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Testes nucleares da França na Polinésia afetaram mais de 100 mil pessoas, revela estudo

O país conduziu quase 200 explosões em um intervalo de 30 anos. Novo relatório mostra como governo omitiu dados e subestimou os impactos na saúde dos habitantes do arquipélago.

Por Bruno Carbinatto Atualizado em 11 mar 2021, 19h27 - Publicado em 11 mar 2021, 19h26

Entre os anos 1960 e 1990, a França realizou testes nucleares nas ilhas da Polinésia Francesa, um território do país localizado no Oceano Pacífico. Mas o impacto deles à saúde dos habitantes do arquipélago era algo desconhecido – até agora.

Segundo cálculos de um novo relatório independente, cerca de 110 mil pessoas foram afetadas pelos níveis de radiação dos testes. O número quase equivale à população da Polinésia Francesa na época em que as explosões aconteceram (125 mil habitantes).

A conclusão é do projeto Moruroa Files, uma colaboração internacional de cientistas de dados, pesquisadores de segurança ambiental, jornalistas investigativos e organizações não governamentais que passou dois anos analisando mais de duas mil páginas de documentos do governo francês que, antes, estavam sob sigilo.

Os testes nucleares da França começaram em 1966 nos atóis (ilhas) de Moruroa e Fangataufa, na Polinésia Francesa. O programa militar era secreto e assim seguiu por 30 anos, durante os quais 197 testes aconteceram. O projeto foi descontinuado após protestos sobre a falta de transparência do governo francês. Durante todo esse tempo, os reais impactos na população local, nos trabalhadores do projeto e nos soldados franceses envolvidos nos testes ficaram escondidos da opinião pública.

  • Além da análise dos documentos recém-divulgados ao público, a colaboração investigativa internacional também entrevistou 50 pessoas na França e na Polinésia Francesa (como cientistas, militares e polinésios). Os pesquisadores criaram modelos computacionais para reconstruir os testes e tentar entender até que ponto a radiação envolvida pode ter afetado os moradores do arquipélago.

    Antiga suspeita

    As suspeitas de que os impactos dos testes eram maiores do que o que foi oficialmente divulgado não é nova. Nas últimas décadas, a Polinésia Francesa viu os níveis de câncer em sua população crescerem acima do normal. O governo francês foi pressionado a investigar, mas não assumiu a culpa totalmente: em 2006, a Comissão Francesa de Energias Alternativas e Energia Atômica calculou a quantidade dos níveis da radiação e concluiu que cerca de 10 mil pessoas tinham sido afetadas diretamente – menos de 10% do número relevado pelo novo estudo.

    Em fevereiro, o Instituto Nacional de Saúde e Pesquisa Médica, ligado ao governo francês, publicou um relatório afirmando não haver dados suficientes para correlacionar os casos de câncer no arquipélago aos testes nucleares, mas que pesquisas do tipo deveriam continuar.

    O Moruroa Files estima que, somente no teste da bomba nuclear Centaure, em 1974, toda a população da ilha Tahiti (a maior da Polinésia Francesa) e das Ilhas de Sotavento – um equivalente a 110 mil pessoas – foi exposta a um nível de radiação de 1 millisieverts, o suficiente para causar danos à saúde. Pela lei francesa, o valor e o mínimo exigido para que o Estado tenha que pagar algum tipo de indenização.

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    Outras detonações, como a da bomba Aldébaran, em 1966, foram ainda mais severas. Em alguns lugares, pessoas foram expostas a 5 millisieverts de radiação.

    Até hoje, porém, somente 454 pessoas receberam algum tipo de indenização do governo francês pelos danos causados pelos testes. A  maioria trabalhava como soldado ou em algum cargo do governo – apenas 63 eram habitantes da Polinésia Francesa sem relação direta com os testes. E não foi por falta de pedidos.

    Segundo o relatório, Cerca de 80% das solicitações de indenização foram negadas pelo governo francês sem uma justificativa sólida. O estudo cita entrevistas com diversas pessoas que têm casos de câncer na família, mas não conseguiram acesso à compensação do governo e desistiram de tentar.

    A equipe também calculou que a Comissão Francesa de Energias Alternativas e Energia Atômica subestimou os níveis de radiação aos quais os polinésios foram expostos em até três vezes, dependendo da região do arquipélago. Na investigação oficial de 2006, por exemplo, os cientistas franceses consideraram que os habitantes bebiam apenas água do rio e não consumiam a proveniente da chuva, que era mais contaminada. Isso, porém, foi um erro, já que muitos dependiam dessa fonte da água para viver – e foram, consequentemente, mais expostos à radiação.

    O relatório dedica ainda uma seção inteira para mostrar como autoridades francesas sabiam mais do que o divulgado oficialmente sobre os riscos e consequências dos testes, mas escolheram omitir propositalmente essas informações nos últimos anos. Em um e-mail de 2017 ao qual a equipe jornalística teve acesso, o Ministério da Defesa da França admite que, dos cerca de 6.000 funcionários que residiram nos atóis de Moruroa e Fangataufa entre 1966 e 1974, cerca de um terço deles (2.000 pessoas) “tem ou terá câncer induzido por radioatividade”. A mensagem também estimou que o montante a pagar a título de indenização “aumentaria, portanto, em […] 100 milhões de euros”. Contatado pelos jornalistas, o órgão negou que tenha feito essa estimativa.

    Leucemia, linfoma, câncer em órgãos como tireoide, pulmão, mama e estômago são consequências dos testes que ainda estão altamente presentes na população da Polinésia Francesa, segundo os jornalistas investigativos que coletaram as entrevistas do relatórios. Várias pessoas que deram o seu depoimento, vale dizer, eram crianças na época dos testes. O governo francês ainda não se pronunciou oficialmente sobre os novos achados, e não está claro se o relatório impactará nos processos de indenização aos polinésios.

     

     

     

     

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