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Voto? Nos EUA de 100 anos atrás, dava para enviar até crianças pelo correio

Os votos pelo correio estão atrasando o resultado das eleições americanas. Mas isso não chega nem perto do que rolava nos anos 1910 - quando alguns bebês foram transportados dessa forma.

Por Rafael Battaglia 4 nov 2020, 16h39

As eleições dos Estados Unidos deste ano terminaram na última terça (3/11). A apuração, contudo, ainda não. Motivo: parte dos votos foi enviada pelo correio, o que atrasou o resultado pela disputa da presidência entre o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden.

Para nós, brasileiros, acostumados com a urna eletrônica, isso pode soar estranho. Acontece que, por lá, é possível votar antecipadamente, e não apenas no dia da eleição. Em 2020, por conta da pandemia, o número de votos pelo correio bateu recorde.

Os correios dos EUA nasceram praticamente junto com o país. Eles foram criados em 1775 por Benjamin Franklin, que se tornou o primeiro responsável pelo serviço. Anos depois, em 1789, a Constituição de lá foi ratificada – e os correios foram incluídos logo no primeiro artigo.

Hoje, quem cuida de tudo é o Serviço Postal dos Estados Unidos (USPS, na sigla em inglês), que emprega 500 mil pessoas e, em 2019, faturou mais de US$ 71 bilhões. Os americanos costumam usar bastante os correios para receber e enviar encomendas – e até cheques, usados para pagar contas e serviços, são enviados dessa forma.

Mas, 100 anos atrás, os correios da terra do Tio Sam entregavam coisas inusitadas: bebês e crianças.

  • Querida, enviei as crianças

    Em janeiro de 1913, o governo anunciou a criação do Parcel Post, um serviço que permitiria às pessoas enviar e receber correspondências mais pesadas. Até então, os correios só trabalhavam com cartas e pacotes de até quatro libras (1,8 kg). Foi revolucionário – mas não demorou até que algumas pessoas tentassem tirar proveito da nova medida.

    Poucas semanas após o começo do Parcel Post, um casal de Ohio chamado Jesse e Mathilda Beagle decidiu enviar o filho James, de apenas oito meses, até a casa de sua avó, a alguns quilômetros dali.

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    Esse foi o primeiro registro de uma criança enviada pelos correios – e custou a família Beagle apenas 15 centavos (US$ 4, em valores atuais). Os pais inclusive colocaram o bebê no seguro, para o caso dos correios o perderem. Se isso acontecesse, receberiam US$ 50, o que corresponde a US$ 1,3 mil hoje em dia.

    Depois disso, outras histórias similares começaram a pipocar nos jornais do país. Mas o caso mais famoso talvez seja o da garota Charlotte May Pierstorff, em fevereiro de 1914. A menina, de apenas quatro anos, viajou 117 quilômetros de trem da sua casa em Grangeville, Idaho (noroeste dos EUA) até a cidade de seus avós.

    “O serviço postal era mais barato do que comprar uma passagem de trem”, explicou Jenny Lynch, historiadora do USPS, à revista Smithsonian. Mas pode ficar tranquilo: a pequena Charlotte não foi empacotada como um saco de batatas. Na verdade, o primo de sua mãe trabalhava como balconista no serviço de correio ferroviário. Bastou apenas conversar com as autoridades locais para acompanhá-la na viagem.

    Com o passar dos anos, a história ganhou detalhes cada vez mais bizarros: os selos postais teriam sido colados no casaco de Charlotte, e há relatos, inclusive, de que ela havia sido taxada como carga animal, custando o mesmo que um frango.

    Não é verdade: naquela época, apenas bichos como abelhas e insetos podiam ser transportados. O correio só passou a aceitar frangos em 1918. Seja como for, o caso da menina ficou tão conhecido que inspirou até um livro infantil, Mailing May, em 1997.

    Ao todo, há registros de pelo menos sete crianças enviadas pelo correio nos EUA – uma dela, inclusive, teria viajado mais de 1.150 quilômetros. A prática só terminou de vez no final dos anos 1910, quando grandes jornais do país, como Washington Post, New York Times e Los Angeles Times publicaram reportagens nas quais o chefe dos correios reiterava que isso não poderia acontecer mais.

    Por mais estranhos que pareçam, esses casos não significam, necessariamente, que os pais eram negligentes. Para Lynch, as histórias só mostram o quanto as comunidades rurais dos EUA dependiam do serviço postal no início do século 20 – e como confiavam nele. A ponto, até, de mandar um bebê pelo correio.

     

     

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