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A biodiversidade é azul

A imensidão aquática abriga ambientes tão variados quanto os da terra.

Mauricio Lara Galvão

Visto da janela de um avião, o oceano parece um ambiente uniforme – só água e peixe, de uma beirada até a outra. Quando se olha de perto, porém, verifica-se que ele comporta uma incrível variedade de ecossistemas, tão diferentes entre si quanto, na terra, a Floresta Amazônica e a Cordilheira do Himalaia. Alguns ambientes são lúgubres, como as fossas abissais, com sua fauna esquisita. Outros são coloridos, como os recifes de corais. Os mangues e as praias, onde a rotina é regida pelo vaivém das marés, abrigam uma enorme quantidade de espécies. Já o alto-mar pode ser comparado aos desertos terrestres, com sua fauna rarefeita. O fundo dos oceanos é um ecossistema à parte. Seus inquilinos são peixes que se alimentam dos nutrientes que sobram das camadas mais rasas e descem lentamente, como uma chuva. Quanto mais se conhece, mais surpreendente se revela o mundo escondido dentro d’água. Em 1977, pesquisadores a bordo do submersível Alvin depararam com estranhas chaminés a 2 500 metros de profundidade, nas Ilhas Galápagos, no Pacífico. Lá vivem animais que se alimentam de enxofre. Para eles, estranhos somos nós.

Para todos os gostos

Veja como o mar está cheio de contrastes.

JARDINS SUBMERS

Poucas paisagens no planeta produzem tanto deslumbramento quanto os recifes de corais, com suas cores vivas e a profusão de peixes, conchas e caranguejos. Imóveis como pedras, os corais nem parecem bichos. Na realidade, os recifes são gigantescas aglomerações formadas ao longo de milênios pelas carcaças de um bichinho de meio centímetro de diâmetro – o pólipo, que se alimenta de plâncton. Ao morrer, o pólipo se solidifica e outros indivíduos se instalam em cima dele. Assim se formam colônias gigantescas, que abrigam, em seu conjunto, um terço de todas as espécies de peixe. “Os recifes de coral têm uma biodiversidade tão ou mais complexa do que a de uma floresta tropical”, afirma o zoólogo Fábio Lang da Silveira, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Eles só aparecem em regiões de águas quentes, entre 20 e 30 graus Celsius, e são muito mais freqüentes no Pacífico do que no Atlântico. O maior recife do planeta é a Grande Barreira de Corais, na Austrália, com 2 800 quilômetros de extensão. É a maior estrutura já erguida por seres vivos, superando, em área construída, a Muralha da China.

MUNDO DAS TREVAS

As fossas abissais são os pontos mais profundos da Terra – chegam, em alguns casos, a alcançar 10 quilômetros abaixo da superfície da água. Os raios solares não chegam a essas regiões, que, por isso, ficam na mais completa escuridão. Suas águas são geladas e estéreis, praticamente desprovidas de plâncton animal ou vegetal. A pressão do mar é esmagadora, o que inviabiliza a sobrevivência da maioria dos seres aquáticos. Você consegue imaginar um lugar mais tenebroso? Mesmo nessas profundezas inóspitas, existe vida. Lá é o reduto de bichos de aparência assustadora, adaptados às duras condições do ambiente. Vorazes, os peixes abissais têm a boca enorme e os dentes afiados, como o Anoplaster cornuta nadando aí embaixo, à esquerda.

BERÇÁRIOS DE LAMA

Com seus arbustos de raízes expostas, galhos e folhas boiando na lama e cheiros nem sempre agradáveis, os manguezais costumam ser desprezados pelos turistas, mas fazem o maior sucesso entre os bichos, que não se importam com o glamour de seu hábitat. Instalados na fronteira entre a terra e o mar, eles são na realidade florestas adaptadas à presença da água salgada. Cobrem cerca de 25% do litoral dos trópicos, principalmente nas regiões onde os rios deságuam no oceano. A parte submersa das raízes retém os nutrientes trazidos pela correnteza do rios, impedindo que eles se dispersem no mar. Cria-se, assim, um ambiente onde se banqueteiam os vermes, os crustáceos, os peixes e os pássaros. Muitos peixes utilizam os manguezais como um refúgio natural para a reprodução e a primeira fase da existência dos filhotes. Quando atingem o tamanho adequado, eles migram para o mar aberto.

CHAMINÉS NEGRAS

Quando se encontrar vida em outros planetas, é possível que ela se pareça com a existente nos arredores de um vulcão submarino perto das Ilhas Galápagos, no Pacífico. Ali, a 2 500 metros de profundidade, com a temperatura da água em torno dos 300 graus Celsius, surgiu o mais inverossímil dos ecossistemas marinhos. Comunidades de enormes vermes em forma de tubo, que alcançam 3 metros de comprimento, crescem junto às bocas fumegantes dos vulcões, que expelem enxofre o tempo todo. Sem boca nem trato digestivo para se alimentar, eles contam com colônias de bactérias no interior do seu corpo, capazes de utilizar o enxofre como comida para si mesmas e para seus hospedeiros, num processo chamado quimiossíntese. Esses animais bizarros servem de alicerce para uma cadeia alimentar que inclui mexilhões gigantescos, além de medusas e peixes que conseguiram se adaptar àquele ambiente onde a sobrevivência parece impossível.

O mergulho da luz

O mar absorve uma cor de cada vez.

Quando a luz bate na água, uma parte dos seus raios é absorvida e outra parte, refletida de volta para o céu. As cores vão desaparecendo gradualmente, a começar pelo vermelho. O azul é a última cor a sumir – até a profundidade de 250 metros ainda há claridade. Por isso, os raios azuis são refletidos numa intensidade maior do que os das demais cores. No desenho acima, você pode ver como um peixe colorido é visto em diferentes profundidades.