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Com a falta de água, talvez a solução seja importar icebergs. Vai gelo aí?

A engenharia naval mundial está estudando o reboque de icebergs para localidades com falta d´água.

Ricardo Arnt

Do jeito que a falta d’água se agrava no planeta, a alternativa pode ser… importar icebergs. Hoje, a operação tem qualquer coisa de mirabolante. É muito cara. Mas é viável. Do mesmo jeito que reboca massas de gelo para longe de plataformas de petróleo, a engenharia naval poderia transportar icebergs para regiões que sofrem com a seca. Veja como seria essa aventura.

Por Ricardo Arnt

O transporte de icebergs já atraiu a atenção de vários pesquisadores. A Sociedade Glaciológica Internacional, o Scott Polar Research Institute, na Inglaterra, e o Laboratório de Engenharia e Pesquisa de Regiões Frias, do Exército dos Estados Unidos, fizeram diversos estudos. Os países árabes do Golfo Pérsico financiaram projetos. Mas ninguém, até hoje, tentou, de fato, levar uma montanha gelada para acabar com a falta d’água em alguma região seca da Terra.

Na maioria das pesquisas, sugere-se capturar icebergs nos mares de Weddell e Ross, na Antártida, e rebocá-los, aproveitando-se as correntes marítimas, primeiro até as Ilhas Falkland, no sul da Argentina. Apesar desse impulso natural, o começo da viagem é o mais perigoso. O mar que vai do Pólo Sul até a altura das Falkland é um dos mais ferozes e conturbados do planeta.

O imenso bloco de gelo deve ser muito bem amarrado por um vasto sistema de redes e cabos e preso a um comboio de rebocadores. A velocidade de tração terá que ser lenta para não aumentar o degelo com a fricção produzida pelo deslocamento: menos de 4 quilômetros por hora. Como o iceberg é formado por sucessivas capas espessas de neve, corre o risco de se partir a qualquer momento.

A glaciologista norte-americana Jeeny Wood, autora do livro The Icebergs, propôs a instalação de uma tripulação de três pessoas em uma cabine de metal à prova de tempestades, encravada na superfície do bloco gelado. Caberia a esses gelonautas testar as âncoras das amarras, ler os instrumentos que medem as tensões do gelo e transmitir dados via satélite. Um helicóptero garantiria a retirada de emergência dos tripulantes se o colosso ameaçasse romper-se.

Para atravessar as águas mais quentes dos oceanos Atlântico e Índico, as esquinas da montanha teriam que ser cobertas com um produto que as protegesse do sol para evitar o derretimento, ou ao menos mantê-lo dentro de limites aceitáveis. Os técnicos calculam que essa cobertura seria necessária, mas não sabem do que ela seria feita.

Com o calor, o degelo formaria um lago em cima do gigante. Mas se supertanques fossem usados como rebocadores, a água poderia ser absorvida por mangueiras. Se o derretimento ameaçasse a estabilidade do bloco, uma instalação de alarme informatizada libe-raria as amarras automaticamente.

Naturalmente, isso aumentaria o custo do transporte. “Tudo depende do quanto se está disposto a investir”, diz o glaciologista Jefferson Cardia Simões, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e do Programa Antártico Brasileiro. “Embora cara, a dessalinização da água do mar é bem mais barata do que a captura de icebergs. Mas se não soubermos preservar as fontes d’água que estão acabando mesmo, os icebergs terão de ser considerados no futuro”.

Para o transporte, a forma é fundamental. Os icebergs da Antártida , onde é comum a configuração tabular (retangular, como tábuas), são mais apropriados do que os do Ártico (Pólo Norte), de estrutura irregular e difíceis de rebocar. Além disso, o Ártico é um mar com uma capa gelada de 2 a 4 metros de espessura, enquanto que a Antártida é um continente, com uma vez e meia o tamanho do Brasil, e uma cobertura de 1 500 a 5 000 mil metros, feita de neve acumulada até há 1 milhão de anos, onde concentra-se 90% do gelo do planeta.

Mesmo descartado o Pólo Norte, a Antártida pode abastecer os 232 milhões de habitantes de 26 países flagelados pela seca. Mas a água é um recurso mineral e o Protocolo de Madrid decretou, em 1991, uma moratória de 50 anos na exploração do continente. Todos os países signatários do Tratado Antártico estão proibidos de agir até o ano 2041.

Enquanto isso, os icebergs passeiam como senhores dos mares antárticos. Todo ano, surgem cinco mil novos, na periferia do continente, com 1 450 a 1 800 quilômetros cúbicos de água. Eles se formam porque “a partir dos sessenta metros de espessura, o gelo antártico começa a fluir pela ação do seu próprio peso”, explica Cardia Simões. “Esse processo ocorre devido à deformação interna causada pelo deslizamento dos cristais. Como o gelo é mais espesso no centro do continente, ele flui para a periferia constantemente”. Quando chega à costa ele flutua e é quebrado pelas marés.

Regiões secas do Hemisfério Sul, como o norte do Chile, o oeste da Austrália e o oeste da África, poderiam ser beneficiadas com maior facilidade por essas montanhas flu-tuantes. Jeeny Wood calcula que um iceberg de 1 000 metros de comprimento (dez quarteirões) por 500 metros de largura levaria seis meses para chegar até a árida cidade de Perth, na Austrália. Chegaria com a metade do tamanho. Mas o restante bastaria para suprir l milhão de pessoas, durante um ano. Para levá-lo até o Hemisfério Norte os problemas são mais complicados. Para o Brasil, apesar da seca do Nordeste, a medida é totalmente dispensável. O país tem uma das maiores ofertas de água do mundo.

Para saber mais:

Clara água, cara água

(SUPER número 5, ano 9)