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Repúblicas da banana

Ditaduras, ocupações e até um terremoto no Haiti fizeram da América Central a região mais instável e miserável do lado de cá do Atlântico. Entenda o que uma longilínea fruta tem a ver com isso

Por Da Redação - Atualizado em 31 out 2016, 18h23 - Publicado em 24 mar 2010, 22h00

Karin Hueck e Mauricio Horta

Um transatlântico de 300 metros se aproxima de uma praia tropical. Seus 3 400 passageiros estão há 5 dias viajando e dispõem de dezenas de atrações a bordo, de campos de minigolfe e paredes de escalada a shows de cabaré. Ainda assim, boa parte dos turistas resolve sair do navio e conhecer a praia de areia branca. Junto com eles, descem garçons e funcionários para abastecê-los com drinques e petiscos durante o banho de sol. Seria uma cena normal, apenas mais um passeio turístico no Caribe, se a praia paradisíaca não fosse Lavadee, o país onde ela se encontra o Haiti, e a data do passeio 17 de janeiro de 2010 – 5 dias depois de um terremoto matar 200 mil pessoas e devastar boa parte da pequena nação. No tremor de 7 graus, 250 mil casas foram destruídas, assim como quase todos os prédios do governo e os dois únicos postos de bombeiros do país. Durante semanas, o mundo se entristeceu com a situação precária do Haiti. Mas a notícia realmente triste é que o país não é uma aberração – é apenas o ponto mais baixo de uma região inteira problemática, a América Central. Ocupações externas, golpes de Estado, ditaduras: quase todos os países da região passaram por isso. E o que pouca gente sabe é que todo esse caos pode ter começado com uma inofensiva frutinha…

 

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A primeira vez que os americanos viram uma banana foi em 1876, na Exposição Centenária da Filadélfia. Na ocasião, a fruta não chamou muita atenção – até porque estava exposta ao lado do telefone de Graham Bell. Mas, 15 anos depois, a banana já tinha conquistado o coração dos americanos e era servida em restaurantes de Nova York. Fazia muito sucesso porque era prática: sua casca é uma embalagem natural que dispensa lavagem. Tinha o potencial de virar o Big Mac das frutas. E, de fato, logo virou: na década de 1930, a banana já era a fruta mais barata e consumida nos EUA. Mas como um produto tropical extremamente perecível podia ser abundante nos EUA? Graças a uma das primeiras multinacionais do mundo: a United Fruit Company, que, além de inventar um método de distribuição de frutas em larga escala, contribuiu para bagunçar a América Central.

Damn it! We have bananas
Nascida na véspera do século 20, a UFC controlou a produção, o transporte e o marketing da banana, com eficiência de relógio e agressividade para eliminar qualquer rival. O lugar escolhido para plantar a fruta foi a desabitada América Central, que oferecia o pacote completo: governos frágeis e terrenos tropicais disponíveis para latifúndios. Foi lá que a UFC deitou e rolou nos 35 anos seguintes. Nesse período, os EUA fizeram 28 operações militares na região, inclusive no Haiti. “O maior objetivo dessas incursões foi tornar a América Central segura para as bananas”, escreve Dan Koeppel, escritor americano, autor de Banana: The Fate of the Fruit That Changed the World.

O método que a UFC usava para dominar a região era simples. Com o intuito de modernizar os países, a empresa construía ferrovias e portos, e criava empregos locais. Aí vinha o pulo do gato: muitas vezes os governos não tinham dinheiro para pagar pelas regalias. Em troca, acabavam cedendo imensas extensões de terras férteis para a United Fruit Company plantar bananas, quase livre de impostos. Para que acidentes naturais ou greves não interrompessem o fluxo contínuo de frutas para os EUA, o jeito foi expandir o sistema para vários países ao mesmo tempo. Assim, a UFC exportou o modelo “ferrovias-em-troca-de-terra”, inaugurado na Costa Rica, para Panamá, Guatemala, Honduras e Nicarágua. Para os governos, o toma lá dá cá não soava como o fim da soberania, mas como a grande chance de modernização.

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Banana pra dar e vender
O problema só ficou óbvio quando a UFC ficou maior do que os países onde atuava. “Não é bom para um país depender da exportação de um só produto”, diz Marcelo Bucheli, professor de história da Universidade de Illinois, EUA. “E os países centro-americanos não só exportavam um ou dois produtos mas também eram controlados por uma ou duas companhias e exportavam para um ou dois países.” Em 1930, a UFC era o maior empregador da região. Subornando governos, ditava leis trabalhistas, sonegava impostos e não permitia que pequenos produtores surgissem. Assim, a UFC pariu as “Repúblicas da Banana”.

O Haiti recebeu indiretamente os tentáculos da UFC, por meio de uma de suas afiliadas, a Standard Fruit and Steamship Company, que se instalou por lá. Mas o que realmente atrasou a vida da nação foram as migrações em massa atraídas pela agricultura. O Haiti não oferecia infraestrutura e nem postos de trabalho para a população (aliás, nunca ofereceu) e 300 mil haitianos deixaram o país para trabalhar nas plantações vizinhas. Para piorar, na mesma época, uma intervenção americana ocupava o país e definia como deveria ser governado. Os líderes locais, em vez de elaborar um projeto para desenvolver a nação, lutavam entre si pelo poder – preferiam intervenções externas à possibilidade de ficar longe do governo.

A coisa desandou de vez quando, ao fim da 2ª Guerra Mundial, o mundo entrou na Guerra Fria. Em 1954, a CIA e a UFC derrubaram um governo eleito da Guatemala e instauraram uma ditadura. Começaram assim 4 décadas de guerrilhas de esquerda e ditaduras de direita na região, que mataram centenas de milhares de pessoas – 200 mil só de guatemaltecos. No Haiti, a instabilidade chegou ao seu auge: em dois anos, 5 presidentes se revezaram no poder. Para assegurar a influência capitalista na região, os EUA apoiaram o golpe político da família Duvalier (o maléfico Papa Doc e seu filho). Sessenta mil pessoas foram assassinadas durante sua ditadura. O pequeno país caribenho continuou sem perspectivas de governo sério – e assim permaneceu até os dias de hoje.

Mas o que a caótica América Central de hoje tem a ver com a UFC do começo do século? Os presidentes podem não ser mais (todos) ditadores malucos, mas o modelo econômico continua. “Os países centro-americanos enfatizaram a exportação agrícola mesmo depois da democracia. O Estado não criou novas indústrias nem se diversificou”, diz Steve Striffler, professor de antropologia da Universidade de Nova Orleans, nos EUA. Claro que há exceções, como a Costa Rica, que, mesmo depois de ocupada pela UFC, hoje tem o IDH mais alto do que o do Brasil. Ainda assim, a América Latina é responsável por 80% da produção mundial de banana.

O Haiti vive a pior situação do continente. O país continua plantando bananas, mas, apesar de ser um país essencialmente agrário, 50% dos alimentos para a população têm de ser importados. Isso porque o Haiti perde anualmente 36 mil toneladas de solo fértil devido à erosão. “A cada dia, o país acorda com um pedaço a menos”, diz Lúcia Skromov, do Comitê pró-Haiti. 96% da vegetação original foi devastada durante os períodos de instabilidade política e exploração da agricultura. E é por isso que o país estava tão fragilizado quando o terremoto sacudiu Porto Príncipe: falta madeira para a construção, a maior parte era feita de barro ou de galhos. Ou seja, além do caos político e econômico, o Haiti caminha lentamente para virar uma espécie de ilha de Páscoa – que, de tão devastada por seus habitantes, acabou matando todos eles de fome. Se isso acontecer, nada mais vai nascer por lá. Nem mesmo as malditas bananas.

 

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Uma história de fracasso
Entre tantos golpes e revoluções, o Haiti não parou para se desenvolver

1804
Uma revolta de escravos liberta o Haiti da colonização. Em troca, a França pede uma indenização que consome 80% do orçamento haitiano por quase 100 anos. Ou seja, o país já nasce endividado.

1915
Empresas americanas dominam a América Central para plantar bananas. Os EUA ocupam o Haiti e garantem a hegemonia dos mares para que ninguém domine o canal do Panamá na 1ª Guerra Mundial.

1957
Entre 1956 e 1957, 5 presidentes se revezam no governo do Haiti. O resultado é o golpe de François Duvalier, o Papa Doc, ditador que ficou 14 anos no poder e mandou matar 60 mil inimigos.

1990
As primeiras eleições democráticas são organizadas. O vencedor é Jean-Bertrand Aristide, que, já em 1991, é deposto por um golpe. Em 1994, EUA e ONU ocupam novamente o Haiti.

2004
O Brasil resolve liderar a missão da ONU no Haiti. Altruísmo? Não exatamente. O governo brasileiro quer provar que está pronto para assumir uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU.

2010
No dia 12 de janeiro, um terremoto destrói a capital, Porto Príncipe. A sede do governo, ministérios e 200 mil vidas vão parar debaixo dos escombros. O Haiti terá de se reerguer das ruínas e no meio de uma crise ambiental.

 

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A maldição da banana
As plantações deixaram um rastro de pobreza nos países que as acolheram. Veja a porcentagem da população abaixo da linha da pobreza na América Central.

NICARÁGUA – 48%

GUATEMALA – 56%

HAITI – 80%

EL SALVADOR – 30,6%

HONDURAS – 50,7%

 

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Para saber mais

Banana: The Fate of the Fruit That Changed the World
Dan Koeppel, Hudson Street Press, 2007.

The History of Haiti
Steeve Coupeau, Greenwood, 2007.

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