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Vale a pena ser sede de um Pan?

Os Jogos de 2003, em São Domingos, na República Dominicana, não tiveram o mesmo resultado. Deixaram obras sem utilidade na capital e dívidas.

Texto Frances Jones

Não se sabe ao certo – e varia muito de caso a caso. Faltam estudos e balanços confiáveis sobre os Jogos já realizados que permitam analisar se um Pan gera recursos e impactos positivos o suficiente para pagar pelo investimento necessário. Winnipeg, no Canadá, sede dos Jogos de 1999, é a cidade que fez o balanço mais preciso até hoje de um Pan. Pela contabilidade das autoridades, o evento mais ou menos se pagou. Ou melhor, na época, deixou um prejuízo de cerca de R$ 3,6 milhões na tesouraria. Como essa conta não leva em consideração os impactos de longo prazo, o evento valeu a pena. Os Jogos de 2003, em São Domingos, na República Dominicana, não tiveram o mesmo resultado. Deixaram obras sem utilidade na capital e dívidas.

A comparação entre as duas cidades dá um bom exemplo do que costuma acontecer com as sedes. Em geral, as do hemisfério norte não precisam investir tanto em obras para receber um Pan. Com recursos urbanos melhores, elas aproveitam a infra-estrutura já existente e apenas reformam o necessário. No hemisfério sul, muita coisa é construída. E os gastos vão lá para o alto. “Nunca se investiu tanto num Pan como neste, do Rio”, diz o professor da Escola de Sociologia e Política de São Paulo André Viana, contratado pelo governo federal para analisar o impacto econômico e social que os Jogos no Rio terão. Estima-se um gasto oficial de R$ 3,5 bilhões no evento – desses, R$ 1,9 bilhão são classificados como “legado” pelo comitê do governo federal para o Pan. Por legado entenda as melhorias que ficam para a cidade após os Jogos e que costumam justificar a realização de eventos desse porte. A herança mais valiosa que os cariocas receberão é a reforma de hospitais, do autódromo de Jacarepaguá e o novo estádio olímpico.

Viana acredita que o balanço final do Pan será positivo e que o investimento retornará na forma de impostos. Mas a opinião não é consensual. Gilmar Mascarenhas, especialista em geografia do esporte da Uerj, acredita que o Pan virou “uma grande oportunidade de negócios com farto subsídio público” para empresas, em detrimento dos interesses da cidade. “O esporte adquiriu força imensa para catalisar recursos públicos. É uma grande festa, mas o legado para a população está muito aquém do que poderia ser.” Para ele, exemplo de Pan bem feito é o de São Paulo, em 1963, onde o “custo público beirou zero”: tudo que o governo gastou foi o equivalente a 17 fusquinhas.