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O ninho do ISIS

A SUPER foi a um dos maiores criadouros de terroristas na Europa: o bairro muçulmano de Molenbeek, em Bruxelas

Por Renato Machado Atualizado em 17 ago 2017, 15h05 - Publicado em 22 mar 2016, 10h45

Milhares de jovens frequentam as várias mesquitas de Molenbeek-Saint-Jean. Alguns templos desse bairro pobre de Bruxelas são suntuosos, outros escondem-se atrás de portinhas. E sobre todos recai uma desconfiança após os atentados de Paris: a de que viraram centros de propagação do extremismo, até porque o massacre na capital francesa foi tramado em Molenbeek, reduto islâmico da capital belga, e três dos sete terroristas saíram de lá. Como os não muçulmanos desconhecem o que acontece porta adentro das mesquitas, a impressão que fica é que qualquer um dos garotos que circulam por elas pode ser um próximo terrorista do ISIS.

LEIA: O que o Estado Islâmico quer?

Mas não é nas mesquitas que se recrutam jovens para atentados suicidas ou para lutar pela organização no Oriente Médio. Os mecanismos de atração hoje são outros. “Está tudo na internet”, disse o deputado belga de oposição Jamal Ikazban, criticando a intenção do governo de fechar algumas das mesquitas, após os atentados de 13 de novembro.

O recrutamento de jovens preenche a grande necessidade do ISIS por mão de obra. A organização enfrenta atualmente os exércitos da Síria e do Iraque, além de receber bombardeios quase diários de Rússia, França e Estados Unidos. Como esse emprego não é dos mais convidativos, a base do processo de convencimento está em técnicas de propaganda e marketing que fariam inveja a agências de publicidade, por conta dos resultados que elas atingem.

A organização mantém uma verdadeira máquina de guerra da comunicação, centrada na Al Hayat Media Center. Trata-se de um conglomerado que controla uma rede de 33 produtoras espalhadas por países como Arábia Saudita, Iraque, Egito, Síria e Rússia (na região do Cáucaso). Todo esse aparato possibilita que pelo menos um novo vídeo por dia chegue ao seu público-alvo.

E não é nada como aquelas cenas monótonas da década passada, que mostravam Osama bin Laden dentro de uma caverna, discorrendo sobre o Islã e ameaçando o Ocidente. Os vídeos do ISIS são feitos sob medida para excitar os jovens: abusam de cenas de ação, inspiradas em blockbusters e games.

“Um exemplo claro é a utilização das câmeras GoPro no peito dos terroristas quando lutam no campo de batalha. O objetivo é que, ao editar as imagens, o vídeo se pareça ao máximo com Call of Duty“, afirma Javier Lesaca, professor visitante na Universidade George Washington.

Lesaca vem estudando os vídeos divulgados pelo ISIS a partir de janeiro de 2014. Foram quase 900 nesses dois anos. Ele encontrou referências a filmes como Matrix, V de Vingança e Sniper Americano. Também recorrentes são os vídeos que mostram carros percorrendo as ruas de uma cidade, enquanto seus ocupantes disparam contra pedestres e outros motoristas. Puro Gran Theft Auto – o GTA, game mais popular do mundo. Mas com uma diferença: os protagonistas são jovens muçulmanos, exatamente como são aqueles que os assistem.

Para esse material sair do meio do deserto sírio e iraquiano e chegar ao público-alvo do departamento de RH do ISIS, a organização inicia uma avalanche de compartilhamentos em redes sociais, retweets e links em aplicativos de mensagens. Acredita-se que 40 mil contas no Twitter sejam ligadas à organização, usadas para difundir esse conteúdo. Para evitar que as postagens sejam apagadas pelo Twitter no meio do caminho, usam-se, ao lado dos links dos vídeos, hashtags populares em países ocidentais. Em junho de 2014, por exemplo, alguns desses vídeos vinham acompanhados de #worldcup.

Além disso, todos os vídeos são distribuídos com legendas em idiomas ocidentais – geralmente inglês, francês ou alemão -, já que os alvos dos recrutadores são jovens que nasceram e cresceram na civilização ocidental, vendo ao longe a Torre Eiffel, ouvindo Pearl Jam, vestindo camisas de times da Champions League. São muçulmanos da segunda ou terceira geração de imigrantes, que detêm passaporte europeu, mas não se consideram pertencentes ao continente.

“Eles se sentem como cidadãos de segunda classe, por não terem as mesmas oportunidades de estudo e de trabalho. E também não se sentem livres para praticar o Islã, por isso acabam aderindo ao extremismo”, diz o especialista em estudos islâmicos Peter Van Ostaeyen, da Universidade de Leuven, na Bélgica.

Van Ostaeyen acompanha a movimentação dos militantes belgas e mantém uma base de dados atualizada, com a quantidade de jovens que partiram para a guerra e seus perfis. A Bélgica foi o país que mais enviou militantes para combater nas fileiras do EI na Síria ou no Iraque, em proporção a sua população. Foram 516, sendo que de 60 a 70 deles estão mortos, apontam os dados de outubro. Eles são majoritariamente homens (91%), com idade média de 25 anos e partiram principalmente de Bruxelas.

A menção à capital belga remete automaticamente ao distrito de Molenbeek, que em tempos recentes ganhou destaque na mídia e apelidos nada elogiosos, como “ninho do terror” e “filial do ISIS”. Isso porque, além dos terroristas que atacaram Paris, também são de lá o autor do atentado ao Museu Judaico de Bruxelas (maio de 2014) e o homem que tentou abrir fogo dentro de um trem que ia de Amsterdã a Paris, via Bruxelas (agosto de 2015). Também passou alguns dias na comunidade um dos radicais que entraram disparando tiros de fuzil na redação do Charlie Hebdo.

Molenbeek é um dos 19 distritos que formam Bruxelas. É do tamanho de uma cidade pequena: tem 95 mil habitantes, a grande maioria muçulmanos de origem marroquina. A cultura islâmica domina as ruas, tomadas por casas de chá, restaurantes árabes e vitrines expondo hijabs (os lenços para as mulheres cobrirem a cabeça). Os primeiros imigrantes chegaram nos anos 1960, incentivados pelo governo belga, para trabalharem no que era, então, um rico centro industrial. As empresas depois foram embora, os belgas não árabes se mudaram dali, e o que ficou foi uma área degradada.

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Os jovens que se sentem como “cidadãos de segunda classe” estão por todo lado em Molenbeek. Os que trabalham ocupam postos de baixa qualificação, em supermercados, peixarias, mercearias e pequenas lojas de tecido. Esses têm sorte. Nas praças e nas esquinas, dezenas de outros homens só observam a tarde passar, sem trabalho – o índice de desemprego no bairro entre os homens é de 29% (acima da média de Bruxelas, de 22%) e entre as mulheres, de 33% (ante 23%).

O sentimento de frustração dos imigrantes foi ganhando força com o passar das gerações. Seus pais e avós migraram para oferecer melhores condições a suas famílias. Aceitaram empregos pouco qualificados e viveram alijados das benesses que a Europa oferece. Muitos nem chegaram a aprender o idioma local. Mas a maioria aceitou esse destino de bom grado – achava melhor ser rabo de tubarão na Europa do que cabeça de sardinha em seus países de origem. Com os jovens é diferente. Eles cresceram com sonhos de europeus, mas a realidade que enfrentam é a de imigrantes.

“Essa parcela da juventude existe em todos os países onde há uma quantidade considerável de imigrantes”, diz o ex-prefeito de Molenbeek, Philippe Moureaux. “E, qualquer que tenha sido a política que pudemos implementar, na medida em que não conseguimos nos ocupar dessa parcela da população jovem, nós falhamos. Agora eles estão cheios de rancor contra essa sociedade.”

A situação desses jovens guarda semelhança com o caso de brasileiros atraídos para o tráfico. Moram na periferia e estudam em escolas públicas de má qualidade, o que dificilmente os levará a algum futuro brilhante. Sofrem preconceito nas entrevistas de emprego e têm de se contentar com os menores salários disponíveis no mercado. Aí, seja no morro, seja em Molenbeek, eis que surge a oportunidade de pegar em um fuzil, ter o respeito da comunidade, e fazer sucesso com as garotas. Para muitos, a escolha não parece difícil. O crime às vezes compensa, afinal. “Na Europa, eles foram excluídos da sociedade. Mas, quando estão na Síria, nos territórios controlados pelo Estado Islâmico, eles se consideram alguém”, diz o criminologista Michaël Dantinne, da Universidade de Liège, na Bélgica, e pesquisador do terrorismo.

Um exemplo concreto é o belga Abdelhamid Abaaoud, o cérebro por trás dos atentados em Paris. Nascido e criado em Molenbeek, ele teve a oportunidade de estudar em ótimas escolas de outros distritos, mas não conseguia se encaixar. Passou a praticar pequenos crimes com frequência. Foi preso e começou sua radicalização religiosa atrás das grades. Ao sair, zarpou para a Síria e tornou-se uma estrela do ISIS. Aparecia em vídeos exibindo fileiras de cadáveres inimigos. Na Dabiq, a revista da organização, se vangloriava de ir e voltar frequentemente da Síria sem ser interceptado. Conseguiu recrutar o irmão caçula, então com 13 anos, e que se tornaria um dos combatentes mais jovens do ISIS. Em um intervalo de poucos anos, Abaaoud passou de trombadinha a uma figura importante e admirada nos quadros da organização. Foi morto por policiais em Paris, na noite dos atentados. E não importa se chegou a um paraíso com 72 virgens: já tinha sido glorificado na terra pelos seus comparsas.

“Os jovens radicais acreditam que sua interpretação do Islã é a única possível”, afirma Van Ostaeyen. “E agora existe um lugar no mundo que a aplica integralmente.” Esse lugar é o próprio Estado Islâmico, no sentido territorial do termo: os pedaços da Síria e do Iraque que eles invadiram, e agora controlam. Pela primeira vez na história recente, terroristas têm uma Pasárgada. Um lugar onde são reis.

Esse lugar, inclusive, produz o dinheiro necessário para manter a máquina de propaganda girando, armar soldados e realizar atentados. A principal fonte de recursos, bem conhecida, é o petróleo extraído da região sob seu domínio. Não existe uma estimativa precisa do faturamento de venda do produto, porque ele é comercializado no mercado negro, abaixo do preço oficial, e em dinheiro vivo, mas é possível que ela esteja na casa das dezenas de milhões de dólares por mês. Os barris cruzam a fronteira com a Turquia, são misturados com a produção legal de petróleo e nenhum serviço de inteligência consegue mais rastreá-los. Outra fonte de renda são os sequestros. O ISIS recebeu US$ 20 milhões em resgates em 2014. A organização também fatura com extorsões em seu território, como a cobrança de pedágios e impostos, basicamente como fazem as milícias do Rio de Janeiro.

Esses recursos chegam aos seus destinos facilmente, sem grandes problemas com as autoridades. Um dos mecanismos são as Hawalas, sistemas informais de transferência de dinheiro. São estabelecimentos como a Western Union, mas que agem fora do sistema bancário, e portanto ao largo da fiscalização dos países.

Com o dinheiro em mãos, os militantes europeus adquirem cartões de crédito pré-pagos e telefones celulares, que são trocados frequentemente para driblar rastreamentos. A comunicação entre os integrantes também foge do radar dos serviços de inteligência, a custo zero. Eles usam, por exemplo, o Telegram, um aplicativo similar ao WhatsApp, mas mais seguro para os usuários, pois oferece criptografia e autodestruição das mensagens.

Mesmo um Gmail já dá conta do recado. “Se você abre uma conta de e-mail, só precisa difundir a senha para os seus interlocutores, escrever mensagens e não enviar, já que os rascunhos não são interceptados”, diz Michaël Dantinne.

Mas e aí? Tudo isso, então, significa que a festa do ISIS vai continuar para sempre? Não. Nas semanas seguintes ao atentado de Paris, cresceu o rigor no combate ao terrorismo. As polícias e serviços de inteligência reagiram com uma série de prisões e ações para desmantelar possíveis células. Militares estão nas ruas e em estações de metrô. E a coalizão que luta contra o ISIS no Oriente Médio continua ganhando reforços de mais países.

No fim, as operações devem mesmo devolver os territórios do Estado Islâmico aos seus donos oficiais: os governos da Síria e do Iraque (ainda que a composição desses governos no futuro próximo seja uma incógnita hoje, principalmente no caso da Síria, massacrada por quase cinco anos de guerra civil).

Mas, como vimos aqui, o território é só um dos pilares dos terroristas. O outro é etéreo. Ocupa um lugar difícil de combater: os corações e mentes daqueles que enxergam no terrorismo sua redenção. Como lembra Van Ostaeyen: “Esses jovens veem como herois aqueles que efetuam atentados”. O fato é que, enquanto houver sentimento de exclusão em lugares como Molenbeek, haverá terreno para que radicais semeem a barbárie. E a única arma eficaz contra isso é outra: eles e nós entendermos que fazemos parte de uma única civilização. E, mais ainda, os dois lados deixarem de se dividir entre “eles” e “nós”.

Num mundo menos xenófobo e com mais tolerância religiosa, os terroristas teriam, no mínimo, bem mais dificuldade para encontrar gente disposta a engrossar seu exército de assassinos.

Nota: é “ISIS” ou “Estado Islâmico”, afinal? O normal para grupos terroristas é usar o nome na língua original, como em “Al-Qaeda”. “ISIS”, porém, é uma sigla em inglês (para Estado Islâmico do Iraque e da Síria). O equivalente a isso em árabe é “Daesh”, como o grupo é chamado na Europa. De qualquer forma, os terroristas encurtaram o nome para “Estado Islâmico” (Al-Dawla al-Islamyia). Para não denotar respeito, os europeus mantiveram “Daesh”. A SUPER, pela mesma razão, mantém “ISIS”, a sigla consagrada no Brasil. “Estado Islâmico”, nesta reportagem, aparece apenas como referência aos territórios que estão sob controle do grupo.

Saiba mais sobre ISIS, Boko Haram, Al-Qaeda, Hamas, Hezbollah e ougros grupos terroristas no Dossiê SUPER: A Era do Terror

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