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A vida na pista de alta velocidade

Neil G. McDaniel

Ajusto a máscara ao rosto, e escorrego pela borda do barco, junto com meu companheiro, caindo nas verdíssimas águas de Sechelt Rapids, na Colúmbia Britânica, costa oeste do Canadá. Assim que as bolhas se dispersam, concedo-me o privilégio de contemplar a paisagem marítima sob minhas nadadeiras. Os raios de sol, cuja luz sofre a refração da água, dançam e ondulam sobre um arco-íris de incrustações e tufos castanho-dourados de algas marinhas. Elas quase não se movem; estamos na maré baixa. Durante alguns curtíssimos minutos, Sechelt Rapids tornar-se-á tão plácida quanto um lago tranqüilo. Em poucos instantes, porém, a força de uma das correntes marítimas mais velozes do mundo agitará as águas da passagem, transformando-a em um frenético turbilhão comparável à correnteza de um rio que desce montanha abaixo.

Para os mergulhadores, a maior beleza da Colúmbia Britânica está no fundo do mar. Afinal de contas, a região submersa abriga mais de 500 espécies de peixes, 600 de plantas marinhas e mais de 5 000 invertebrados. No meio dessa multidão destacam-se alguns gigantes: estrelas-do-mar do tamanho de pneus de caminhão, nudibrânquios com cerca de 30 centímetros de comprimento e polvos com a envergadura de 10 metros e pesando 45 quilos.

Nadando ao longo da face abrigada do recife, passamos por “terraços” de algas marinhas; essas plantas, ricas em tons marrons, vermelhos e verdes, agarram-se ao fundo rochoso. Amontoadas em forma de largas faixas horizontais, parecem ter sido plantadas por um jardineiro submarino. Fixando-se ao fundo com uma espécie de rede radicular em forma de dedos abertos e com a “copa” em forma de um aglomerado de fitas, as algas marrons são geralmente maiores do que as verdes ou vermelhas. Algumas atingem 2 metros de comprimento e oferecem abrigo e alimento para pequenos caramujos, caranguejos, lampreias e filhotes de peixe.

O luxuriante tapete de algas marinhas perde um pouco da intensidade quando nos aproximamos do ângulo mais exposto do recife. Parece que apenas algumas poucas criaturas excepcionalmente bem-adaptadas têm condições de suportar a torrente de água marinha que passa por ali. Não há muita diversidade de espécies nas águas rasas: ali predominam as cracas, os mexilhões azuis e as extensas aglomerações da anêmona chamada Anthopleura elegantíssima – que prolifera também nos canais da costa oeste da Ilha de Vancouver.

 

 

Truques variados para resistir à correnteza

Conscientes do limitadíssimo tempo disponível para as explorações, não podemos tirar muitas fotografias. Protegidos contra a entorpecedora baixa temperatura da água pelas roupas de mergulho, descemos até as lisas ravinas na beirada do recife, maravilhados com a “tapeçaria” viva que se estende diante de nossos olhos. À medida que nos aventuramos mais fundo, a diversidade e abundância de espécies se intensificam visivelmente: a 10 metros, uma colcha de retalhos de esponjas multicoloridas, mexilhões azuis, cracas, corais, ouriços-do-mar, hidróides parecidos com plumas, estrelas-do-mar com longos braços e anêmonas delicadas quase chegam a obscurecer o fundo rochoso. Aqui, os invertebrados não têm formas amplas e extensas. Apresentam-se como espécies compactas, de crescimento limitado, capazes de se agarrarem tenazmente às rochas e fazer frente às poderosas correntes. Usam os mais variados recursos para não serem arrastados pela força das águas: as cracas segregam uma substância adesiva; os mexilhões se fixam por meio de liames naturais de alta elasticidade; já as esponjas enfrentam a vida em meio à correnteza por meio de corpos elásticos e flexíveis que se dobram ao fluxo da água. Outros, ainda, ocultam-se em grutas, tocas e fendas, evitando o impacto direto da corrente.

Criando a ilusão de um jardim inglês abandonado, centenas de anêmonas-dália amontoam-se em cada fenda e ravina. Esses invertebrados, do tamanho de xícaras de chá, são carnívoros, e se alimentam dos animais que a corrente atira ao seu lado. Seus pólipos rajados de verde, ferrugem, rosa ou amarelo agrupam-se lado a lado na parte inferior, criando um felpudo conjunto de tentáculos. Ao longo dos flancos do recife, descobrimos fofos acolchoados de anêmonas plumosas brancas e laranja, e aglomerados de cracas gigantes, com arestas cortantes. Esses crustáceos de conchas espessas banqueteiam-se do plâncton com graciosos movimentos. Espalhados entre as anêmonas e as cracas, vêem-se delgados retalhos de esponjas brancas e amarelas.

 

 

Animais da superfície são encontrados mais no fundo

Utilizando nossas lanternas para examinar as fendas e gretas escuras dos penhascos rochosos, descobrimos criaturas retraídas como caranguejos, camarões e pequenos sculpins, que se escondem da correnteza. Até mesmo peixes maiores, como os peixes-pedra de dorsos espinhentos, habitam essas fendas, às vezes nadando de lado ou até de cabeça para baixo, espremendo-se no espaço limitado. Descemos ainda mais pela face da cordilheira submersa, e já faz mais de dez minutos que iniciamos o mergulho. A maré começou a baixar e, embora o efeito ainda seja quase imperceptível, somos cautelosos e abandonamos o recife antes que a corrente adquira maior velocidade. A essa altura, já nos aproximamos bastante da metade da passagem e nos encontramos 30 metros abaixo da superfície.

Nossas observações confirmam o que já vimos em muitos outros canais varridos por correntes na costa da Colúmbia Britânica: graças ao efeito misturador do turbulento fluxo de água que atravessa os canais, a temperatura e a salinidade são praticamente uniformes em toda a extensão da coluna de água. Na ausência dessas condições, como nas calmas extensões dos fiordes costeiros, as massas de água geralmente se estratificam, ou seja, organizam-se em camadas: a água mais quente e diluída fica em cima da camada mais fria e com maior concentração de sal. A mistura vertical da água no interior dessas passagens altera a arrumação costumeira dos organismos, que geralmente se arranjam em camadas horizontais. Nos canais varridos pela corrente, muitos animais que costumam ser encontrados apenas em águas muito rasas aparecem em um âmbito vertical muito maior, ás vezes a 30 metros de profundidade ou mais.

Ao examinar com minha lanterna um aglomerado de gigantescas cracas, percebo um cintilar de azul no interior de muitas das conchas vazias. Aproximando-me, percebo as vigorosas pinças de vários caranguejos do gênero Lithodes, (cujo nome científico é Oedignathus inermis), crustáceos do tamanho de bolas de golfe que se caracterizam pelas pinças com pintas azuis. Esses caranguejos, difíceis de encontrar, adotam, muitas vezes, a concha vazia da craca gigante como residência, um lar seguro e protegido contra a força da corrente e os predadores. Eles quase não mudam de lugar ao longo da vida, alimentando-se de plâncton, que apanham com movimentos de pernas intensamente franjadas. Ver esses caranguejos de pinças azuis em Sechelt Rapids é uma grata surpresa. Acreditava-se que sua presença restringia-se às praias da costa exposta, onde são encontrados em buracos cavados por ouriços-do-mar ou em outros locais confinados. Observações como essa estão levando os naturalistas a compreender melhor os paralelos entre as características físicas dos canais varridos pelas correntes, em águas protegidas, e as praias batidas pelas ondas, em costas expostas. Ambos os habitats sofrem fortes e às vezes violentos movimentos das águas, têm altos níveis de oxigênio diluído e grande abundância de plâncton.

 

 


Alguns animais não mudam de lugar ao longo da vida

Encantados pela descoberta desses caranguejos e ansiosos para fotografá-los, esquecemos da rápida aceleração da correnteza. As bolhas que exalamos já não sobem em linha reta; em vez disso, são apanhadas pela corrente e levadas rapidamente para baixo. Como estávamos sob o abrigo de uma saliência protetora, fomos apanhados desprevenidos pela rapidez da mudança das condições. É tempo de voltar ao barco. Assim que terminamos de guardar nosso equipamento, Sechelt Rapids já se transformou em um furioso caldeirão de refluxos e redemoinhos; a água espumante movimenta-se violentamente a mais de 16 quilômetros horários. Dentro de algumas horas, a corrente atingirá a velocidade máxima de cerca de 29 quilômetros por hora, e a passagem terá a aparência e emitirá o rugido do desfiladeiro de um rio de montanha.

Mais para o norte está o Estreito da Rainha Carlota, uma ampla extensão de água que separa a extremidade norte da Ilha de Vancouver do continente. Embora meça 19 quilômetros no ponto menos largo, o estreito é raso em toda a extensão, e congestionado de ilhas e bancos de areia. As correntes de maré atingem apenas uma fração da velocidade das de Sechelt Rapids, mas a diversidade da vida marinha talvez não tenha paralelo em águas frias. Por sua proximidade do mar aberto, as águas do Estreito da Rainha Carlota são salgadas, frias e intensamente povoadas de plâncton, uma riquíssima sopa da qual se alimenta uma surpreendente profusão de invertebrados.

Uma das criaturas mais notáveis é o coral esponjoso cor-de-rosa, um carnudo parente daqueles corais que se assemelham a plumas, e dos corais gorgonianos, que se agrupam em colônias de até 30 centímetros de comprimento. Filhotes de ofiúros com múltiplos braços – parentes das estrelas-do-mar – do tamanho de um polegar, e minúsculas aranhas-marinhas castanhas agarram-se a esses corais. Em outros pontos, esponjas cor de mostarda revestem as rochas como uma massa endurecida.

Outras áreas do Estreito da Rainha Carlota oferecem abrigo a delicados “arbustos” do coral gorgoniano rosa e branco, uma espécie que foi descoberta por mergulhadores há apenas alguns anos. Os ofiúros são invariavelmente encontrados em associação com esse coral gorgoniano; as larvas dessa estrela-do-mar parecem acomodar-se diretamente no interior dos ramos ocos do coral. Na extremidade norte do estreito, dois canais dão acesso a Nakwakto Rapids, registrados no Livro Guinness de Recordes como tendo a “mais forte corrente do mundo”.

 

 


Basta a maré baixa para acelerar o ritmo do coração

Com as devidas precauções em relação às correntes Nakwakto, as regiões submersas podem ser exploradas durante a maré baixa. A descoberta mais significativa que os naturalistas mergulhadores fizeram foi a de uma densa população de cracas que possuem espécies de hastes de fixação (essas cracas são comumente vistas em pedaços de madeira no oceano ou em navios naufragados). Encontrados no mínimo a 30 metros de profundidade, esses indivíduos de 10 centímetros de diâmetro, parentes das cracas comuns, eram considerados restritos à zona inter-marés das praias batidas pela rebentação, onde se alimentam estendendo seus apêndices para o refluxo das ondas. Em Nakwakto Rapids, porém, esses coloridos crustáceos são encontrados em incríveis quantidades abaixo de 10 metros, em aglomerados de centenas de indivíduos.

Nada mais emocionante do que um mergulho em uma das passagens varridas por correntes da Colúmbia Britânica. Para os naturalistas e fotógrafos da vida subaquática, é a oportunidade de observar e filmar criaturas jamais vistas, e talvez de lançar um pouco mais de luz no fascinante comportamento desses organismos que vivem na versão natural da “faixa de alta velocidade”.

Texto e fotos de Neil G. McDaniel