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Biodversidade em Lagamar, o milagre da sobrevivência

Na região mais densamente ocupada do país, um paraíso serve de berçário à vida do Atlântico Sul e, junto com a Mata Atlântica que o envolve, abriga uma das maiores biodiversidades do Brasil.

Vinicius Romanini, Marcelo Affini

Na lista dos paraísos ecológicos brasileiros, não faltam unanimidades como a Floresta Amazônica, o Pantanal, o Arquipélago de Fernando de Noronha ou a Mata da Juréia, em São Paulo. Dificilmente, porém, alguém se lembraria de incluir nesta listagem uma faixa costeira de 200 quilômetros, entre os municípios de Iguape, em São Paulo, e Paranaguá, no Paraná, conhecida pelo estranho nome de Lagamar. Em 1991, no entanto, quando a Unesco decidiu fazer da Mata Atlântica nos dois Estados a primeira Reserva da Biosfera brasileira, o Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape-Paranaguá — seu nome científico — acabou ganhando um lugar no seleto grupo de santuários ambientais. E, embora ainda não seja uma pérola dos ecologistas, somando-se seus dotes aos da floresta que o envolve, juntos eles concentram o que alguns biólogos consideram uma das mais ricas biodiversidades do país.

Entender a receita que produziu essa fabulosa variedade de vida também não é difícil. Basta pegar uma mata tão verdejante quanto a Amazônica, adicionar os terrenos alagadiços do Pantanal, salpicar uma quantidade de ilhas maior que as de Fernando de Noronha e povoar tudo com bichos raros da Juréia. Resultado: Lagamar, uma mistura de ecossistemas tão diversos quanto florestas tropicais de planície e montanha, manguezais, lagunas, braços de mar, baías, dunas e praias. Cada um desses habitats povoado por plantas e animais não só típicos, mas muitos endêmicos.

Quem entra pela primeira vez no coração verde dessa região litorânea tem a sensação de estar atravessando um túnel do tempo. E a impressão tem um fundo de verdade. Durante séculos, o Lagamar permaneceu praticamente intocado pelo homem, em parte graças aos contrafortes da Serra da Graciosa, em parte pelo dossel compacto da Mata Atlântica, que o envolve desde a serra até o Vale do Ribeira.

Apesar de espremido entre o porto paranaense, Paranaguá, e as praias paulistas do litoral mais cobiçado por empreendimentos turísticos, a natureza sobreviveu incólume, tanto na terra quanto no mar. “O Lagamar é o berçário do Atlântico Sul”, garante a oceanógrafa Yara Schaeffler Novelli, da Universidade de São Paulo (USP). “Em suas águas se reproduzem diversas espécies de peixes e crustáceos, garantindo a sustentação de uma fabulosa cadeia alimentar marinha.” Hoje, pesquisadores estimam em mais de uma centena as espécies de caranguejos, camarões e peixes que utilizam a região para reprodução.

Em terra, onças, capivaras, tamanduás-mirins, macacos muriquis — os maiores das Américas — convivem com animais endêmicos e ameaçados de extinção, como o papagaio-cara-roxa (Amazona brasiliensis) e o precioso mico-leão-caiçara (Leontopithecus caissara). Mas estas não são as únicas espécies em risco encontradas no Lagamar. Lá também vivem o jacaré-de-papo-amarelo e a quase esquecida ariranha-de-planície (Pteronura brasiliensis), parente distante da lontra considerada extinta na Região Sudeste.

A fartura de maravilhas naturais dos 6 000 quilômetros quadrados do Lagamar permaneceu quase ignorada até pouco tempo atrás. A atenção dos biólogos só se voltou para lá quando encontraram uma nova espécie de mico-leão. “Desde então, um número crescente de pesquisadores trabalha na área, trazendo à luz novas revelações”, afirma a bióloga Guadalupe Vivecananda, diretora do Parque Nacional do Superagui, criado pelo governo federal na ilha do mesmo nome em 1989.

Os dados sobre a biodiversidade do Lagamar ainda são preliminares, mas já foram catalogadas até o momento mais de 300 espécies de pássaros. Na floresta, vivem pelo menos 21 mamíferos de grande porte. Quanto aos répteis, anfíbios e insetos, são tantos e tão diferentes que mesmo estudiosos como a zootecnista Márcia Rodrigues, do Instituto de Biociências da USP, admitem não saber identificar todos. “Estamos apenas começando, mas tenho certeza que novas pesquisas vão ampliar muito o nosso conhecimento sobre o número de espécies que habitam a região”, diz ela.

O Lagamar não foi sempre esse paraíso. Até cerca de 12 000 anos atrás, ao fim da última glaciação, a maior parte dele era fundo do mar, inundada pelas águas do oceano. O solo arenoso guarda vestígios dessa época: as manchas brancas que podem ser vistas em meio ao verde da vegetação que beira o mar são na verdade terraços marinhos do passado, restos de conchas acumulados em milhares de anos.

Mais intrigantes ainda são os sambaquis, ou casqueiros, reservatórios parecidos com os deixados pelo mar. A diferença é que eles foram criados pelo homem e acabaram levando para o Lagamar arqueólogos interessados na cultura perdida dos conchófagos.

Talvez tenham sido estes estranhos homens as primeiras testemunhas humanas a pôr os olhos na paisagem que emergiu das entranhas do oceano. Provavelmente, na época o mesmo conjunto de ilhas e ilhotas que ainda hoje caracteriza a região. Algumas se renderam à ocupação humana e sustentam cidades com até 28 000 habitantes, como a Ilha de Iguape e a de Cananéia. Muitas outras, porém, permanecem quase intocadas, como a Ilha do Cardoso, a Ilha do Mel e a Ilha das Peças.

As ilhas são o segredo da fertilidade do Lagamar. É da interação entre o complexo estuarino-lagunar, a Mata Atlântica e o mangue que surge o equilíbrio da vida na região. A convivência entre os três funciona como uma espécie de filtro, voltado basicamente para a preservação dos manguezais. “Embora a Mata Atlântica não dependa dos demais para sobreviver, sem ela os outros dois já teriam sucumbido”, conta o geógrafo e ecologista Aziz Ab’Sáber, um paulista de 69 anos que acaba de ser empossado na presidência da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

A mata se incumbe de reter a areia que, se as encostas fossem nuas, desceria em direção ao mar e, com isso, faz prevalecer no mangue o solo de aspecto lodoso, composto por argila, altamente nutritivo para a vegetação leve, de raízes suspensas, dos manguezais. “Essas condições, porém, não seriam suficientes para formar um mangue. É aí que surge a importância do complexo estuarino-lagunar”, revela Aziz. Manguezais são ambientes híbridos, que não podem ser caracterizados nem como marinhos, nem como continentais. Sem a invasão do mar, portanto, eles simplesmente não existiriam. Mas também sem o dique de ilhas, os mangues seriam varridos pela força do oceano.

Enfileiradas ao longo da costa, as ilhas funcionam como uma barreira natural, obrigando o mar a contorná-las e entrar mansamente pelas frestas. Lá dentro, ele encontra o desaguar de dezenas de rios e córregos e se integra no lodaçal, numa mistura salobra que domina as margens de canais e lagunas de uma das maiores áreas contínuas de mangue do país.

É nas lúgubres regiões de manguezal, com suas árvores retorcidas, pouco oxigênio e muito mosquito, que a matéria orgânica trazida pelos rios se decompõe. Associada ao material fornecido pela vegetação local — folhas e galhos secos —, essa mistura se transforma num caldo rico em proteínas, base da cadeia alimentar não só da fauna marinha, como também de aves como o atobá, a fragata, a garça, ou mesmo do homem, represen-tado no santuário ecológico pelas ralas co-munidades de pescadores caiçaras.

Por causa de sua biodiversidade e seus misté-rios, o Lagamar está se transformando na nova meca dos pesquisadores da natureza. O primeiro estudioso, porém, chegou lá bem antes, em 1554. Em sua segunda viagem ao Brasil, o cronista alemão Hans Staden vinha na expedição do nobre espanhol Don Diogo de Senabrica quando uma súbita tempestade os fez naufragar, lançando-os na costa de Superagui. Staden aproveitou a ocasião e desenhou, num pergaminho, o primeiro mapa da Baía de Paranaguá. De lá para cá, o Lagamar sofreu poucas mudanças. Com suas pesquisas, os ecologistas lutam agora para que ele continue sendo, no futuro, o mesmo paraíso que Staden conheceu há 439 anos.

Para saber mais:

Toda a vida do mundo

(SUPER número 7, não 4)

Pantanal, terra das águas

(SUPER número 9, ano 4)

No rumo das aves migratórias

(SUPER número 4, ano 5)

A multinacional da ecologia

(SUPER número 4, ano 5)

Depois da tempestade vem a vida

(SUPER número 12, ano 7)

Zoológico: a Arca de Noé do futuro

(SUPER número 6, ano 7)

O bicho de pelúcia que virou raridade

Apesar dos esforços, os estudiosos da natureza estão longe de conhecer a totalidade da vida no planeta. O que não se imaginava é que ainda fosse possível achar novas espécies de macacos neste fim de século. Afinal, o parentesco com o homem fez deles o alvo principal da Zoologia moderna. Nos últimos três anos, porém, pelo menos quatro primatas desconhecidos foram encontrados no país. E um deles exatamente no Lagamar. Em 1990, pesquisadoras do Museu de História Natural de Curitiba descobriram ali o mico-leão-da-cara-preta ou mico-leão-caiçara (Leontopithecus caissara), quarta espécie brasileira da família.

O novo mico-leão saiu do anonimato graças a um curioso episódio. Ele é, na verdade, um antigo conhecido dos habitantes do Lagamar, que o chamam de mico-da-cara-suja. Alguns zoólogos já tinham ouvido suas histórias em andanças por lá, mas nunca haviam avistado um espécime. Isso só aconteceu quando um menino morador da Ilha do Superagui, no Paraná, apareceu arrastando um estranho bicho de pelúcia. O brinquedo era um mico-leão-caiçara empalhado, que a criança ganhara do pai.

O novo primata se tornou uma preciosidade científica. Os poucos vistos estavam em matas de até 200 metros acima do nível do mar. Para delimitar com exatidão as áreas de ocorrência do mico, a zootecnista Márcia Rodrigues, da USP, pesquisa há três anos seus hábitos. Nesse período, localizou bandos de até oito na divisa de São Paulo com o Paraná. “Minha luta é pela criação de uma estação ecológica no local”, afirma. “Assim teremos a garantia de que toda a vida ali será protegida e devidamente estudada.” Enquanto espera pelo reforço, o Parque Nacional da Ilha do Superagui garante a preservação dos raros animais.

As quatro espécies de mico-leão brasileiras (as demais são o preto, o dourado e o de-cara-dourada) estão ameaçadas. Mas o do Lagamar subiu rapidamente de cotação e foi reconhecido como “raridade primatológica contemporânea” em 1990, durante um congresso mundial em Belo Horizonte. Para os estudiosos presentes ao encontro, patrocinado pelo Ibama e por organizações internacionais como o WWF (World WidLife Fund for Nature) e a Smithsonian Institution, as pesquisas apontam uma densidade populacional muito baixa da espécie, pouco mais de setenta. Além disso, não existem animais em cativeiro para a reprodução e repovoamento das matas. O único do qual os pesquisadores se aproximaram foi um domesticado pelos ín-dios carijós, que vivem em Superagui.

Os pescadores pré-históricos que chegaram depois do frio

A exuberância da natureza não é o único tesouro do Lagamar. Sob a terra — ou mesmo em grandes manchas de calcário visíveis na base das montanhas —, ele guarda também uma riqueza de caráter arqueológico: os sambaquis, toneladas de conchas acumuladas não pela natureza, mas por misteriosos homens que habitaram a região há milhares de anos. Chamados de conchófagos ou sambaquieiros, eles se alimentavam basicamente de moluscos ou frutos do mar, e os sambaquis nada mais são do que depósitos de refugos de sua alimentação. “A estimativa é de que essas populações se fixaram na região entre os anos 4000 antes de Cristo e 1000 da nossa era”, revela o biólogo Levy Figuti, doutor em Arqueologia que trabalha para o Museu de Arqueologia e Etnologia da USP. Desde 1988, Figuti pesquisa as culturas antigas da região.

Formados por restos de conchas, crustáceos, utensílios de pedra e até esqueletos humanos, os sambaquis chegam a ter 5 metros de altura por 100 metros de comprimento e têm ajudado os arqueólogos a entender melhor o povoamento desta parte da América. Provavelmente, os conchófagos eram migrantes e partiram dos trópicos em direção às extremidades do continente após a última glaciação, acompanhando o degelo do planeta e o lento ressurgimento da flora e da fauna nas regiões de maior latitude.

É quase certo que tenham vindo do norte, desde a Amazônia, pois guardam as mesmas características asiáticas dos índios brasileiros, com uma única diferença marcante: eram mais robustos e tinham maxilares maiores. “Pelo que sabemos, esses povos tinham em seus dentes seu principal instrumento de trabalho”, afirma a professora Dorath Pinto Uchôa, arqueóloga da USP, que há quinze anos estuda os sambaquieiros. Eles não dominavam a agricultura ou a cerâmica e fabricavam utensílios bastante rudimentares. Suas tribos não deviam ultrapassar o número de 200 indivíduos, organizados em núcleos familiares, e todos dependiam profundamente da oferta de alimento dos mangues e estuários para sobreviver como extrativistas.

Ninguém sabe exatamente como desapareceram. A hipótese mais aceita, porém, é de que tenham sido afugentados para o interior com a chegada de novos indígenas ao litoral. Ou, então, assimilados culturalmente por esses índios, muito mais adiantados. Os tupinambás e guaranis encontrados pelos europeus nas costas do Brasil não só já conheciam técnicas agrícolas e de guerra, como se organizavam em poderosas comunidades de até 2 000 pessoas.