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“As ideias dominantes numa época nunca passaram das ideias da classe dominante”, Karl Marx

Karl Marx morreu pobre, esquecido e sem pátria: exilado em Londres, foi velado por apenas 11 pessoas, incluindo o coveiro. Suas ideias, porém, se refletiriam na vida de bilhões durante o século 20. Poucos pensadores exerceram influência política tão clara quanto Marx. Certamente, nenhum foi discutido com tanta paixão — mesmo por leigos. Um pouco disso se deve à missão que Marx julgava ter, hoje estampada em sua lápide: “Os filósofos apenas interpretaram o mundo de várias formas. A questão, no entanto, é mudar o mundo”. Foi com espírito revolucionário que o alemão, junto de seu amigo e financiador Friedrich Engels, lançou o Manifesto do Partido Comunista, em 1848 — texto curto que ainda hoje ofusca sua obra máxima, o muito mais complexo O Capital.

O panfleto conclamava os trabalhadores a se levantar contra a classe dominante, e se afinou com o sentimento da época. Após o Manifesto, no mesmo ano, várias revoluções sociais eclodiriam pela Europa. Quase todas foram esmagadas, mas ajudaram a pavimentar o caminho para reformas sociais. Marx diagnosticou que as mudanças históricas resultam do conflito entre a classe dominante e a dominada. Em sua época, tal antagonismo seria entre a “burguesia” (dona dos meios de produção) e o “proletariado” (que, sem os equipamentos e o dinheiro para produzir, precisa vender sua mão de obra para sobreviver). No pensamento marxista, o capitalismo geraria crises cíclicas que elevariam a pobreza, pois dela se alimentava. Marx acreditava que precisamente isso seria a ruína do sistema: o desenvolvimento aumentava o número de explorados, que por fim se uniriam pela revolução. A consequência seria uma sociedade sem classes, na qual os meios de produção se tornariam propriedade comum.

Para seus críticos, não há dúvidas de que Marx fracassou. A maioria dos países que tentou seguir a doutrina viu seus governos derrubados, como a União Soviética e as nações vizinhas, ou teve de mudar sua economia, como a China. Em nenhum lugar foi possível concluir a transição prevista por Marx, quando o “socialismo” orientado por um grupo de líderes revolucionários daria lugar ao “comunismo”, em que a própria ideia de Estado seria obsoleta. Os admiradores de Marx sustentam que, apesar dos muitos equívocos, algumas de suas análises foram precisas e seguem atuais. No Manifesto, por exemplo, ele havia apontado que a sociedade capitalista mudaria o formato familiar vigente até o século 19. Em 1998, o historiador inglês Eric Hobsbawm (um marxista convicto) escreveu: “Nos países ocidentais avançados, hoje quase metade das crianças é gerada ou educada por mães solteiras”.