindo um americano nem um pouco discreto, a ponto de ter chegado à reunião em um carro do consulado dos Estados Unidos. “Depois do encontro, vários seguiram para uma casa de prazeres eróticos na avenida dos Bandeirantes, nas imediações do aeroporto de Congonhas”, acrescenta o e-mail. Outra passagem revela que FHC costuma colocar apelidos em seus desafetos. José Sarney seria o “Morsa”; Itamar Franco, o “Costinha; e Ciro Gomes, o “Parasita”. Nessa reunião, FHC teria dito aos demais conspiradores: “É preciso paciência para desequilibrar; aos poucos, arrancar cada dedinho do pé do sátiro”.

Um segundo e-mail assinado pelo grupo, datado de 20 de julho, comenta a repercussão do texto anterior e denuncia uma suposta agressão sofrida por Morgana White em Londres. Dois homens a teriam atacado com socos e pontapés, mas não a roubaram. “E os agressores fizeram questão de falar português durante o espancamento”, ressaltaram os autores, antes de atribuir a agressão a represálias por parte do Grupo Rio.

O espaço dado pela mídia às denúncias de Roberto Jefferson – “o réu que mais acusa neste planeta”, segundo o e-mail – seria parte do plano de desacreditar o governo Lula, que estaria recebendo da imprensa um tratamento bem diferente do que recebia seu antecessor. “Os escândalos da era FHC foram sempre devidamente varridos para debaixo do tapete. As denúncias de fraudes do caso Sivam foram abafadas pelo governo e pelos barões da imprensa”, afirma o texto. “Como sempre, a imprensa diminuiu a importância dos fatos, na mesma medida em que exagera qualquer irregularidade no governo Lula.”

Os autores do e-mail só não explicam como o Grupo Rio convenceu o então tesoureiro do PT, Delúbio Soares, a contrair empréstimos milionários sem registrá-los oficialmente, e o secretário-geral do partido, Sílvio Pereira, a aceitar uma Land Rover avaliada em 80 mil reais como presente de um empreiteiro baiano. Teriam eles aderido à conspiração?

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