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O paraíso por dentro

Acaba de sair o primeiro raio X do Parque Nacional da Bocaina, a mais completa amostra do que resta da Mata Atlântica. Aqui você vai passear pelos seis deslumbrantes ecossistemas que a radiografia revelou.

Por Da Redação Atualizado em 31 out 2016, 19h00 - Publicado em 31 jan 1999, 22h00

Antônio Paulo Pavone e Denis Russo Burgierman

Numa ponta, um calor danado; na outra, frio de rachar; no meio, o ar fresquinho que só. O Parque da Serra da Bocaina tem de tudo, em se tratando de clima, e esse é o segredo da sua riqueza. Entre os dois extremos – a Praia do Cachadaço, em Trindade, Rio de Janeiro, e o Pico Tira o Chapéu, a 2 080 metros de altitude em São José do Barreiro, interior de São Paulo –, a temperatura pode variar até 15 graus Celsius na mesma hora do dia. As condições geográficas e climáticas excepcionais deram origem a seis ambientes diferentes, todos característicos da Mata Atlântica, a floresta que já dominou a maior parte do Brasil e que foi reduzida, hoje, a 6% da sua extensão original.

Não seria exagero dizer que o parque, pouco menor do que a cidade do Rio de Janeiro, é um museu com 110 000 hectares. Só agora, vinte anos depois da sua fundação, ele ganhou o que os ecólogos chamam de plano de manejo, isto é, um diagnóstico da sua geografia, suas plantas e seus bichos que regulamenta e facilita as pesquisas no lugar.

Agora, a ciência vai ajudar a preservar a preciosa reserva. “Esse é o mais importante centro brasileiro de espécies endêmicas (que não aparecem em nenhum outro lugar) de primatas, aves e plantas, junto com o Parque do Conduru, em Ilhéus, na Bahia”, diz a bióloga Letícia Brandão, da organização não-governamental Pró-Bocaina. “O parque é a melhor síntese da Mata Atlântica”, ressalta o biólogo Gustavo Martinelli, do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. É nesse paraíso que a SUPER convida você a se embrenhar nas próximas páginas.

A fatia mais viçosa da floresta

Com árvores de até 30 metros de altura, cheias de cipós, as matas de encosta ocupam a maior parte do parque. Formam o seu trecho mais verde e úmido, onde chove 300 dias por ano. Os cerca de 3 000 milímetros de água que despencam ali só perdem para certas áreas da Amazônia, que recebem até 3 500 milímetros. “É o filé mignon da Bocaina”, define o biólogo Gustavo

Martinelli. “Em nenhum outro ambiente há tantas espécies.” Nesse mundo de bromélias e palmeiras, aves e insetos encontraram seu Éden.

Estrela das matas de encosta, o sagüi-da-serra-escuro (Callithrix aurita) só assusta quando visto assim, bem de perto. Menor primata das Américas, ele pesa apenas 350 gramas e está ameaçado de extinção. O Parque da Bocaina é um dos últimos viveiros naturais desta espécie frágil

O domínio dos mamíferos

Subindo o morro, a temperatura e a umidade diminuem e, com elas, a exuberância da mata. Em compensação, aparecem mamíferos maiores, como a suçuarana, que enxerga melhor suas presas nas matas mais abertas da floresta montana. Moradores da Bocaina dizem que a temida onça-pintada também circula por lá, mas pouca gente conseguiu ver e ninguém fotografou.

Gelo, neblina e o oceano lá embaixo

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No inverno, quando a temperatura chega a bater em 0 grau Celsius, os campos do alto da serra muitas vezes amanhecem cobertos de geada. Mas a aparência pouco tropical não significa de modo nenhum pobreza ecológica. “Há mais de 500 espécies vegetais ali”, diz Gustavo Martinelli. Fica no parque o ponto culminante do Estado de São Paulo, o Pico Tira o Chapéu, a 2 080 metros de altitude. Quando o tempo está limpo, quem sobe até o topo pode ver o mar. Uma cena de tirar o fôlego.

Um pedaço do Sul no Sudeste

Em alguns trechos do parque, a gente esquece que está na divisa entre os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro. “Há um microclima protegido da ação da brisa marinha que lembra o Paraná ou Santa Catarina”, descreve o geógrafo Azis Ab’Saber, da Universidade de São Paulo. A Bocaina é um dos únicos trechos da Serra do Mar onde há florestas de araucárias, típicas do interior da região Sul. Elas ficam nas matas alto-montanas, vizinhas dos campos de altitude.

Sob a influência do sol e da areia

As florestas de baixada se beneficiam do mesmo sol forte que esquenta as matas de encosta. Só que, lá, as raízes precisam se firmar e procurar nutrientes num solo arenoso, que não retém água. Por isso, as árvores não alcançam grandes alturas – dificilmente passam dos 15 metros. Chove pouco e o mato é menos denso. Como resultado, não há tantos insetos e aves procurando abrigo e comida entre os galhos.

A mata só acaba quando começa o mar

Quase não há praias no Parque Nacional da Serra da Bocaina – as florestas mergulham diretamente no mar ou acabam nas pedras. É claro que os costões não têm a riqueza do resto da mata. “Mas algumas espécies de bromélias e orquídeas conseguem fixar suas raízes nas brechas das rochas, à espera da água que escorre”, diz Gustavo Martinelli. Fazem companhia a pássaros marinhos, siris e caranguejos.

Por onde escoou o ouro de Minas

No século XVIII, o ouro de Minas Gerais seguia para Portugal em navios que saíam do Rio ou de Santos. Para chegar até o distante litoral, havia duas estradas difíceis. Uma ia de Vila Rica, em Minas, até Taubaté, no Estado de São Paulo; descia até Ubatuba, no litoral; e rumava para o sul, até Santos. A outra ligava Minas a São José do Barreiro, em São Paulo, seguindo até Parati, no Estado do Rio de Janeiro, pelo meio do atual Parque Nacional da Serra da Bocaina – ficou conhecida como a Trilha do Ouro.

O caminho foi calçado com pedras por escravos. A viagem era feita em lombo de jegue. “As caravanas levavam de um mês a quarenta dias de Minas até Parati”, conta João Fernandes de Oliveira, administrador da Reserva Ecológica de Joatinga, Rio de Janeiro, encostada ao parque da Bocaina. Lá, pegava-se um barco para Mangaratiba, difícil de alcançar a pé, e depois voltava-se a caminhar até o Rio de Janeiro. Já pensou?

Não foram os portugueses que abriram a trilha. “Em 1590, quando o fundador de Parati, Martim Correa de Sá, liderou uma expedição à serra, tomou esse caminho, usado pelos índios guaianazes”, diz Oliveira. Os índios foram exterminados – e a estrada ficou. Hoje, em vez de metal precioso, leva turistas, a pé, do alto da serra até o mar. Além deles, só alguns tropeiros, carregando farinha e palmito, andam por ali.

O parque de ponta a ponta

Use o mapa de altitudes do Parque Nacional da Serra da Bocaina para localizar seus vários ambientes.

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