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Efeito Estufa e Aquecimento Global: O fim da Natureza

O mais assustador na nova natureza que o homem está construindo é sua imprevisibilidade pois o aquecimento da Terra provocado pelo efeito estufa acaba com a regularidade do mundo natural.

 

O nível está aumentando ao ritmo de 1 por cento ao ano. O fato singelo é que o ar ao nosso redor — mesmo onde é limpo, recende a primavera e está povoado de pássaros — mudou significativamente. Alteramos substancialmente a atmosfera terrestre. E isso vai mudar a vida de cada um de nós. Quando o dióxido de carbono (ou a combinação equivalente de dióxido de carbono e outros gases de estufa) dobrar em relação aos níveis pré-Revolução Industrial, a temperatura média global aumentará, de 1,5 a 5,5 graus centígrados. Uma idéia pode tornar-se extinta assim como um animal ou uma planta. A idéia, no caso, é “natureza” — a província selvagem, o mundo à parte do homem sob cujas regras ele nasce e morre. É cedo ainda para dizer exatamente quão mais forte o vento irá soprar, quão mais quente o Sol irá brilhar. Isso fica para o futuro. Mas os seus significados já mudaram. A idéia de natureza não sobreviverá à nova poluição global — o dióxido de carbono, o metano e assemelhados. Privamos a natureza de sua independência e isso é fatal ao seu significado. A independência da natureza é o seu significado. É verdade que esta não é a primeira enorme ruptura da história do globo. Há cerca de 2 bilhões de anos, a proliferação de um tipo particular de cianobactéria causou um aumento de oxigênio na atmosfera de uma parte por milhão para cinco. “Essa foi de longe a maior crise de poluição que a Terra já suportou”, escreveu a microbiologista Lynn Margulis.Pode-se argumentar: a crise atual também é “natural”, visto que o homem é parte da natureza. Mas este é um argumento semântico.

Quando digo que acabamos com a natureza, não estou afirmando que os processos naturais tenham cessado mas que fizemos cessar aquilo que — pelo menos nos tempos modernos — definiu a natureza para nós: sua separação da sociedade humana. Um motivo pelo qual não prestamos especial atenção ao mundo natural, separado e ao nosso redor, é que ele sempre esteve ali e presumimos que sempre estará. À medida que desaparece, sua importância básica torna-se mais clara. Acima de tudo o mais, o mundo exibe uma ordem adorável, confortadora na sua complexidade. E a parte mais atraente dessa harmonia talvez seja a sua permanência — o sentido de que somos parte de algo cujas raízes se estendem quase desde sempre e seus galhos avançam tanto quanto. A nova natureza de nossa autoria pode não ser previsivelmente violenta. Ela não será previsivelmente nada e vamos precisar de muito tempo para estabelecermos nossa relação com ela, se é que o conseguiremos. A característica saliente dessa nova natureza é sua imprevisibilidade, assim como o traço característico da velha natureza era a sua confiabilidade. Não estamos necessariamente condenados a sofrer algum cataclismo, mas não podemos mais supor que não estejamos condenados. A própria incerteza é o primeiro cataclismo e talvez o mais profundo.

A mais falada conseqüência específica do aquecimento global é provavelmente o esperado aumento do nível do mar como resultado do derretimento polar. Mesmo que nada se derretesse, o acréscimo de calor elevaria consideravelmente o nível do mar. Água quente ocupa mais espaço do que água fria; a expansão térmica, dado um aumento global de temperatura entre 1,5 e 5,5 graus, deve elevar o nível do mar em 30 centímetros. Já é amplamente aceito que o nível do mar vai elevar-se significativamente ao longo das próximas décadas. A Agência de Proteção Ambiental, dos Estados Unidos, estimou uma elevação entre 1,50 e 2,10 metros por volta do ano 2100. Ao longo do século, a elevação no nível global do mar será superior a 90 centímetros. Isso significa que o mar alcançará uma altura sem precedentes na história da civilização.Dióxido de carbono e outros gases de estufa vêm de toda parte; portanto, a situação que eles criam só pode ser corrigida corrigindo-se tudo. Pequenas substituições e consertos rápidos não constituem solução. O tamanho e a complexidade do sistema industrial que construímos tornam fisicamente difíceis mesmo pequenas correções de curso. Sem uma população estática, até mesmo as metas mais imediatas e óbvias, como retardar o desflorestamento ou reduzir o consumo de combustíveis fósseis, parecem remotas. O efeito estufa é freqüentemente comparado à destruição da camada de ozônio, outro exemplo de poluição atmosférica com implicações globais. Mas a destruição da camada de ozônio pode ser e provavelmente será resolvida quando cessarmos de produzir as substâncias químicas que atualmente a destroem. O problema do aquecimento global, no entanto, não cede ao mesmo tipo de solução. Com ação agressiva, podemos “estabilizar” a situação a um nível que seja apenas moderadamente horrendo, mas não podemos resolvê-la. Isso não quer dizer que não devamos agir. Devemos agir de toda maneira possível e imediatamente.Estamos no fim de uma era — o porre centenário de petróleo, gás e carvão que nos proporcionou tanto os confortos como os apuros atuais. Mesmo os cientistas que mais clamam com estridência por controles sobre as emissões, dizem fazê-lo, porém, a fim de retardar o aquecimento para que possamos nos adaptar a ele. O ajustamento ao mundo da estufa não será fácil; somos profundamente viciados em petróleo. Nosso impulso será o de adaptar, não nós mesmos, mas a Terra — de descobrir uma nova maneira de manter nosso domínio e, daí, os estilos de vida com os quais nos acostumamos. Inventaremos novos instrumentos, novas tecnologias, para nos mantermos vivos no planeta, num mundo “macroadministrado”.

O problema, em outras palavras, não é simplesmente que a combustão de petróleo libera dióxido de carbono que, por força de sua estrutura molecular, captura o calor do Sol. O problema é que a natureza, a força independente que nos rodeou desde os nossos primeiros dias, não consegue coexistir com os nossos números e os nossos hábitos. Bem que poderemos criar um mundo capaz de suportar esses números e hábitos, mas será um mundo artificial — uma estação espacial. Ou, quem sabe, poderíamos mudar os nossos hábitos. A ecologia profunda sugere que em vez de dar ordens melhores aprendamos a dar cada vez menos ordens — de modo a mergulhar novamente no mundo natural. Tais ecologistas questionam a base industrial de nossa civilização, a necessidade de crescer eternamente em riqueza e números.Essas idéias são pelo menos um ponto de partida para aqueles interessados em salvar um mundo que está sumindo depressa. São idéias radicais, mas vivemos num momento radical. Vivemos no fim da natureza, o instante em que o caráter essencial do mundo está mudando. Se o nosso modo de vida está acabando com a natureza, não é radical falar em transformar nosso modo de vida. Como é óbvio, tal mudança será colossalmente difícil. É também difícil voltar as costas à idéia do crescimento econômico, que nos foi vendida como resposta à pobreza que aflige a maior parte do planeta. Mas um mundo superaquecido, desprovido de ozônio, seria provavelmente mais cruel para os pobres do que para os ricos e, se o nosso desejo é amenizar a pobreza, limitar o nosso padrão de vida e partilhar o nosso excedente devem funcionar tão bem quanto.

O fim da natureza é um salto no desconhecido, tão assustador porque é desconhecido como porque o mundo pode tornar-se quente ou seco ou chicoteado por furacões. Mas esta poderia ser a época em que as pessoas decidam pelo menos não ir adiante na senda que têm percorrido — quando fizermos não apenas os ajustes tecnológicos necessários para preservar o mundo do superaquecimento, mas também os ajustes mentais necessários para assegurar que nunca mais tornaremos a pôr nosso bem à frente de tudo o mais. Este é o caminho que escolhi, porque oferece um fiapo de esperança num mundo vivo, eterno e significativo.

 

 

 

Para saber mais:

Terra quente

(SUPER número 4, ano 2)