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Suzane von Richthofen: como ela pôde acontecer?

Como a ciência pode ajudar a entender o que passou pela cabeça de Suzane e dos irmãos Cravinhos nos dias que antecederam a morte do casal?

Como a ciência explica o comportamento e as motivações de jovens como Suzane von Richthofen, capazes de praticar crimes hediondos com frieza? O que isso diz da geração de brasileiros que está vindo por aí? (Ou por outra: você tem certeza de que conhece seus filhos?)

A história soa familiar, lugar- comum nas novelas das oito e sucesso garantido nos filmes românticos. Os personagens você também conhece: jovem rica, bonita e inteligente se apaixona por garotão desencanado, nem tão bem de vida, nem tão bem- educado, mas com aquele charme que só a malandragem consegue proporcionar. Em última análise, é o mesmo enredo do filme infantil A Dama e o Vagabundo, da Disney, que ilustra a atração entre dois mundos, o comportado e o irreverente, com promessa de final feliz. Uma profecia perigosa, já que na vida real os tons pastéis são geralmente substituídos por duras realidades. A dama perdeu a inocência, o vagabundo estava realmente mal-intencionado e a morte não foi uma prova de amor, mas a busca da liberdade patrocinada pelo dinheiro fácil. Foi o que aconteceu com Suzane von Richthofen, 19 anos, estudante de Direito da Pontifícia Universidade Católica (PUC), em São Paulo, filha de pais intelectuais e herdeira de um patrimônio respeitável.

Mas se o roteiro dessa história tem inúmeras semelhanças com o de outras tantas aventuras vividas por jovens apaixonadas, houve um momento em que ela se desviou e prenunciou o desfecho tristíssimo que teria. Foi quando os planos amorosos de Suzane e Daniel Cravinhos de Paula e Silva, 21 anos, passaram a incluir a morte dos pais dela. Eles realizaram seu intento, o que fizeram no dia 31 de outubro, por volta da meia-noite, com a ajuda de Cristian Cravinhos de Paula e Silva, 26 anos, irmão de Daniel. Com barras de ferro previamente reforçadas com pedaços de madeira, eles espancaram Marísia e Manfred Albert von Richthofen até a morte. “Esse crime assusta porque rompe com qualquer ética moral, cultural e familiar. Sob qualquer ponto de vista, o assassinato do pai ou da mãe (parricídio e matricídio) são considerados bizarros, anormais em todas as épocas, etnias e sociedades”, afirma Guido Palomba, psiquiatra forense, autor do livro Loucura e Crime.

Como a ciência pode nos ajudar a entender o que passou pela cabeça de Suzane e dos irmãos Cravinhos nesses dias que antecederam a morte do casal?

No caso de Suzane, o crime violento não foi um impulso, mas o último capítulo de uma tragédia crescente, que seguiu um ciclo vicioso: quanto mais os pais se opunham ao namoro, mais o jovem casal se unia e mais insistentes se tornavam as ameaças paternas para separá-los. Entre as várias perguntas que o fato sugere, uma remexe com o estômago de qualquer um: por que assassinar cruelmente e não, simplesmente, ir embora? O que fez com que esses dois jovens não pudessem encontrar outra forma de enfrentar a oposição ao namoro e incluíram a violência entre o rol de suas soluções possíveis? Até agora, os principais envolvidos não ofereceram resposta para isso. Suzane alega estar apaixonada, a ponto de afirmar, durante interrogatório policial, que Daniel se transformara em uma obsessão. Declarações que, ao lado das informações sobre o consumo de maconha, entretêm a mídia e a opinião pública, mas pouco acrescentam para explicar o caso.

Antes disso, elas caem como uma luva para uma alegação de crime passional cometido sob efeito de entorpecente, que parece ser a estratégia da defesa de Suzane para conseguir uma pena mais branda e tratamento mais simpático da imprensa. Sem defesa e sem estratégia, os irmãos Daniel e Cristian já admitiram que pensavam na herança.

Porém, a explicação da ciência segue rumo diferente.

No limite

Para entender a motivação de Suzane, um caminho possível é identificar o rastro dos fatores de risco aos quais ela esteve exposta e como ela se comportou frente a cada um deles. A explosão da violência nesses casos pode ser sintoma de psicopatia: um distúrbio de personalidade que decorre de um problema neurológico congênito ou de um trauma. O comportamento anti-social e os problemas de relacionamento com a família ou com amigos são, geralmente, indicadores desse distúrbio.

A exposição a um desses fatores não leva à violência, necessariamente. Mas oferecem um ponto de partida para entendermos as reações dessa natureza. O médico Francisco Assumpção Júnior, da unidade psiquiátrica do Hospital das Clínicas, em São Paulo, afirma que para entender a mente humana é preciso decifrar a seguinte fórmula: fatores genéticos e funcionais + investimento sociocultural = psiquismo individual. Ou seja, para explicar quem somos é preciso juntar aquilo que recebemos de herança com o que aprendemos durante nossa vida. “Essa conta representa a relação entre os aspectos genéticos e congênitos de cada indivíduo e aquilo com que interagimos no meio em que vivemos. Da soma resulta a maneira como interpretamos o mundo e a nossa estrutura psicológica”, diz.

Para Ilana Casoy, pesquisadora da mente criminosa e autora do livro Serial Killer, por trás de cada comportamento violento existe uma trama multifacetada, que mistura aspectos sociais, psicológicos e biológicos. “Há inúmeras combinações de elementos que podem desencadear a formação da personalidade criminosa”, diz Ilana. Mas, afinal, quais desses fatores contribuíram para que Suzane despertasse para a violência e cometesse o crime?

Para o futuro de Suzane, a resposta é especialmente importante, uma vez que o tipo da pena e sua duração dependem da sanidade mental do infrator. Se for considerada incapaz de compreender o caráter ilícito do seu ato, ela estará isenta da condenação, como diz o artigo 26 do Código Penal.

Só um laudo específico e detalhado, que deve incluir exames laboratoriais, psicológicos e psiquiátricos, vai determinar o estado neurológico de Suzane. Por enquanto, os especialistas traçam hipóteses. O psiquiatra Guido Palomba, baseado nos 10 mil crimes que acompanhou em 28 anos de carreira, aposta na predominância biológica para explicar o fato. Em sua opinião, perversidade extrema seria sinal de um desvio de conduta. “Dos 35 casos de parricídios e matricídios que acompanhei, apenas um dos acusados foi considerado normal. Os outros sofriam de doenças mentais ou estavam na fronteira da psicopatia”, afirma.

Fronteiriços ou limítrofes são os termos técnicos utilizados para definir aquelas pessoas que circulam entre a doença mental e a normalidade, sem se encaixar integralmente em nenhuma das classificações. Guido não examinou Suzane, mas acredita que ela possua muitas das características necessárias para pertencer a esse grupo. Para ele, Suzane demonstra um transtorno de personalidade do tipo anti-social, desvio também conhecido como sociopatia ou condutopatia. “Crimes cometidos por gente assim sempre chocam a opinião pública. Pois elas são pessoas que aparentemente se comportam como todos nós, mas são capazes de cometer atrocidades, sem temer punições ou sentir culpa”, diz.

Os limítrofes não chegam nem perto da imagem de doente mental típica da literatura e do cinema. Eles não deixam pistas evidentes do seu desvio. “Mesmo depois de um contato duradouro, poucas pessoas conseguem identificar o lado obscuro do sociopata”, diz o neurologista Renato Sabbatini, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). A informação une duas partes quase contraditórias deste quebra-cabeça: a imagem de menina frágil e discreta de Suzane e a frieza com a qual planejou a morte dos pais.

Sob a aparência saudável, os sociopatas contam com capacidade intelectual normal ou acima da média, percepção aguda e linha de pensamento sem alterações. A parte doentia, no entanto, demonstra um desprezo pelas obrigações sociais, nenhum sentimento de empatia pelas outras pessoas, dificuldade em controlar impulsos e um amor-próprio exacerbado. Ou seja, transtornos sociopatas podem ser identificados na insensibilidade e na falta de afetividade. “O problema está nos vínculos afetivos superficiais e na falta de conexão entre o sentir, o pensar e o agir. O sujeito entende o que é ilícito, mas a ausência de travas sentimentais permite que ele cometa crimes sem remorso ou arrependimento”, afirma Guido. Essa insensibilidade diante da culpa foi testada, submetendo sociopatas criminosos a cenas estressantes e medindo sua resposta fisiológica.

Constatou-se que, diferentemente da resposta-padrão, os portadores desse desvio não apresentam alterações de batimentos cardíacos, freqüência respiratória ou sudorese. “O experimento não conclui que eles não tenham sentimentos, mas que são indiferentes diante da emoção alheia”, diz.

A origem da doença ainda é um mistério. Guido Palomba acredita que a causa pode ser neurológica: uma assimetria entre os hemisférios cerebrais ou uma falha entre os impulsos bioquímicos dos neurônios. O que é certo é que sua incidência é mais freqüente do que se imagina: estima-se que uma em cada 100 pessoas apresente alguma graduação desse desvio, ainda que apenas uma em 1 milhão possa ser considerada extremamente violenta. “Um estudo epidemiológico indicou que 47% dos sociopatas têm antecedentes criminais. O restante manifesta seu desvio na vida profissional, conjugal ou familiar”, diz Renato Sabbatini. O especialista da Unicamp afirma que, apesar de não descartar a possibilidade de Suzane sofrer de desvio de comportamento, ele acredita que a tragédia dos von Richthofen pode ser explicada de outra maneira.

Sem limites

Se os números mostram o quanto são raras as doenças que levam ao comportamento agressivo extremo, os neurocientistas apresentam uma teoria estatisticamente muito mais provável para o desencadeamento da violência em pessoas aparentemente normais. Segundo Renato, cerca de dois terços do aprendizado humano derivam da interação social. “O cérebro nada mais é que um processador de dados que, por meio de comparações e identificações, assimila e adapta as atitudes repetidas no meio em que vivemos”, afirma. Ou seja, uma cena vista com muita frequência, desde pequeno, leva a concluir que isso é certo, independentemente de a cena ser seu pai estuprando a vizinha ou sua mãe cuidando de crianças carentes.

Renato explica, no entanto, que esse arcabouço de memória é colocado em xeque cada vez que somos confrontados com uma situação nova, desconfortável ou potencialmente perigosa. “Todos nós temos a violência entre o rol de respostas disponíveis em nosso banco de dados. Faz parte do nosso instinto de autopreservação. Diante de uma ofensa acionamos uma luta entre os estímulos que nos levam à agressão e as travas que detêm esses impulsos. São travas morais, éticas, afetivas e racionais. O importante é saber qual estímulo é capaz de ativar esse comportamento”, diz. A educação moral e os valores em que acreditamos podem coneresses rompantes. A afetividade também.

A pressão do grupo social em que o indivíduo vive é outro fator importante para desempatar essa guerra interna de nervos. A necessidade de aceitação coletiva é muito mais efetiva nas decisões individuais do que imaginamos e pode, em situações limite, predominar sobre qualquer mecanismo cerebral. No meio de uma crise estamos mais suscetíveis às influências externas. Em busca de conforto ou suporte, procuramos no grupo os aliados que nos sirvam de apoio. A teoria se apóia na necessidade primeva dos seres humanos de serem aceitos pelos outros e se sentirem pertencentes a um grupo. Isso é tão essencial quanto alimentar-se, matar a sede ou dormir.

Para Renato Sabbatini, o que é bom, ruim, pertinente, abusivo, permitido ou proibido se define no seio do organismo coletivo ao qual pertencemos. “Inicialmente, Suzane deve ter vivido um conflito de pressões sociais: seus pais de um lado, o namorado e o irmão dele de outro. Provavelmente, ela reagiu de acordo com as normas do grupo que assumiu um papel mais importante em sua vida”, diz Renato.

Nessa batalha entre o impulso violento e a trava social, vence o lado que tiver mais força e influência em nossas vidas. Quando prevalece o impulso, o corpo se prepara para o ataque, que nem sempre é instantâneo, irracional. Transpostas as travas, o monstro está à solta e pode aguardar à espreita, entre férulas e sombras, o momento do bote.

Gaiola de ouro

Se conseguirmos entender que Suzane acreditava estar em uma situação limite, sob extrema pressão, precisamos nos perguntar: diante da mesma situação, expostos às mesmas forças, sob os efeitos das mesmas variáveis, a que recorremos para não agirmos como ela? A questão é saber quais as travas que não funcionaram para impedir Suzane. O psiquiatra e educador Içami Tiba, autor do livro Quem Ama, Cuida!, vê na educação que caracteriza jovens como Suzane a principal vilã dessa tragédia familiar. Ele vê em Suzane alguns aspectos exemplares dessa geração.

“Provavelmente, ela cresceu em uma gaiola de ouro, que a protegeu demasiadamente do mundo externo, fragilizando sua autoconfiança e fazendo-a sentir-se perdida quando conquistou alguma liberdade”, diz Içami. Entre as conseqüências desse quadro, o psiquiatra cita o envolvimento com drogas, a escolha do namorado e a condução de um comportamento familiar nada saudável. “Ela abusou da birra, uma certa teimosia infantil, mas reagiu com a agressividade de um adulto quando foi contrariada”, afirma.

Içami Tiba não acredita que Suzane tenha qualquer desvio de personalidade. “Ela me parece normalíssima, agiu de maneira seqüencial e planejada, com uma lógica perfeita. Outros jovens, sob estímulos iguais, da mesma idade e classe social, poderiam efetivamente ter atitudes semelhantes”, diz.

Especialistas discordam sobre qual aspecto teria impulsionado tal crime. No entanto, eles são unânimes em concordar que, durante o planejamento e a execução do homicídio, Suzane estava sob o efeito de um coquetel diversificado, preparado com traços de personalidade, bagagem cultural/familiar, condição psicológica e influência social. Paulo Argarate Vasques, psiquiatra responsável pelo laudo de Francisco de Assis Pereira, o “Maníaco do Parque”, afirma que não existem crimes de fundo unicamente psiquiátrico ou social. “Há sempre um entrelaçamento desses elementos, mas em graduações diferentes.” Qual deles predominou? Como essa mistura pode ser compreendida: frieza, insanidade mental, paixão cega, ódio antigo? Difícil precisar. E é sobre isso que o júri e o laudo médico versarão.

Supremacia individual

Para Içami Tiba, o caso Suzane pode, ainda, ser compreendido como um emblema dramático que aponta para o vazio em que se meteu essa geração de adolescentes bem-alimentados, com acesso a boas escolas e a cultura, mas sem grandes aspirações além de sua própria satisfação. Suzane não está sozinha em suas ambições desmedidas e no uso da violência como solução para crises banais. Crimes realizados por jovens aparentemente normais que resultaram em mortes de familiares ou pessoas inocentes chocam a sociedade, mas não são nada raros. Só em outubro de 2002, mês em que os von Richthofen perderam a vida, Gustavo Napolitano, de 22 anos, outro jovem de classe média em São Paulo, matou a avó e a empregada a facadas. Em Porto Seguro, na Bahia, sincronicamente sete adolescentes, todos com idade entre 17 e 19 anos, cujo perfil social não difere muito nem do de Suzane nem do de Gustavo, espancaram um garçom até a morte, porque esse teria lhes pedido para deixar o bar, que estava prestes a fechar.

O fenômeno também não é novo. O sinal de alerta já havia soado em 1997, quando cinco rapazes incendiaram um índio pataxó que dormia em um ponto de ônibus, em Brasília. Todos esses crimes guardam trágicas semelhanças: foram motivados por razões aparentemente banais ou fúteis, cometidos com crueldade extrema e praticados por jovens com alto grau de escolaridade e boa situação financeira. Esse parece ser um choque ainda maior e a razão do mal-estar coletivo. A sociedade que já está se acostumando à violência do estilo Cidade de Deus, caracterizada por uma ruptura entre o “bem” (os proprietários) e o “mal” (os despossuídos), entre os pobres e os ricos, entre os que ainda têm alguma coisa a perder e aqueles que já nada enxergam à sua frente, se espanta ao ver que a violência cruzou a trincheira das classes sociais. “É comum as pessoas associarem a violência com a pobreza, a falta de oportunidades e a desigualdade social.

Mas quando acontece no seio da sua própria classe, entre aqueles que contam com o suporte da família e das instituições, a delinqüência se transforma em um escândalo sem explicação”, diz Sérgio Adorno, sociólogo e coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo.

Enquanto a explicação definitiva não vem, os números tratam de confirmar a democratização da delinqüência. Sérgio coordenou uma pesquisa sobre infrações cometidas por 6 mil adolescentes paulistanos, entre 12 e 18 anos. Nela, constatou o aumento da participação de jovens em contravenções violentas, normalmente brigas e roubos. O nível de escolaridade também cresceu. “Os números sugerem uma maior participação da classe média na delinqüência”, diz Sérgio. E, apesar de não haver uma justificativa formal para tudo isso, há boas suspeitas. “Essa violência é sintoma de uma sociedade que passa por transformações em suas raízes, como na família, na escola, nas relações humanas e na política. É um processo de desfigurar o passado para redefinir o presente, uma fase de questionar conceitos, socializar a incerteza”, diz o sociólogo. Como conseqüência, temos a sensação de anestesia moral, de indefinição entre o que é certo e o que é errado, de caos e guerra despersonalizada.

A autora do livro O Grito dos Drogados, Maria José Franklin Moreira, psiquiatra e coordenadora do setor de Saúde Mental da Criança, no Hospital da Unicamp, também chama a atenção para a origem afetiva da delinqüência. “Normalmente há um problema de orfandade psíquica. São adolescentes órfãos de pais vivos, que supriram as necessidades materiais dos filhos, mas não as emocionais, nem ofereceram modelos de comportamento consistentes para a criança. Por isso, ela cresce com prejuízos irreversíveis e não consegue constituir vínculos afetivos ”, diz.

Desenvolvimento emocional mal- conduzido e contexto social impregnado pela violência são determinantes para essa bomba social, mas será possível descartar um traço geracional comum nesses jovens?

“Essa juventude nasceu e cresceu numa sociedade pautada pelo consumo exacerbado, pela necessidade do ganho rápido e pela supremacia do prazer individual, acima de qualquer objetivo social ou coletivo. E isso produz e reproduz violência. A vida deixou de ser um valor inatacável para o jovem. O respeito ao outro passou a ser descartável, à medida que você satisfaz seus interesses pessoais”, diz Renato Sérgio de Lima, sociólogo do Seade – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados – e autor do livro Conflitos Sociais e Criminalidade Urbana.

A análise do sociólogo se une à maneira como o psiquiatra Francisco Assumpção avalia os jovens de hoje. “Em linhas gerais, trata-se de uma juventude sem utopias, sem ídolos, sem heróis ou ideais. E essas referências são importantíssimas na formação de paradigmas, acordos morais e valores pessoais, assim como no desenvolvimento da identificação social”, diz. Como conseqüência de todas essas ausências, a vida perde em significações, os jovens tendem a centrar seus objetivos na satisfação pessoal, restringindo suas ambições e sendo presa fácil do tédio ou da frustração. “O aumento da violência juvenil e do uso de drogas pode ser entendido como maneiras de preencher esse vazio”, diz Francisco.

Ele acredita que essa geração cresceu exercitando a impunidade com pais, professores, autoridades e, finalmente, com a sociedade, que reforça esse sentimento com exemplos diários de falta de punição.

Há também, nessa história toda, uma raiz educacional, que vem traçando uma cadeia de tentativas nem sempre bem-sucedidas, pautada na intenção de dar aos filhos uma educação melhor do que a recebida. O resultado é o que o psiquiatra Içami Tiba ajuda a mostrar. Nossos avós, que tiveram seus filhos nos anos 40, foram autoritários, adestraram e não educaram, resultando numa geração de jovens sufocados. Quando esses tiveram seus filhos, entre 1970 e 1980, na intenção de acertar, foram excessivamente solícitos, não educaram, não impuseram limites, desembocando em uma juventude que não conhece o “não”, que não respeita o espaço e o direito alheios. Esses, se já têm filhos, estão criando outra geração de crianças tiranas. “Os ‘folgados’ são uma geração do bem, mas do bem apenas individual, criados ao sabor dos impulsos, o que realmente dificulta a criação de vínculos e a sociabilização. Costumam ter auto-estima baixa, perseguem o prazer pessoal e não suportam a frustração”, diz Içami.

Nessa educação, conceitos de gratidão, reciprocidade, disciplina, cidadania e ética ficaram faltando. Porém, não se pode olhar para esses adolescentes como anomalias em um mundo harmônico. Ao contrário, eles são apenas mais uma peça que se encaixa perfeitamente em um contexto de poucos valores humanos – cuja responsabilidade é de todos nós.

A essa altura, você deve estar se perguntando, como muitos pais nos últimos meses, se criou em seu próprio lar seu mais provável inimigo. A questão não tem uma resposta simples e única. “Adolescentes com relacionamento familiar irregular, sujeitos a crises, baixa auto-estima, que buscam constantemente o enfrentamento sem negociação e que reagem com violência exagerada quando contrariados merecem atenção”, diz Içami.

No entanto, para Eunice Nakamura, socióloga e antropóloga da USP, pesquisadora da cultura contemporânea, não há traço geracional para a violência de Suzane. “Para a antropologia, não se pode fazer uma análise de um grupo complexo baseada em fatos isolados. Os mais recentes assassinatos cometidos por adolescentes não indicam uma crise geracional, são exceções. Essas atitudes não definem a juventude”, diz.

Isso não quer dizer que não haja uma tensão no ar. Eunice concorda que a fraca noção de limite dessa geração agrava a histórica guerra de poder entre pais e filhos. Mas entende que só o hábito e a prática de negociar e de estabelecer uma comunicação democrática pode impedir que a violência seja vista como uma via possível de solução. “Quanto um dos lados assume uma postura autoritária, anula o outro, finaliza a troca e compromete a relação”, diz a entropólogo. Na opinião da antropóloga, para entendermos essa geração que está sendo criada, não devemos deixar de analisar quem está educando. “Uma maneira viciada de enxergar o adolescente pode ser a base dos conflitos. No imaginário social, o adulto vê o jovem como problemático, sobrepõe a visão negativa, desviando o olhar dos traços positivos dessa geração”, explica a antropóloga.

As qualidades dessa juventude não só existem, como foram catalogadas em trabalho divulgado pelo Iser – Instituto de Estudos da Religião –, do Rio de Janeiro. A coordenadora da pesquisa, a socióloga Regina Novaes, avaliou o perfil cultural, familiar e social de 800 adolescentes, entre 15 e 24 anos, de diferentes classes socioeconômicas, durante um ano. “O jovem reflete a sociedade em que vivemos, não é nem mais nem menos violento que o resto da comunidade”, afirma. Suzane von Richthofen e Gustavo Napolitano já fizeram suas vítimas. O que não se pode deixar é que façam outras, ou por mimetismo entre os jovens ou por inação dos adultos.

Frases

“Só imaginava que tudo ia ser perfeito. Hoje percebo que esse mundo encantado nunca existiu”.

Suzane Von Richthofen

“Suzane não estava feliz com os pais, porque eles não queriam o nosso namoro”.

Daniel Cravinhos

“Se minha mãe estivesse em casa na hora eu a mataria também”.

Gustavo Napolitano

Para saber mais

NA LIVRARIA

Serial Killer, Louco ou Cruel?

Ilana Casoy, WVC, São Paulo, 2002

O Cérebro Executivo,

Elkhonon Goldberg, Imago, Rio de janeiro, 2002

Loucura e Crime,

Guido Arturo Palomba, Fiúza, São Paulo, 1996

Quem Ama, Educa!,

Içami Tiba, Editora Gente, São Paulo, 2002