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Zoológico ilógico

Mamíferos enormes e esquisitos conviviam com os brasileiros de 11 000 anos atrás.

Luciana Garbin

Em dezembro de 1994, o zoólogo americano David Oren, do Museu Paraense Emílio Goeldi, aventurou-se na selva do Acre em busca de uma criatura lendária. Durante dias ele seguiu, em vão, uma trilha supostamente deixada pelo mapinguari, um monstro da mitologia amazônica. Oren acha que o tal bicho existe mesmo. Ele seria, na realidade, um megatério, preguiça-gigante tida como extinta há pelo menos 7 000 anos.

O mapinguari, se um dia der o ar de sua graça, será o último exemplar dos enormes animais que dominaram as Américas antes da chegada do homem. Não, eles não têm nada a ver com os dinossauros, desaparecidos milhões de anos antes. O megatério pertence a uma turma muito mais recente, característica do período chamado pleistoceno, que vai de 180 000 até 11 000 anos atrás. Por isso, e por serem muitos grandes, esses bichos são chamados de megafauna pleistocênica. Alguns já podiam estar extintos quando surgiram os primeiros povoamentos conhecidos na América do Sul, há 12 500 anos. Outros conviveram pelo menos por cinco milênios e meio com os homens das cavernas. É possível que o contato tenha apressado a sua extinção.

Ê, vidão! Muita comida e poucos perigos

Os mamíferos selvagens que existem hoje no Brasil são animais de porte modesto. O maior deles, a anta, dificilmente ultrapassa os 330 quilos. Nada que se compare, nem de longe, aos bisões da América do Norte ou aos elefantes e rinocerontes da África. Mas nem sempre foi assim. No Brasil de 9 000 anos atrás, os homens das cavernas caçavam mastodontes, parentes americanos dos elefantes. E eram, por sua vez, caçados pelo tigre dentes-de-sabre, um felino bem maior que o leão. Nas grutas da região de Lagoa Santa, em Minas Gerais, foram encontrados fósseis desses dois animais, juntamente com pinturas rupestres, restos humanos e ainda ossos de um bicho parecido com o tatu, o gliptodonte. No Nordeste, desfilavam ursos como os do hemisfério norte e lhamas maiores que as atuais habitantes da Cordilheira dos Andes. Os megatérios, preguiças-gigantes como aquela que você viu na página anterior, espalhavam-se por todo o território brasileiro.

A história desses animais começa há 65 milhões de anos. As Américas estavam separadas entre si. A porção norte do continente permanecia ligada à Eurásia, enquanto a parte sul era uma imensa ilha (veja reportagem na página 6). Nesse cenário, uma catástrofe ambiental – provavelmente a queda de um meteoro – varreu os dinossauros do mapa. E os mamíferos, animaizinhos pequenos que sobreviveram à escassez de comida provocada pela tragédia, acabaram se tornando os senhores da Terra.

O isolamento da América do Sul fez com que uma fauna bem peculiar se desenvolvesse por aqui. Para os mamíferos, todos eles herbívoros, o continente era uma pastagem sem fim. Reinava o sossego, pois não havia predadores além dos jacarés e de algumas aves primitivas. Nesse paraíso cheio de comida, desenvolveram-se animais de centenas de quilos, como o toxodonte, do tamanho de um rinoceronte, e a macrauquênia, de aparência tão esdrúxula quanto o seu nome. Até que a ligação das Américas, há 3 milhões de anos, permitiu a travessia de várias espécies de predadores e acabou com a festa (veja mapa na página 23).

Turma da pesada

Conheça os mamíferos que mandaram no país durante milhões de anos.

O predador que veio do norte

O tigre dentes-de-sabre tinha 1,50 metro de altura, uma vez e meia o tamanho de um leão. Mestre na tocaia, agarrava as presas com seus caninos enormes, de até 20 centímetros. Pena que tivesse patas muito curtas, que faziam dele um péssimo perseguidor. Originário da América do Norte, chegou há 3 milhões de anos, com a ligação dos continentes pelo Panamá.

Primo do elefante

O mastodonte chegou ao Brasil há 1 milhão de anos, vindo da América do Norte. Pesava 4 toneladas, o mesmo que seus primos atuais, os elefantes africanos e asiáticos. Mas era peludo e tinha as orelhas bem menores que as deles.

Amigo das águas

O toxodonte (“dente curvado”, em grego) media quase 2 metros de altura e habitava a região central do país. Vegetariano, vivia nas margens dos rios e dos lagos. Como os hipopótamos, passava a maior parte do tempo dentro d’água.

Tanque de guerra

Do tamanho de um fusca, o gliptodonte (“dente esculpido”, em grego) tinha o corpo coberto por uma carapaça. A cauda, cheia de espinhos, era usada para a defesa. Só comia insetos e plantas. E não era parente do tatu, apesar da semelhança.

ET da pré-história

Você se lembra do Alf, aquele extraterrestre do seriado de televisão? A macrauquênia não é a cara dele? Este quadrúpede de quase meia tonelada, que parece um cavalo com tromba, era um primo distante do camelo. Tinha 3 metros de comprimento por 1,5 metro de altura, sem contar a cabeça e o pescoço.

Homem e natureza dizimaram os megabichos

A chegada do homem à América do Sul, há pelo menos 12 500 anos, pode ter sido o golpe de misericórdia para boa parte da megafauna do continente. “A caça foi provavelmente um fator importante na extinção de animais como o mastodonte sul-americano e o megatério”, disse à SUPER o paleontólogo Reinaldo Bertini, da Universidade Estadual Paulista, em Rio Claro.

Mas há outros culpados. Dois eventos da natureza pesaram muito mais que a mão humana. O primeiro foi o surgimento de uma ponte terrestre entre as Américas, há 3 milhões de anos – o Istmo do Panamá. A passagem livre permitiu que os animais do norte migrassem para o sul, e vice-versa (veja mapa na página ao lado). No sul, onde praticamente só havia herbívoros, a entrada de carnívoros como o urso e o tigre dentes-de-sabre teve um impacto devastador. Os novos predadores se banquetearam com a pacífica megafauna sul-americana, aniquilando muitas espécies.

A outra hecatombe ocorreu há cerca de 11 000 anos, quando os mamíferos gigantes começaram a sumir, tal como os dinossauros há 65 milhões de anos. “Ocorreu uma mudança radical no clima da América do Sul e uma elevação de 80 metros no nível do mar, provocando um desequilíbrio ecológico enorme”, disse à SUPER o paleontólogo Herculano Alvarenga. Quem levou a pior foram os grandalhões, que precisavam de mais comida.

A galeria dos veteranos

Muitos dos atuais integrantes da fauna brasileira já existiam, com pequenas diferenças, no tempo dos dinossauros. Veja alguns dos bichos mais antigos do país.

Matusalém da floresta

Ao topar com um gambá, pense duas vezes antes de tapar o nariz. Você está diante do mamífero mais antigo do mundo – merecedor, portanto, do maior respeito. O gambá moderno tem 20 milhões de anos. Mas seus avós conviveram com os dinos no Brasil do período cretáceo, de 145 a 65 milhões de anos atrás.

Nos brejos jurássicos

Os anuros, ordem à qual pertencem os sapos, já existiam no período jurássico, há mais de 145 milhões de anos. Depois, durante o cretáceo, ficaram bem parecidos com os sapos que hoje coaxam por aí.

Imigrante asiático

Os avós do coelho surgiram há cerca de 45 milhões de anos, na Ásia. As espécies atuais chegaram à América do Sul há 3 milhões de anos, vindas do hemisfério norte.

Colega dos dinos

Os crocodilianos, grupo ao qual pertencem os jacarés, têm 245 milhões de anos. Sobreviveram ao cataclismo que acabou com os dinos e às mudanças climáticas que dizimaram a megafauna. Mas talvez não resistam ao extermínio praticado pelo homem.

Túnel do tempo

Nativo da América do Sul, o tatu já cavava buracos há mais de 20 milhões de anos. Mas seus primeiros ancestrais têm 50 milhões de anos nas costas. Ou melhor, na carapaça.

Peça de antiquário

Os quelônios, como o jabuti, têm cara de velho – e são mesmo. Existem há mais de 200 milhões de anos. São quase tão antigos quanto os primeiros dinossauros.

Troca-troca continental

Quem passou pelo Panamá.

Quando o Istmo do Panamá ligou as Américas, os animais passaram a transitar sem restrições. Do norte desceram mastodontes, cavalos, lhamas, ursos, antas, ariranhas, gatos, tigres dentes-de-sabre e veados. Em direção contrária viajaram tamanduás, tatus, preguiças, gliptodontes, gambás, capivaras e toxodontes.

O elo perdido?

Eram as aves dinossauros? Depois de décadas de discussão, a maioria dos paleontólogos hoje acredita que elas descendem, sim, dos extintos lagartões. Na cidade paulista de Tremembé, no Vale do Rio Paraíba, o pesquisador Herculano Alvarenga encontrou, em 1977, ossos de um pássaro de 25 milhões de anos – uma possível etapa intermediária nessa transição. O monstrengo, semelhante às aves gigantes que habitaram a Patagônia na mesma época, recebeu o nome de Physornis brasiliensis (ilustração). Tinha 2 metros de altura, a cabeça muito grande em relação ao corpo e as asas minúsculas. Era um carnívoro.