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Efeito estufa e o Clima: O que a ciência sabe?

Discutido em uma conferência na Alemanha, o clima da Terra vem se alterando e nem mesmo os estudiosos conseguem explicar quem ou o que está provocando o aumento na temperatura do planeta.

Marco Chiaretti

O equilíbrio do clima pode ser abalado pela ação humana? Se pode, quanto?
Nesse caso, o que fazer? Saiba por que os estudiosos ainda não chegaram a um acordo.

Há dez anos, os cientistas acordaram para o perigo de um superaquecimento do planeta provocado pela ação humana. A concentração de dióxido de carbono (gás carbônico ou CO2) no ar vinha crescendo e isso poderia implicar numa elevação da temperatura. Ele agravaria ainda mais o chamado efeito estufa, a concentração de certos gases na atmosfera, que impedem a dissipação do calor que vem da Terra.

Um esclarecimento: existe hoje uma certa histeria em torno do efeito estufa, como se ele tivesse sido inventado anteontem, ou como se os mares fossem entrar em ebulição depois de amanhã. Na verdade, ele acontece há bilhões de anos, impede o planeta de virar uma pedra congelada (ele seria exatos 33 ºC mais frio) e o gás mais importante nesse processo — o vapor d’água — tem um ciclo que não depende do homem.

O CO2 também contribui, embora em medida menor. Determinar a relação que há entre a emissão desse gás e o clima na Terra é muito difícil mas, mesmo assim, vários pesquisadores começaram, no fim dos anos 80, a associá-lo a um futuro mais quente. Em abril passado, representantes de 170 países reuniram-se em Berlim, Alemanha, para tentar responder à pergunta: afinal, vai mesmo esquentar? A SUPER foi a Berlim, acompanhou a Conferência sobre o Clima e ouviu alguns dos maiores especialistas do mundo. A seguir, você vai entender o que ainda é mistério, o que é fato, o que é exagero e o que é destempero de alarmistas na discussão sobre o equilíbrio do clima.

A imprensa sensacionalista gosta de exageros: milhões morrendo de sede, os gelos da Antártida derretendo e inundando meio mundo. Cuidado: não é preciso uma mudança tão grande para prejudicar, e muito, a economia, a agricultura e o cotidiano. Um aumento de um ou dois graus na temperatura média global — que hoje é de cerca de 15 oC — transtornaria o mapa agrícola da Terra. Três graus a mais nos oceanos duplicariam o número de furacões. Ou seja: o homem pode pôr tudo a perder bem antes de as geleiras derreterem.

O problema é que os cientistas não concordam quanto à relação exata entre a ação humana e a elevação dos termômetros. Alguns, como o alemão Klaus Hasselmann, do Instituto de Meteorologia Max Plank, de Hamburgo, Alemanha, acreditam que a humanidade é o vilão. Para ele, há “95% de probabilidade de que o homem seja o principal responsável” pelo aquecimento global. Outros, como o americano Richard Lindzen, do MIT (Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos), acham tudo isso um exagero. Para ele, “não há uma prova científica definitiva” das relações entre a produção humana de gases do efeito estufa e mais calor no planeta.

A ida e a volta dos cientistas sobre as complicações do clima aumentou com o tempo, para desespero dos ecologistas. Isso era previsível: quanto mais se aprende, mais dúvidas aparecem. Paira no ar um certo ceticismo: a catástrofe virá ou não virá?

Nos anos 80, criou-se um organismo internacional, o IPCC (sigla para Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, em inglês), reunindo especialistas com o aval da ONU e da Organização Meteorológica Mundial. O IPCC consolidou todas as informações científicas disponíves em um relatório publicado em 1990, onde se afirmava que a temperatura média aumentaria 0,3oC por década nos próximos 100 anos, se nada mudasse. Por isso, países como a Alemanha comprometeram-se, na época, a reduzir em 25% suas emissões de CO2 até 2005, tendo como base o ano de 1990.

Novos estudos, acumulados nos últimos cinco anos, mudaram o quadro: por que não está ficando mais quente, se a emissão de gases está aumentando? Quanto teria que crescer a concentração de CO2 para que o clima mudasse realmente? Como interagem os diversos gases? Em um documento do IPCC recém-divulgado na Grã-Bretanha, os climatologistas tentam explicar algumas discrepâncias, como você verá na próxima página. Mas a catástrofe parece adiada, ao menos por enquanto.

Climate Change 1994, um livro de 340 páginas, editado na Grã Bretanha pelo IPCC há poucas semanas, apresenta o que há de mais quente (sem trocadilho) na pesquisa científica atual: qual o efeito no clima de certas partículas sólidas (chamadas aerossóis), como a cinza de vulcões que ficam suspensas na alta atmosfera? Os prognósticos pessimistas mudam quando se incluem esses aerossóis no cenário? Para responder a essa questão, os cientistas traçam modelos que envolvem montanhas de cálculos e estatísticas feitos com auxílio de supercomputadores, com o objetivo de tentar prever o clima do mundo nos próximos anos.

O Climate Change traz uma boa notícia. Os aerossóis esfriam, e bastante, a temperatura. Eles podem aparecer como resultado da ação humana (queimar carvão, por exemplo, produz dióxido de enxofre, que reage com outros gases, criando partículas suspensas), ou pela erupção de vulcões, como o Pinatubo , que explodiu nas Filipinas em 1991 lançando milhões de toneladas de cinzas no ar. Mas não se sabe ainda o quanto exatamente eles esfriam o planeta.

Às vezes, o efeito “antiestufa” dos aerossóis poderia chegar a superar a ação do gás carbônico, pelo menos em intervalos curtos de tempo e em regiões determinadas. Como seu papel na balança depende do tamanho das partículas, da sua composição química e de fatores como a umidade atmosférica local, prever seu efeito preciso, e em larga escala, ainda não foi possível.

É aí que entram outra vez os grandes “fazedores” de modelos. Um dos centros mais avançados do mundo fica na Grã-Bretanha: é o Hadley Centre. Seus pesquisadores montam projeções sobre tudo: desde a previsão do tempo no ano 2100, se a emissão de gás carbônico continuar como está, até o regime de chuvas pelo mundo nos próximos dez anos.

Em Berlim, o Hadley mostrou estudos para avaliar o papel dos aerossóis antropogênicos (produzidos pelo homem). Surpresa: em algumas regiões industriais, como o nordeste dos Estados Unidos, a temperatura cairia 7 graus em 20 anos, somente em função da capacidade dos aerossóis de refletir a energia vinda do Sol (o chamado efeito direto), caso o CO2 não estivesse presente.

 

Para saber mais:

El Niño, um susto com hora marca

(SUPER número 3, ao 7)

O clima está mudando?

(SUPER número 3, ano 8)

Será que vai chover

(SUPER número 3, ano 11)

 

 

Dá para lucrar?

Para o cientista político alemão Klaus Meyer-Abich, da Universidade de Essen, “não estamos todos no mesmo barco, como se costuma dizer; alguns podem ganhar e outros perder com as mudanças climáticas”. A tese de que alguns poderiam ganhar com mais calor seduziu vários especialistas. O Brasil se tornaria um país árido, e a Sibéria, o celeiro do mundo..

 

 

 

El Niño misterioso

O El Niño, que aparece em vermelho na foto abaixo, indicado por uma seta, é o maior fenômeno climático global: de tempos em tempos, uma enorme quantidade de água no Pacífico Equatorial se aquece, mudando o regime de ventos no mundo. O maior El Niño do século, que começou em 1982, causou danos de US$ 8,11 bilhões. O conquistador espanhol do Peru, Francisco Pizarro, deve ter cruzado com os efeitos dele em 1532. Ele anotou em suas crônicas que a região estava inundada pelas chuvas. Desde o fim dos anos 80, a TAO (Tropical Array Ocean), uma rede de 69 bóias espalhadas pelo Pacífico, registra diariamente sua temperatura. Acreditava-se que El Niño acontecia a cada sete anos, mas dados recentes mostram uma mudança: nos últimos doze anos, houve quatro. Vários cientistas acreditam que a interferência humana na atmosfera tem culpa nessa alteração. Outra teoria, recentemente anunciada, afirma que o fenômeno é causado pelo calor do magma vulcânico liberado no fundo do Oceano Pacífico..

 

 

 

Tempo e colheita

A previsão do tempo não tem somente o objetivo de determinar se as pessoas devem ou não usar galochas ao sair na rua. As companhias de seguros que o digam. Perdem bilhões com o clima. Somente em 1992, catástrofes climáticas deixaram um prejuízo de 27,1 bilhões de dólares.E há o problema da produção agrícola. Colheitas inteiras podem ser — e freqüentemente são — destruídas por excesso ou falta de chuva.

Um calor imprevisto ou um inverno mais prolongado reduzem o rendimento de uma determinada região. Nas bolsas de mercadorias, como a da cidade americana de Chicago (na foto), nos Estados Unidos, aposta-se sobre a produção futura de determinadas commodities, como a soja, o açúcar e o café. As previsões semestrais de colheita, cujas estimativas são feitas em função de modelos climáticos, influenciam diretamente os preços futuros. E esses valores, por sua vez, influenciam os agricultores na escolha de quanto e do quê vão plantar.

 

 

 

Ecologistas mostram o pior dos mundos

O Greenpeace produziu um relatório com centenas de sinais de mudanças no clima. O grupo critica os governos. Acha que eles não divulgam os piores cenários possíveis:

*Meteorologistas do Centro Hadley disseram que 1994 foi o “ano mais quente já registrado”.

*A temperatura média

global subiu 0,5 oC desde

meados do século XIX.

*Cientistas argentinos

detectaram o derretimento

de geleiras na Antártida.

*Tempestades custaram mais de US$ 100 bi nos últimos 5 anos.

*1990 foi um ano recordista

em número de furacões nos Estados Unidos: 1 126.

*Seguradoras gastaram

mais de US$ 62 bilhões com catástrofes climáticas em 1992.

 

 

Glossário

Efeito estufa: É o fenômeno pelo qual alguns gases atmosféricos, principalmente o vapor d’água e o CO2, retém parte da energia irradiada pelo planeta, aumentando a temperatura.

IPCC: Sigla para Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática, em inglês. É o grupo “oficial” de especialistas sobre o tema. Um brasileiro, Luiz Gylvan Meira Filho, preside um dos grupos de trabalho.

FCCC: Sigla para Convenção Quadro sobre Mudanças do Clima, em inglês. É o documento aprovado em 9 de maio de 1992, na ONU, que reúne o consenso mundial, alcançado até agora, sobre as mudanças do clima.

Buraco de ozônio: A descoberta de que os clorofluorcarbonetos, antes usados em geladeiras, reagem com o ozônio (O3) que protege o planeta contra os raios ultra-violetas, é de 1974. Em 1985, uma equipe britânica registrou pela primeira vez um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida, indicado por uma seta nessa foto de satélite de 30 de novembro de 1992.