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Minha vida sem plástico

O plástico está em quase todas as coisas e momentos da nossa vida. Mas será que dá para viver sem ele? A SUPER foi à minha casa, pegou todos os objetos de plástico, e eu passei uma semana tentando sobreviver sem eles

Edição: Bruno Garattoni

Dia 1

Oito da manhã. O despertador toca, eu acordo e me levanto da cama. Até aí, tudo tranquilo – meu despertador é de metal e, como todo mundo, uso chinelos de borracha. Vou ao banheiro, e as coisas começam a se complicar. O assento da privada, que era de plástico, foi trocado por um de madeira maciça. Custou 10 vezes mais caro, mas valeu: ele é bem mais quentinho que o de plástico. Pena que não estamos no inverno. No banho, não posso usar meu xampu e condicionador (que vêm em embalagens plásticas), e lavo o cabelo com sabonete. Eu já sabia que não ia dar certo. Meu cabelo ficou duro, todo armado, e teve de passar o resto do dia preso. Que ótimo.

Hora de escovar os dentes. Pego minha escova de dentes, feita de madeira e cerdas naturais, que só encontrei depois de muita pesquisa na internet. Como desde a década de 1990 o creme dental não é mais comercializado em tubinhos de alumínio, vou escovar usando bicarbonato de sódio – como as pessoas faziam no século 19. Nada de menta nem gostinho refrescante; parece sal. Já a escova é uma delícia. Suas cerdas são hipermacias, parecem acariciar meus dentes. Olho a embalagem e tenho uma surpresa. As cerdas, que eu achei serem de fibra vegetal, na verdade são pelos de javali.

Troco minha carteira de tecido e plástico por uma de couro, como a bolsa. Sem todos aqueles cartões de crédito, do plano de saúde, da locadora etc – que são de plástico e eu não posso usar -, a carteira ficou murcha. A bolsa também está mais leve. Mas tudo bem. Só sinto falta mesmo do iPod, que não posso usar (não encontrei um fone de ouvido que não seja de plástico). No trabalho, não tenho escolha: sou obrigada a usar o computador da firma, todinho de plástico. E o celular? Um iPhone, de vidro e alumínio, seria perfeito, mas eu não tenho um. Meu celular é de plástico, e não posso usá-lo. Fico incomunicável.

Recuso a bandeja do restaurante e equilibro meu prato na mão para almoçar. Certamente me acham maluca quando insisto em tomar o suco de laranja na minha própria caneca – uma daquelas que a gente ganha de brinde e jamais usa, a não ser como porta-copos.

Dia 2

Vou à padaria. Na hora de embalar o presunto, o atendente não me deixa levar os 100 gramas sem plástico, direto na embalagem de papel. Insisto e ganho a disputa. No mercado, procuro um substituto ao queijo do dia a dia – que sempre vem embalado em plástico ou isopor (que é poliestireno, um tipo de plástico). Acabo comprando um queijo pseudo-francês, que vem dentro de uma caixa de papel e por isso é 4 vezes mais caro. Mas é bem mais gostoso. Aproveito para levar um desodorante aerosol, em lata de metal, e algumas frutas a granel – carregá-las sem saquinhos plásticos é mais fácil do que eu pensava. Isso porque fui munida de minhas várias ecobags, que tenho há algum tempo – e me dão créditos no cartão fidelidade do supermercado.

Está um solão, mas não posso usar óculos de sol (todos os meus têm armação de plástico). Talvez por isso, fico com dor de cabeça. Mas também não posso tomar remédios, pois eles sempre vêm em cartelinhas de plástico.

De tarde, meu lanche é bem espartano: só uma maçã. Nada de biscoito, nem barrinha, nem chocolate. Essa é a melhor parte de ficar sem plástico, parece: come-se menos. Acho que emagreci.

Dia 3

Acordo com dona Nair, a diarista, tocando a campainha. E me lembro de que, na faxina, não podemos usar nada que tenha plástico. Nada de balde, pá, nem produtos de limpeza. Só uma vassoura de madeira, um baldinho de alumínio, suco de limão, água e sabão em pó (que vem numa caixa de papelão). Para minha surpresa, dona Nair nem liga: “Ah, minha filha, tô acostumada. No interior não tem esses produtos todos”. Limão é eficiente para remover sujeira, gordura e manchas de ferrugem. Mas no fim do serviço, Nair reclama: “Não sei se ficou bom”.

Fome. Mas o presunto, comprado ontem na padaria em embalagem de papel, já está difícil de comer. O papel absorve a água da comida, que fica ressecada. Se estivesse envolta em plástico, conservaria a umidade por mais tempo.

Saio de casa para comprar presentes de Natal. Morrendo de sede, me dou conta de que simplesmente não existem garrafinhas de água que não sejam de plástico à venda nas ruas. Só me sobrava o refrigerante, cujo açúcar certamente me daria mais sede. Resolvo ficar sem tomar nada. De noite, vou jantar com minha irmã e tenho que comprar uma caríssima Perrier (R$ 9). Era a única água em garrafa de vidro disponível no restaurante.

Dia 4

Abro o guarda-roupa procurando algo para usar no calor. Mas o vestido que eu queria colocar tem 96% de poliéster (fibra de plástico). Pior: percebo que a maioria das minhas saias e shorts tem botões ou zíperes plásticos. Com isso, o guarda-roupa sofre uma baixa considerável. Encontro um vestido de algodão que salva o dia.

Vou à feira achando que seria mais fácil comprar comida sem consumir plástico. Mas não é bem assim. Todos os feirantes me oferecem sacos plásticos, como num supermercado, e boa parte das verduras e legumes já está embalada. Compro pouco, porque não posso sacar dinheiro do banco (o cartão é de plástico, lembra?). Como um pastel, mas tenho que pedir um copo de vidro no bar da esquina para beber caldo de cana. O atendente do bar fica sem saber como responder o meu pedido, e tenho que explicar que estou fazendo uma reportagem. Ele acha estranho. A moça do pastel acha o máximo.

 (Dulla/Reprodução)

Dia 5

Como os saquinhos plásticos estão proibidos aqui em casa, deposito o lixo reciclável numa caixa de papelão – e o orgânico, em sacolas de papel estrategicamente deixadas na cozinha e no banheiro. O prédio aceita, mas não faz a coleta: eu mesma tenho que levar as sacolas até o cantinho do lixo, na garagem. Apesar disso, tenho menos problemas do que imaginava. As sacolas, feitas de papel kraft (mais grosso), não ficam molhadas nem fedidas. E percebo que estou produzindo 50% menos lixo. Isso me dá orgulho.

Dia 6

Acordo com depressão. Ir ao supermercado é horrível, já que não dá para comprar quase nada que possa se juntar para formar uma refeição. Me dou conta de que não posso comprar iogurte, arroz, feijão ou cereais. Carne, nem pensar. Chateada por não encontrar nem macarrão em embalagem plástico-free, vou a uma loja de massas frescas perto de casa. Eles também só vendem em sacos plásticos. Droga. Quando falo com amigos sobre a matéria, a reação é quase sempre a mesma. Primeiro acham legal e depois perguntam: “E para fazer tal coisa, como você vai se virar?” Quando termino de argumentar, todos ficam em silêncio, me medindo de cima a baixo. Eu sei. Eles estão procurando algo de plástico em mim para poder mostrar que eu fracassei.

Dia 7

Não sinto falta da maioria das coisas que não posso usar. Mas estou com problemas para escovar os dentes. A escova já se desgastou, e meus dentes estão arranhados pelo bicarbonato de sódio. No trabalho, recebo parabéns dos colegas por continuar usando a canequinha. Mas, na hora do bolo dos aniversariantes do mês, tenho que me lambuzar sem garfo nem prato plástico. Chego em casa e vejo TV no computador. Meia-noite. Acabou.

Posso voltar à vida normal. Não consegui me livrar de todo o plástico do dia a dia. Mas deu para mudar alguns hábitos. Mandei todos os saquinhos plásticos de casa para a reciclagem e pretendo continuar com as sacolas de papel. Também me apeguei à caneca. E estou cogitando seriamente substituir parte dos utensílios de cozinha. Algo me diz que também vou continuar demorando bastante para escolher os produtos no supermercado.

Mas complicado mesmo vai ser quando o petróleo escassear, subir de preço, e o plástico se tornar uma matéria-prima cara. Nem tudo poderá ser feito ou embalado em metal, vidro e papel. Acho que o plástico começará a ser reciclado em grande escala. Afinal, ele existe de sobra pelos lixões do planeta – são bilhões e bilhões de toneladas, que ficarão no mundo por muito tempo.