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Rastafarianismo – Vibrações positivas

Os rastafáris juram que o imperador etíope Hailé Selassié era o Todo-Poderoso. Em sua homenagem, fumam maconha. Mas nem todos ouvem reggae

Por 18 fev 2011, 22h00 | Atualizado em 31 out 2016, 18h36
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Texto Álvaro Oppermann

No dia 1º de março de 1958, um grupo de 300 homens, mulheres e crianças se reuniu num centro comunitário do bairro miserável de Back-O-Wall, em Kingston, na Jamaica. Na manhã seguinte, o jornal The Star registrou o acontecimento em tom alarmista: qualquer que fosse a razão do encontro, não poderia ser boa coisa. Os moradores daquela vizinhança tinham fama de malandros – dizia-se que viviam de bicos e pequenos furtos.

A reunião, na verdade, foi a 1ª Convenção Universal do Rastafarianismo. À noite, os participantes dançaram ao ritmo de tambores, fumaram maconha e se aqueceram ao lado de fogueiras feitas com pneus velhos. Acima de tudo, entoaram hinos ao imperador Hailé Selassié (1892-1975), da Etiópia, que estava no poder desde 1930. Selassié, para os rastafáris, tinha outra identidade: ele era ninguém menos que Deus (ou Jah, corruptela de Jeová, o Deus bíblico). Seria a 3ª encarnação do Todo-Poderoso, depois de Moisés e do profeta Elias.

Se a divindade do imperador etíope parecia uma excentricidade, os demais artigos de fé rastafári primavam pelo caráter polêmico. Eles advogavam a superioridade da raça negra e conclamavam os jamaicanos a voltar para a Etiópia – a Terra Prometida. A Bíblia deveria ser lida com cuidado, pois muitos trechos teriam sido deturpados para manter os negros na servidão. O uso da maconha, por outro lado, estaria corretamente registrado – e liberado! – nas Escrituras: “Fazeis brotar a relva para o gado, e plantas úteis para os homens” (Salmos, 103, 14). E o reggae… Bem, por mais estranho que isso possa parecer, o reggae não era unanimidade. Apesar da explosão do gênero a partir de 1975, quando Bob Marley lançou o álbum Natty Dread, os mais linha-dura torciam o nariz para ele. A música genuinamente rastafári, segundo os “ortodoxos”, seria o nyabingi – um ritmo africano quase desconhecido.

Certa vez, o próprio imperador Selassié negou ser Deus. Numa visita à Jamaica, em 1966, desapontou seus devotos declarando-se um reles mortal, e convidou os jamaicanos a abraçarem a Igreja Cristã Ortodoxa Etíope. Não adiantou. Segundo as pesquisas mais recentes, aproximadamente 10% dos habitantes da ilha ainda se declaram rastafáris.

Tribo de Jah Comunidade alternativa fundada por um maluco popularizou o movimento O rastafarianismo deve sua popularidade não apenas a Bob Marley mas também ao viajante e aventureiro jamaicano Leonard Howell (1896-1981). Em 1930, motivado pela coroação de Hailé Selassié na Etiópia, ele escreveu um livreto chamado A Chave Prometida. Na obra, lembrava seu povo da profecia feita pelo ativista Marcus Garvey (1887-1940), que previu a vinda de um Messias negro sob a forma de rei africano. Em 1953, Howell fundou uma comunidade alternativa. Protegidos por cães ferozes e muros altos, seus integrantes praticavam a religião rastafári. Fumavam maconha até no altar, durante os cultos. E a poligamia era instituída. A polícia fechou a comunidade no ano seguinte, prendendo 163 membros. Depois disso, Howell pirou. Negou a divindade de Selassié. Na verdade, seria ele – Leonard – o verdadeiro Deus. Internado num sanatório, morreu esquecido, em 1981.

Para saber mais

• The Rastafarians: Sounds of Cultural Dissonance (em inglês)
Leonard E. Barrett, Beacon, 1997.

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