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Cavucando o lixo

Um grupo de cientistas abnegados vasculha dejetos para desvendar nosso comportamento.

Texto Flávia Ribeiro e Fábio Varsano

Não, não se trata de procurar o santo graal ou a arca que guardaria as tábuas com os 10 Mandamentos – objetos do desejo do professor Henry Jones Jr., que atende pelo apelido de Indiana e é o mais famoso arqueólogo do cinema. Muito menos de tentar encontrar ossos de dinossauros, objetos pré-históricos, múmias ou moedas ancestrais. Para um pequeno e abnegado grupo de pesquisadores, a palavra arqueologia tem hoje significado mais amplo que o dos dicionários – segundo o Houaiss, por exemplo, é a “ciência que, utilizando processos como coleta e escavação, estuda costumes e culturas dos povos antigos através do material (fósseis, artefatos, monumentos etc.) que restou da vida desses povos”. Com as mesmas técnicas científicas, eles também procuraram desvendar o comportamento de uma comunidade estudando os restos. Só que precisam ter algo a mais: estômago e olfato resistentes para, em vez de buscar relíquias em ruínas ou cavernas, fazer suas descobertas sobre a sociedade atual fuçando latas de lixo ou se embrenhando em grandes aterros.

Esse ramo peculiar da arqueologia, em que o tesouro perdido pode ser um pedaço de plástico ou uma folha de alface, já possui até definição própria em inglês: garbology, junção das palavras garbage (“lixo”) e archeology (“arqueologia”). Desde 1990, o termo passou a constar no Oxford English Dictionary e em seguida foi incluído em outros dicionários. Foi a oficialização de uma especialidade que começou a ser difundida como ciência a partir de 1973, quando o americano William L. Rathje, estudioso da Pré-História e da cultura maia, fundou na Universidade do Arizona o Garbage Project, ou Projeto do Lixo. “A história de nossa civilização é contada a partir de potes e panelas quebradas. Tudo o que sabemos vem do que os antigos jogavam fora”, costuma dizer Rathje em suas aulas, encurtando a distância entre a arqueologia tradicional e a do lixo.

O arqueólogo conta que uma das inspirações para criar o projeto foi uma entrevista que assistiu na TV, dois anos antes, de um catador de latas da cidade de Kenwood, na Califórnia: “Ele não era simplesmente um gari, mas um cronista do estilo de vida da vizinhança onde trabalhava, preocupado com desperdício e reciclagem”. Inicialmente, Rathje levou os alunos a coletar objetos em latas de lixo domésticas em Tucson, cidade do Arizona onde fica a universidade. Depois de classificar o que era jogado fora, o grupo começou a analisar os hábitos alimentares e de consumo dos americanos.

Entre as informações preciosas compiladas está a de que 15% da comida comprada acabava no lixo. Entrevistas indicaram que esse desperdício era muito maior do que o percebido pelas próprias famílias. Também foi possível concluir que, quanto mais locais de coleta o americano tinha à disposição, maior era o volume de produtos descartados. Ou seja: papelada mofada, brinquedos velhos, aparelhos quebrados, tudo o que está escondido num canto qualquer só vai desentulhar a casa se houver algum lugar próximo onde deixá-lo.

Ainda nas avaliações das sobras domésticas, os “lixólogos” descobriram que, em tempo de escassez de determinado alimento no mercado, ele é comprado em maior quantidade e acaba estragando. Os pesquisadores comprovaram essa tese ainda em 1973, quando faltou carne no mercado americano. Nas latas de lixo, curiosamente, foram encontradas 3 vezes mais peças de carne do que em outras épocas. Ao que parece, com medo de ficar sem seu bifinho, muitos consumidores acabaram comprando muito mais do que seriam capazes de comer.

A partir de 1987, com uma equipe que já contava com estudantes e profissionais de microbiologia, química, engenharia e antropologia, chegou a hora de Rathje enfrentar um desafio maior – e também mais assustador e malcheiroso: mergulhar nos lixões das grandes cidades. Em 12 anos, foram escavadas, separadas, classificadas e analisadas mais de 30 toneladas de dejetos de 15 aterros dos EUA, Canadá e México. A conclusão de Rathje – apresentada no livro Rubbish: The Archeology of Garbage (“Refugo: A Arqueologia do Lixo”), escrito em parceria com o jornalista Cullen Murphy –, depois de escarafunchar tanta imundície, não parece nada genial: “Nós não necessariamente sabemos muitas coisas que achamos que sabemos”. Parece uma obviedade, mas, ao concluir que várias certezas que temos hoje não são tão verdadeiras, os “lixólogos” colocam em dúvida diversos dogmas da cartilha ambiental.

Para começar, as mães não precisam ter dor na consciência e achar que são as grandes vilãs da natureza ao cobrir os bumbuns de seus bebês com fraldas descartáveis – essas peças demoram para se degradar, mas não são as responsáveis por entupir os depósitos. Nos EUA, fraldas e recipientes térmicos de cadeias de fast food representam, juntos, menos de 2% do lixo acumulado nos aterros. Não é preciso, portanto, retornar às velhas fraldas de pano – cujo processo de lavagem, por sinal, desperdiça bastante água.

Rathje e sua equipe verificaram também que as tão criticadas sacolas plásticas ocupam um espaço 80% menor do que os de papel. “Se tivesse uma varinha mágica e fizesse desaparecer esses objetos da noite para o dia, os trabalhadores dos aterros nem notariam”, disse o arqueólogo ao The New York Times, referindo-se às fraldas e às sacolas plásticas. Outro dado surpreendente: os papéis representavam mais de 40% de tudo o que havia sido coletado pelos arqueólogos do lixo. Descobertas como essas ajudaram a orientar campanhas de reciclagem, apontando problemas antes desconhecidos.

Durante as escavações no aterro de Fresh Kills, em Staten Island, nos arredores de Nova York, no início da década de 1990, Rathje ficou pasmo ao encontrar páginas de jornal da década de 1940 em bom estado. Não pelo valor histórico dos documentos, mas por se tratar de relíquia “garbológica”. Como um material de rápida degradação estava conservado em um ambiente insalubre como aquele? Antes que a resposta pudesse ser dada, houve novas surpresas: um cachorro-quente que já completava 40 anos e um guacamole (prato mexicano feito com abacate) de 1967 foram encontrados ainda inteiros, em excelente estado de conservação – como as múmias do antigo Egito descobertas por arqueólogos tradicionais.

“A verdade é que, dependendo das condições de umidade, temperatura e iluminação de determinado ponto da montanha de lixo, materiais orgânicos não ficam expostos a fatores externos e não se degradam como esperado”, diz o engenheiro e arqueólogo André Wagner Oliani Andrade, pioneiro na arqueologia do lixo no Brasil e autor de uma tese sobre o assunto para o Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE) da USP. Durante 3 anos, Andrade realizou um trabalho inspirado no Garbage Project no já desativado aterro de Volta Fria, em Mogi das Cruzes, região metropolitana de São Paulo, e tirou conclusões parecidas com as dos colegas americanos. Em 2004, achou enterrado a 6 metros de profundidade um pedaço de bisteca, datado de pelo menos 5 anos antes, com cheiro, cor e textura preservados. “Parecia que aquela peça não havia sofrido a ação do tempo, mas quando chegou ao laboratório ela se decompôs rapidamente”, diz Andrade.

Tanto nos EUA quanto no Brasil, a quantidade de comida e outros materiais orgânicos recolhidos ficou entre 6 e 7%. Ao analisar os grupos de alimentos mais comuns no aterro de Volta Fria, Andrade descobriu curiosidades inquietantes – ao menos hoje, quando a preocupação com a obesidade está na ordem do dia – sobre os hábitos dos moradores da região. Em 1º lugar, ficaram os açúcares (chocolate, bala, refrigerante), com 27% do total, seguidos dos produtos de panificação (pão, bolo, biscoito), com 21%, e dos lácteos (leite, queijo, iogurte), com 14%. E, em uma classificação mais detalhada, o item que apresentou maior incidência foi refrigerantes, com 3,3% do total.

Os estudo mostram que, se o “comportamento” dos dejetos é semelhante nos dois países, a composição do que é lançado nos aterros é bem diferente. Dos 14 693 itens coletados e identificados por Andrade e sua equipe de 45 pessoas, 61,5% eram plásticos, que costumam demorar dezenas de anos para se degradar, mas que em alguns casos apareceram bastante deteriorados. Um percentual muito superior aos 12% dos depósitos americanos. Papel, que nos EUA era o produto mais encontrado, só representou 8% do universo pesquisado em Mogi. Como a maior parte da papelada recolhida nos lixões dos EUA era composta de jornais e listas telefônicas, os números parecem refletir o maior hábito de leitura dos americanos. Ou seja, até no lixo o Brasil ainda tem o que melhorar.

Um obcecado pelo lixo de Bob Dylan

Embora a palavra garbology tenha adquirido significado científico com a pesquisa da Universidade do Arizona, quem difundiu o termo – e jura tê-lo inventado – foi o escritor e ativista político A.J. (Alan Jules) Weberman. Militante do movimento de contracultura Yippie (Youth International Party, ou Partido da Juventude Internacional), ele era um tresloucado fã do cantor Bob Dylan. Em 1969, proclamou-se “a maior autoridade mundial em Dylan” ao publicar um estudo sobre as letras do ídolo, em que reinterpretava o sentido das canções, associando-as ao uso de drogas. No ano seguinte, Weberman passou a perseguir Dylan, exigindo que ele assumisse uma posição mais firme contra a Guerra do Vietnã e retornasse às músicas de protesto. Começou também a cavucar a cesta de lixo de Dylan e a comandar manifestações em frente da casa do ídolo, em Nova York. “Você é um porco. Eu luto!”, disse ele ao astro, que rebateu: “É, você luta para se enfiar na minha lixeira”. Cansado da perseguição, um dia o cantor partiu para cima do fã no meio da rua. Na lixeira de Dylan não havia nada de incomum. Mesmo assim, Weberman repetiu a experiência vasculhando o lixo de celebridades como o ex-presidente Richard Nixon e o escritor Norman Mailer.

O que foi achado nas escavações

ANTIGAMENTE

Piso alto

Na lendária cidade de Tróia, na atual Turquia, o lixo era acumulado pelos moradores dentro das casas e periodicamente coberto por entulho. Com isso, a altura do piso das casas crescia, em média, 1,43 metro por século.

Poema grego

Os arqueólogos Bernard Grenfel e Arthur Hunt escavaram a cidade de Oxyrhychus, no Egito, em 1897 e encontraram algumas preciosidades, como papiros do século 7 a.C. e poemas de Píndaro, poeta grego dos séculos 5 e 6 a.C.

Reciclagem

Já em 2500 a.C., os nabateus – beduínos da Mesopotâmia – reaproveitavam o lixo para adubar as plantações. Os antigos maias reciclavam cacos de cerâmica e material de construção.

Fruto do mar

No Brasil, sabemos um pouco sobre os hábitos alimentares saudáveis de tribos que habitaram a costa de 8000 a 2000 a.C graças às concentrações de sambaquis, depósitos fossilizados de conchas de mariscos.

HOJE

Xô, lixo

Se todo o lixo produzido em Manhattan fosse espalhado pelo chão, a ilha se elevaria também 1,43 metro por século. Não há esse risco porque ninguém mais guarda o lixo em casa – prefere mandar para bem longe.

Notícia velha

Não são papiros, mas, sim, papéis o tesouro encontrado pelos “lixólogos” atuais. Jornais com mais de 40 anos foram encontrados em bom estado nos EUA, ainda legíveis. Mas quem quer ler notícia velha?

Desperdício

A reciclagem está na ordem do dia, mas é menos realizada do que deveria. Nos EUA, as escavações dos arqueólogos do lixo apontaram o papel como o principal foco para eliminar a cultura do desperdício.

Guloseimas

Os produtos alimentares mais encontrados pelos arqueólogos brasileiros no lixão de Volta Fria, em Mogi das Cruzes, são açúcares (chocolates, balas, refrigerantes), com 27% do volume total.

Para saber mais

Rubbish: The Archeology of Garbage

William L. Rathje e Cullen Murphy, University of Arizona, 2001.