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A perfeição é a meta

Os australianos pensaram em tudo, nos míííííínimos detalhes. Para garantir nota 10 em todos os quesitos, investiram 3 bilhões de dólares e nove anos de trabalho duro

Por Eduardo Azevedo

Quando, do outro lado do mundo, o relógio assinalar as 17 horas do dia 15 de setembro de 2000, 3,5 bilhões de terráqueos vão estar sentados à frente da televisão. Para nós, aqui no Brasil, ainda serão 4 horas da manhã. Mas quem estiver acordado não vai se arrepender. Latinos, americanos, chineses, russos, árabes – todos assistiremos a um espetáculo incomum: uma eqüidna saltitante brincando com um um ornitorrinco e com um pássaro chamado cucaburra. Quando surgirem na tela esses bichos esquisitos, que só existem na Austrália (veja quadro na página 15), vai estar começando, em Sydney, a última olimpíada do milênio.

Com obras grandiosas em estilo futurista, a Austrália quer mostrar que é muito mais do que um lugar exótico e remoto, habitado por surfistas, aborígenes e cangurus. Some-se a isso o esforço do Comitê Olímpico Internacional (COI) para apagar da memória o fiasco dos últimos Jogos, em Atlanta, Estados Unidos, onde os computadores pifaram e a organização virou um caos. Os australianos almejam nada menos que a perfeição.

Para cumprir o lema de “não errar”, os organizadores começaram cedo. Ao todo foram nove anos de preparação – dois quando Sydney ainda era apenas uma das cidades candidatas a sediar os Jogos e mais sete depois que ela venceu a disputa – e um investimento de 3,4 bilhões de dólares. Mesmo assim, algumas ameaças ainda preocupam os anfitriões. Os aborígenes, nômades que vivem no deserto australiano, dizem que vão atrapalhar a festa com atos de protesto.O Greenpeace também promete fazer barulho e já avisou que não quer o McDonald’s e a Coca-Cola como patrocinadores.

 

Retorno bilionário

Nada disso arranha o otimismo que domina o país. Ao todo serão 1,5 milhão de turistas, 30 000 jornalistas e 10 200 atletas. Calcula-se que a Austrália terá um retorno de 4,3 bilhões de dólares até 2004, divididos entre vendas de ingresso, direitos de transmissão e, principalmente, divulgação turística e econômica. “Os reflexos positivos na economia vão se estender até 2010”, anima-se Marcelo Credidio, representante da Comissão Turística da Austrália em São Paulo. Segundo ele, o número de turistas, que foi de 4,5 milhões no ano passado, deverá dobrar nos próximos oito anos.

O coração dos Jogos pulsará numa região chamada Homebush Bay, a 16 quilômetros de Sydney. A área, onde antes funcionava um lixão público, foi totalmente recuperada e agora abriga o maior complexo esportivo que a humanidade já viu. A gigantesca operação foi obra de um exército de 1 500 homens – além de 50 000 voluntários – comandados por 150 arquitetos que se inspiraram no que há de mais moderno em construções esportivas. Abusando dos projetos ecologicamente corretos e das formas arredondadas, uma característica da arquitetura local, os australianos ergueram uma nova cidade, composta de 22 grandes prédios (na maioria estádios e ginásios) e um bairro residencial para 15 000 pessoas. A região ganhou também uma linha de trem especial que liga Homebush Bay a Sydney, onde estará hospedada a maioria dos visitantes. Espera-se que, em setembro, o trem transporte 50 000 pessoas por hora, com viagens a cada 2 minutos.

No item novidade, nada se compara ao Stadium Australia, que os aussies (como os australianos preferem ser chamados) apresentam ao mundo como o supra-sumo do seu talento empreendedor. Com capacidade para 110 000 espectadores, é o maior e mais arrojado estádio olímpico do planeta. Sua estrutura de 58 metros de altura consumiu 12 000 toneladas de aço. No total, são oito andares de arquibancadas, cobertos por dois arcos de metal de 295 metros de comprimento cada um. Tudo nele foi pensado para facilitar a visão da arena de jogo. Pode-se comer nos restaurantes, que ficam em seu interior, sem parar de assistir às provas. “O campo de jogo é um verdadeiro estúdio de televisão”, afirma Paul Henry, um dos projetistas do estádio, referindo-se à versatilidade da estrutura, que possibilita diminuir ou aumentar qualquer área de acordo com as necessidades. Tanto capricho se justifica. O Stadium Australia abrigará esportes nobres, como o futebol e o atletismo, além de ser a sede das cerimônias de abertura e encerramento. No final das Olimpíadas ele deve virar um estádio de rugby para 80 000 pessoas, capacidade que a pequena população australiana, mesmo apaixonada por esse esporte, já acha um exagero. Outros destaques do Parque Olímpico são o velódromo, cujo formato imita um capacete de bicicleta, e o Aquatic Centre, que possui cinco níveis de iluminação dentro das piscinas, justamente para melhorar as imagens de televisão.

Em Blacktown, uma cidade a leste de Sydney, foi inaugurado o White Water Stadium, um parque aquático onde se construiu um rio artificial de concreto, em forma de “U”, para a disputa das provas de caiaque em corredeira. Nele tudo é eletrônico e ajustável. O nível da água, as pedras, as pequenas baías e todos os obstáculos podem ser facilmente trocados de lugar ou simplesmente retirados para aumentar ou diminuir a dificuldade das provas.

 

DNA antipirata

A sofisticação nessa olimpíada é tanta que até os suvenires oficiais ganharam um toque hi-tech. Para evitar falsificações, o Comitê Olímpico está usando em seus produtos uma tinta especial que contém uma seqüência de DNA humano. Copiaram a seqüência genética de um atleta famoso – cuja identidade é mantida em sigilo – e a aplicaram em todas as bugigangas que têm o logotipo “Sydney 2000”. Qualquer dúvida sobre a autenticidade de um boné ou de um chaveiro, basta mandá-los para um laboratório que logo se saberá se o produto é pirata ou não. Segundo Chris Outwater, mentor do projeto, “o método é infalível”. Ele espera a venda de 10 milhões de suvenires.

Para quem quiser uma lembrança mais emocionante da Olimpíada, o destino natural é a Harbour Bridge, a magnífica ponte na Baía de Sydney que agora atrai os turistas aventureiros. Por 60 dólares, pode-se subir, amarrado a uma corda, até a metade do altíssimo arco de aço que sustenta a ponte. Lá, a demonstração de ousadia é premiada com uma vista privilegiada de toda a região portuária e com uma foto que, na volta para casa, pode ser exibida como prova de coragem. A única coisa que Sydney não pode oferecer aos turistas são as medalhas.

Ecologicamente corretos

Durante as obras de construção do maior complexo esportivo da Olimpíada de Sydney, em Homebush Bay, os trabalhadores encontraram uma colônia com trezentos sapos de uma espécie rara, dourada e verde (foto). Para evitar complicações com os ecologistas, o empreendimento foi imediatamente paralisado – e os anfíbios, tratados como se cada um deles fosse o príncipe Charles disfarçado. Uma equipe de zoólogos recolheu, um a um, os preciosos batráquios, que foram transferidos para um novo hábitat, especialmente construído para eles. No novo brejo, que fica próximo a rodovias, foram erguidos muros e até passarelas para que os sapos possam circular sem ser incomodados. Há motivo para tamanho zelo. Sydney-2000 foi batizada de Olimpíada Verde. Nenhum passo foi dado sem que se pensasse no impacto sobre o meio ambiente. O principal canteiro de obras foi instalado onde antes havia um lixão. O material tóxico foi encaixotado, enquanto o plástico, a borracha e até as pedras viraram material de construção. Os grandes ginásios contam com coletores de água da chuva, que, mais tarde, é tratada e utilizada nos banheiros, no abastecimento das piscinas e até nos alimentos. Os pratos e talheres dos restaurantes são feitos de fibra de cana-de-açúcar, de fácil decomposição. Os meios de transporte, todos gratuitos, usam energia elétrica e gás natural em vez de gasolina. E a luz na Vila Olímpica vem da energia solar.

Trinca exótica

Sydney já registra um recorde antes mesmo da abertura dos Jogos: o do número de mascotes. Os australianos optaram não por um – como é usual – mas por três bichos diferentes para representar a Olimpíada. As escolhas espelham a exótica fauna local, com animais que desafiam a imaginação. São eles (pela ordem, na ilustração acima): um cucaburra, um ornitorrinco e uma eqüidna. Curiosamente, o canguru ficou de fora. Conheça melhor esses bizarros mascotes olímpicos.

O ornitorrinco (batizado de Syd, em homenagem a Sydney) é o único mamífero com bico de pato. Com meio metro de comprimento, ele constrói sua toca na beira dos riachos e, à noite, mergulha para caçar caramujos e outros invertebrados. Dentro da água, fecha os olhos e se orienta apenas pelo bico. A fêmea bota ovos, mas os filhotes se alimentam do leite que é secretado por glândulas na barriga da mãe. Suas patas produzem um potente veneno que pode causar uma dor terrível nos seres humanos e matar animais de menor porte.

A eqüidna (Milli, de “milênio”) não é menos esquisita. O bichinho de 30 cm é arredondado, com espinhos nas costas e um bico quase do tamanho do próprio corpo, que é utilizado para capturar formigas, seu alimento predileto. É um marsupial – mamífero que possui bolsa complementar para a gestação dos filhotes, como os cangurus e os gambás.

O exótico trio é completado pelo cucaburra, apelidado de Olly – de olimpíada. Trata-se de um pássaro de 45 cm de comprimento, também com um bico desproporcional.

Sua tática de caça é original. O cucaburra fica parado num galho de árvore e, ao avistar a presa, atravessa-a com o bico, voltando à árvore para o almoço. A maioria das pessoas já conhece essa ave, mas não sabe: o seu canto é exaustivamente utilizado por Hollywood em todo filme de selva, da África à Amazônia – algo como “uuuuurá, urá, urá.”