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Romanos operavam “usinas de reciclagem” na cidade de Pompeia

Pedaços de cerâmica e tijolos velhos eram usados de recheio para erguer paredes de novas construções, evitando o acúmulo de entulho.

Por Bruno Vaiano - 28 abr 2020, 15h08

As cidades romanas de Pompeia e Herculano foram soterradas por uma espessa camada de lama e cinzas durante a erupção do vulcão Vesúvio, no ano 79 a.C. A tragédia congelou o cotidiano dos cidadãos do Império por dois milênios: escavações iniciadas século 18 revelaram milhares de objetos e edifícios em excelente estado de conservação, que vão de um templo dedicado a Apolo ao célebre bordel de Lupinare – em cujos muros encontra-se a pichação “Em 15 de junho, Hermeros aqui deu uma com Phileterus e Caphisus”.

Sexo é legal, mas o arqueólogo americano Allison Emmerson, parte de uma equipe que conduz investigações em Pompeia rotineiramente, ficou intrigado com algo mais banal: enormes pilhas de sucata acumuladas do lado de fora da muralha que cerca o norte da cidade-fantasma. Não há nada de novo no lixão em si; ele é um velho conhecido dos pesquisadores. A hipótese mais aceita afirma que o grosso do material consistia em destroços descartados após um terremoto que ocorreu 17 anos antes do Vesúvio se indispor de vez com a vizinhança. 

Emmerson, que é professor da Universidade Tulane, nos EUA, não comprou essa hipótese. Afinal, Pompeia cresceu além dos muros, e o lugar em que as pilhas de lixo foram encontradas não era um terreno baldio. Havia casas de alvenaria ali, como num bairro normal. Se aquele entulho todo de fato tivesse sido rejeitado, ele estaria em um lugar bem mais isolado. Além disso, o arqueólogo analisou amostras de solo localizadas logo abaixo dos cacarecos e percebeu que não havia material orgânico decomposto – só resíduos secos, como pedaços de tijolo, cacos de cerâmica, telhas etc.

Esse mesmo solo seco e arenoso podia ser encontrado em amostras extraídas do interior das paredes das casas. Muitas delas tiveram suas paredes erguidas com uma porção de pedaços de tijolo e telha – que então eram cobertos com uma espécie de massa corrida para dar acabamento e disfarçar os materiais reaproveitados. Sinal de que os romanos de Pompeia separavam o entulho para utilizá-lo novamente na construção civil.

“Na maior parte das vezes, nós não nos importamos com o que acontece com nosso lixo, desde que ele seja levado para longe”, disse Emmerson ao jornal britânico Guardian. “O que descobrimos em Pompeia é uma prioridade inteiramente diferente, em que o lixo estava sendo coletado e separado para reciclagem. Eles viviam muito mais próximos do lixo do que a maioria de nós consideraria aceitável.”

 

 

 

 

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