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O futuro enfrenta o presente

Congresso em Paris declara as florestas "patrimônio do futuro". Mas os proprietários querem resolver, cortando suas árvores, problemas do presente.

Se os trabalhos de preparação da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento, a ser realizada no Rio de Janeiro no próximo ano, fossem administrados com os mesmos critérios do Campeonato de Fórmula 1, quem sabe se poderia atribuir ao seu secretário, o canadense Maurice Strong, a condição de recordista em horas-conferência. Pois desde que foi decidida a realização da Conferência do Rio, Strong passa a vida em encontros, seminários, congressos — como se estivesse pessoalmente encarregado de mobilizar a consciência mundial para a urgência dos problemas ambientais.

O estóico canadense parece dispor de doses inesgotáveis de paciência, pois sempre emerge desses encontros exibindo saudáveis sinais de otimismo. No final de setembro passado, por exemplo, ele sobreviveu a mais duas semanas de debates no Décimo Congresso Florestal Mundial, realizado em Paris, e, de posse de uma cópia da caudalosa declaração ali produzida, pontificou: “Entre os temas tratados nos trabalhos preparatórios ao encontro mundial, nenhum é mais importante que o da floresta”.

À primeira vista, parece um exagero, pois todos os problemas que compõem o negro quadro da questão ambiental são igualmente graves. Mas a frase seguinte de Strong explica e justifica a precedência: “Não há outro assunto, no que se refere ao meio ambiente e ao desenvolvimento, em que seja tão fundamental conseguir um consenso em relação às decisões a serem tomadas”. E esse consenso parece difícil de se conseguir, pois a essa altura a questão florestal já está enredada num cipoal de suspeitas e mal entendidos, difícil de desembaraçar. De um lado, os países ricos, ansiosos por preservar as florestas que restam no mundo, desde que isso possa ser feito sem sacrifícios para as suas reservas monetárias; de outro, países pobres como o Brasil, donos das grandes florestas ainda existentes, preocupados em não ter sua soberania atropelada por decisões supranacionais.

Para quem olha a questão do ponto de vista desses países, o simples enunciado do tema do congresso de Paris pode parecer preocupante: “A floresta, patrimônio do futuro”. Mas o secretário do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e de Recursos Naturais Renováveis, IBAMA, Antônio do Prado, um dos brasileiros naquele encontro, parecia tranqüilo. “As recomendações aprovadas propõem um melhor aproveitamento da floresta e do ecossistema florestal em sua integridade”, declarou ele a SUPERINTERESSANTE, ao final da última sessão. A frase, sem dúvida, carece de significado, mas a simples presença de uma delegação brasileira nessa conferência já representa alguma coisa: o governo, apesar da selvageria e da insensatez que tem marcado o debate interno da questão florestal, não parece inclinado a se manter à margem do trato internacional que ela está recebendo.

Esse trato está apoiado em números reveladores, cruamente exibidos em Paris: a cada ano, desaparecem na África 9,7 milhões de hectares de florestas; 7,3 milhões na América Latina; e 4,7 milhões na Ásia. Indonésia, Filipinas e Tailândia são os países onde mais se destroem florestas; em Bangladesh, ao contrário, já não se destrói mais nada, pela simples e boa razão de que ali não há mais floresta alguma para ser destruída. Há locais, em todo caso, onde essa tendência está sendo revertida. Os europeus, por exemplo, que devastaram quase todo o seu continente para construir uma civilização brilhante e poderosa, estão conseguindo índices de reflorestamento que chegam aos 3% anuais—modestos, sem dúvida, mas de qualquer forma significativos.

Em toda parte, destroem-se florestas para obter mais terras para a agricultura, e a curto prazo não pode ser de outra forma, dado que as populações dos países pobres crescem sem parar. Enquanto isso, países ricos, como os da Europa e os Estados Unidos, desenvolvem um rendoso comércio internacional de produtos florestais, que lhes rendeu 70 bilhões de dólares em 1989. Já os proprietários das grandes florestas, menos equipados para explorálas de forma eficiente, contentaram se com modestos 12 bilhões. A Declaração de Paris, muito adequadamente, lança um apelo para que os países de maior capacidade técnica e financeira, ajudem os países em desenvolvimento a explorar suas florestas de maneira racional e produtiva, sem necessariamente destruílas.

Até já existe um programa já existe um Programa de Ação Florestal Tropical (PAFT), patrocinado pela FAO (Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação, em português), Banco Mundial e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento. Países como o Peru e o Equador já prepararam planos e projetos, mas ainda aguardam a achega dos financiamentos indispensáveis; o Brasil, que não participa formalmente do PAFT, tem sido convidado para suas reuniões, por enquanto destinadas tão somente a definir o papel a ser desempenhado por um futuro grupo consultivo que trataria de acelerar o andamento dos planos e dos financiamentos. Reuniões, com afeito, não faltam. Os problemas do PAFT, por exemplo, estarão sendo discutidos outra vez em dezembro, na reunião da FAO. A Declaração de Paris, por sua vez, será submetida à quarta sessão do Comitê Preparatório da Conferência do Rio, a ser realizada em Washington em março próximo. O recorde do canadense Strong, com certeza. não estará ameaçado no futuro próximo, uma vez que Já se projetam outras conferências e congresso para tornar a debater o que ainda vai ser selecionado para os debates do Rio de Janeiro

Parece uma maneira estranha de cuidar de assuntos tão urgentes. Infelizmente, a política internacional costuma não ter pressa; mesmo pressionada pela evidência de que em breve poderá não haver mais floresta alguma para ser preservada, ela não resiste à necessidade de realizar mais debates, mais reuniões, mais congressos—dos quais resultam, quando nada, toneladas de declarações e documentos variados, eles próprios uma ameaça às árvores que nos restam, por exigirem enormes quantidades de papel.

 

 

 

 

 

Para saber mais:

As verdades do verde

(SUPER número 7, ano 3)

 

Ziguezagues em campo verde

(SUPER número 9, ano 5)