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Até quando teremos peixes?

. E 25% das espécies continuam sendo pescadas em volumes maiores que o recomendado.

Luciana Pinsky

Enquanto nos preocupamos com os mamíferos marinhos (focas, golfinhos e baleias), a degradação do ambiente e a superexploração da pesca estão acabando com uma das principais reservas de proteínas à disposição do homem: os peixes. Segundo relatório da Organização de Alimento e Agricultura das Nações Unidas (FAO), o potencial mundial de extração sustentável de peixes dos oceanos – quase 90 milhões de toneladas – já foi alcançado. Nada menos que 50% dos estoques marinhos se esgotaram. E 25% das espécies continuam sendo pescadas em volumes maiores que o recomendado.

“As pessoas às vezes se esquecem, mas pesca é predominantemente extrativista. Apenas 30% da produção mundial de peixes – que alimenta um consumo mundial de quase 10 quilos per capita – vem de aqüicultura, ou das chamadas fazendas marinhas”, diz Roberto Ávila Bernardes, oceanógrafo do Revizee (Programa de Avaliação do Potencial Sustentável de Recursos Vivos na Zona Econômica Exclusiva), projeto de pesquisa patrocinado pelo governo brasileiro. Segundo dados da FAO, o problema é que há barcos demais – grande parte deles dotada de novas tecnologias, como o sonar, para encontrar cardumes – e controle de menos. Por isso, cientistas e a própria indústria da pesca estudam formas de evitar que o abastecimento de peixe entre em colapso. “O que a ciência pode fazer é pouco, mas estamos tentando.

As principais espécies estão sendo monitoradas para obter dados sobre seus ciclos reprodutivos e sobre o ecossistema em que estão inseridas. As informações permitem avaliar inclusive o impacto que a sobrepesca de uma espécie tem sobre outras com as quais interage”, diz Roberto.

Entre as indústrias e os governos, no entanto, é que o bicho pega. A União Européia negocia, desde o ano passado, a redução de 80% na captura de bacalhau, hadoque e pescada – três das espécies cujos estoques estão abaixo da capacidade de reprodução. Falta, ainda, convencer os donos dos barcos pesqueiros.

No litoral brasileiro, a situação não é diferente. Na costa Sul-Sudeste, que concentra a maior parte da produção nacional de pescado, das dez espécies mais procuradas, oito estão sendo retiradas além da capacidade de reposição. Algumas delas já tiveram seus estoques muito diminuídos, como o peixe-batata, a ponto de sua recuperação ser quase impossível. A produção de lagosta também caiu. Há oito anos ela não ultrapassa as 7 mil toneladas anuais, mesmo com um resguardo de quatro meses (janeiro a abril) e o limite mínimo de tamanho permitido. “Nem sempre esse critério é respeitado, o que dificulta a recuperação da biomassa”, diz o engenheiro de pesca Geovânio Milton de Oliveira, da recém- criada Secretaria de Aqüicultura e Pesca.

Outra espécie ameaçada é a sardinha. Caçada em todo o mundo, ela vem sumindo do litoral brasileiro. A produção nacional caiu de 180 mil toneladas anuais, na década de 80, para 30 mil toneladas em 2001, mesmo com a pesca proibida de dezembro a fevereiro.

A sardinha, no entanto, ainda se encontra acima da linha que equilibra a sanha dos pescadores e a velocidade com que o peixe se reproduz. Prova disso é que no Japão, onde ficou livre das redes por três anos – tempo que o ecossistema precisava para se recompor –, a produção de sardinha voltou a crescer e, atualmente, é de 500 mil toneladas. Ou seja: há esperança. Se tomarmos atitudes já.