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Derrame negro

Quatro horas bastaram para inundar de óleo a Baía de Guanabara. Serão necessários vinte anos para a natureza voltar ao que era.

Denis Russo Burgierman, do Rio de Janeiro

No dia 18 de janeiro, um cano da Petrobras, comido pela ferrugem, rompeu-se e deixou escapar 1,3 milhão de litros de óleo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro. A maré estava alta. Quando baixou, horas depois, as raízes das árvores do manguezal que circunda boa parte da baía estavam pintadas de preto. Caranguejos e aves marinhas agonizavam, sem poder respirar.

O vazamento durou 4 horas. Mas algumas das espécies animais e vegetais do mangue, que ocupa uma área de 70 quilômetros quadrados, poderão levar até vinte anos para se recuperar inteiramente. É que esse ecossistema, fundamental como fornecedor de alimento para todos os seres do oceano, é muito frágil. A SUPER foi até lá conferir a extensão dos danos para, com a ajuda de biólogos e veterinários, mostrar como será a lenta e sofrida volta da natureza ao seu estado normal.

Quatro piscinas de petróleo

Imagine uma piscina semi-olímpica, daquelas que se vêem nas boas escolas de natação. Agora tire toda a água de dentro e a encha de petróleo. Negro, grosso, feio. Derrame tudo sem dó sobre o extenso manguezal que cobre boa parte das margens da Baía de Guanabara e repita a operação três vezes. O efeito vai ser o mesmo do vazamento de 18 de janeiro.

“Asfaltaram o manguezal”, comentou o biólogo Mário Moscatelli, que trabalha na Secretaria Estadual do Meio Ambiente do Rio de Janeiro, quando chegou ao local da tragédia. “O sistema de raízes está completamente impermeabilizado”, constatou. Isso quer dizer que as árvores afetadas tornaram-se incapazes de absorver oxigênio e nutrientes. Sem comida, as folhas vão cair. Em poucos meses, os galhos estarão pelados. Incapazes de fazer fotossíntese, fatalmente as plantas morrerão. “Se algumas sobreviverem, ficarão vulneráveis ao ataque de insetos”, diz Moscatelli.

A situação dos bichos é dramática. Naquele mesmo dia, milhares de biguás e caranguejos tiveram o corpo coberto de óleo. A maioria morreu em poucos dias, sem conseguir respirar. Outros, menos afetados, vão se intoxicando aos poucos, enquanto comem folhas e bichos contaminados. “Não temos números precisos, mas com certeza morreram mais de 1 000 aves”, contabiliza Valéria Ruopollo, veterinária da Universidade Federal do Rio Grande, no extremo sul do país, que esteve no Rio para ajudar a limpar os animais.

Para os crustáceos foi ainda pior. “Estávamos justo na época de desova do caranguejo, do siri e do camarão”, diz o biólogo Jorge Eduardo Santos Paes, da Universidade Salgado de Oliveira, de São Gonçalo, especialista na ecologia da região. Se morreram milhões de bichos, muitos mais deixarão de nascer, um golpe pesado na população das espécies ali alojadas.

Não bastasse tudo isso, o vazamento ainda veio a ocorrer justo na lua cheia. “Nesse período, a maré sobe mais, o que ajudou a espalhar a sujeira”, lamenta Ernani Capilé, também biólogo da Universidade Salgado de Oliveira. “Em alguns pontos, o petróleo avançou 80 metros para dentro do manguezal.” Difícil imaginar um cenário mais desolador.

Tragédia no mangue afeta o oceano

Se você está impressionado com a desgraça, saiba que é só o começo. A destruição do manguezal trará problemas para toda a Baía de Guanabara e até mais além (veja abaixo). “Dois terços dos peixes marinhos dependem dos mangues”, avalia Moscatelli.

Nesses ecossistemas deságuam muitos rios. A mistura da água doce com a salgada cria condições para o crescimento das árvores. E são elas que tornam o lugar especial. As raízes aéreas viram esconderijo para ovos e filhotes de peixes. As folhas que caem na água suprem de comida o mar inteiro. “Elas alimentam protozoários, fungos e bactérias, enchendo o oceano de matéria orgânica”, conta Capilé.

Óleo escaldante

Além de ficarem privadas desses novos micro-habitantes, as águas perderão muitos dos que já estavam por lá. Não só pela toxicidade do óleo mas também porque sob o sol ele atinge temperaturas bem mais altas do que a água. Chega a 60 graus Celsius, fritando os plânctons, animais e vegetais microscópicos que alimentam milhares de espécies direta ou indiretamente. Inclusive o homem. “A pesca será muito prejudicada. A população que vive do caranguejo vai ter que se mudar de lá”, alarma-se Moscatelli.

É um fato consumado. Não há o que fazer. Passada a emergência, quando foram colocadas bóias de contenção para evitar que o petróleo se espalhasse ainda mais e voluntários recolheram animais para limpá-los, só resta esperar. “Vamos testar alguns solventes para tentar limpar as raízes”, diz Capilé. “Mas teremos que usar em pequenas quantidades porque as substâncias químicas também são nocivas.” A SUPER procurou a Petrobras, mas a empresa não quis se pronunciar por não ter concluído um estudo sobre o tempo necessário para a recuperação da baía. Uma coisa é certa. Infelizmente, vai demorar bastante

Algo mais

Malcheirosos e barrentos, os manguezais sempre foram considerados inúteis. Vários deles acabaram cobertos de areia e transformados em loteamentos. Só nas últimas duas décadas, sua imensa importância foi reconhecida. Dos 25 000 quilômetros de mangues que o Brasil tinha quando foi descoberto, restam cerca de 35%.20 anos

Castigo demorado

Durante duas décadas, o número de árvores da espécie Rizophora mangle, o mangue-vermelho, será muito reduzido.

Sufoco

As raízes externas têm poros que tiram oxigênio do ar. O óleo entra neles, intoxica a árvore e impede-a de respirar. A morte é certa.

Brotos inúteis

O vazamento veio na pior hora: a da reprodução. O óleo gruda nas sementes e impede a germinação.

Em condições normais, as sementes do mangue-vermelho caem na água e bóiam até a maré baixar.

Quando ela baixa, suas raízes se enfiam no chão e brotam. Com o vazamento, nada disso acontecerá.20 anos

Morte precoce

Milhões de caranguejos morreram. As espécies que comem folhas, como a Goniopsis cruenta, só se recuperarão quando a flora voltar ao normal.

O óleo cola as brânquias dos crustáceos. O oxigênio não tem por onde entrar. Sem respirar, os bichos morrem por asfixia.

Como era época de desova, cada fêmea carregava até 80 000 ovos no abdômen, que ficarão colados e não se desenvolverão. Normalmente perde-se 97% da prole. Desta vez a perda será total.5 anos

Sem agasalho

Os biguás, que mergulham para pescar, acabam cobertos de óleo preto. Os que escaparem terão de caçar em outras bandas. Levará meia década até que a população desses bichos se recupere.

As penas das aves formam pequenos colchões de ar, que são muito importantes porque mantêm o bicho aquecido. O óleo gruda nelas, expulsando o ar. Sem isolante térmico, o biguá morre de frio.3 anos

Agonia

Os peixes que habitam o fundo, como os bagres, dependem dos nutrientes do manguezal. Levará um ano para o solo submarino ficar limpo e mais dois para a população voltar aos números de antes.

Se não morrer de entupimento nas guelras, as vias respiratórias, o bagre fica condenado a perecer lentamente. Como se alimenta de nutrientes do lodo, o óleo vai se acumulando aos poucos nos órgãos.2 anos

Intoxicação

Como as garças não mergulham, se recuperarão mais rápido. Mas também sofrerão com a intoxicação alimentar.

Caso a contaminação seja muito grande, o sistema nervoso é atingido. Nesse caso, a ave morre.

O óleo ingerido acumula-se no sistema digestivo. Causa hemorragia no estômago e no intestino, além de diarréia.

Creche e restaurante

Entenda a importância do manguezal para a baía inteira.

A parte mais pesada do petróleo irá se depositar no fundo, onde ficará por meses contaminandoDurante o ano todo, caem folhas dos mangues, que ficam boiando na superfície.

As folhas caídas são quebradas em pedaços pequenos e alimentam fungos, bactérias e planctons, que se tornam as principais fontes de alimento do mar.

A parte submarina das raízes aéreas do mangue funcionam como berçário onde os filhotes indefesos escondem-se de predadores. Sem elas, muitos morrerão.

Sem as árvores, a baía fica mais vulnerável à poluição. É que as raízes dos mangues seguram o lixo trazido pelos rios.

A falta de nutrientes espantará os peixes. Os pescadores terão que ir atrás.

A parte mais pesada do petróleo irá se depositar no fundo, onde ficará por meses contaminando os peixes.

O óleo cobre a água e barra a luz solar. Os microrganismos que dependem do sol para a fotossíntese ficam sem comida.

As rochas, cobertas de preto, esquentam demais. O calor mata microrganismos e espanta aves que não podem pousar nelas.