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Parque Nacional das Emas: Cerco ao campo

O Parque Nacional das Emas, a maior área de cerrados do país e principal reduto de sua fauna, corre perigo: as piores ameaças são os periódicos incêndios e os agrotóxicos nas fazendas próximas.

Marcelo T. C. de Oliveira

Vista do alto, a paisagem lembra as savanas africanas. E, embora não existam ali animais de grande porte, como elefantes, girafas e rinocerontes, o Parque Nacional das Emas acolhe a mais diversificada fauna dos cerrados brasileiros — o valioso ecossistema que na época do Descobrimento ocupava nada menos de 1 quarto de todo o território nacional e hoje, reduzido a 1 décimo de 1 por cento da área primitiva, não conta sequer com proteção formal específica na nova Constituição. Criado em 1961, na divisa de Mato Grosso e Goiás. recebeu o nome por abrigar grande número de emas. a maior ave brasileira (30 quilos de peso e 1.40 metro de altura).

Apesar da semelhança com a savana, a ausência de mamíferos de grande porte no cerrado é explicada por ocorrências de milhões de anos atrás, quando a América do Sul e a África formavam um só continente. Depois da separação, os ancestrais da fauna atual brasileira e africana evoluíram segundo as pressões dos respectivos ambientes, do que resultou uma acentuada diversificação das espécies. Pelas características da vegetação, o cerrado permite avistar facilmente a sua fauna, desde aves até mamíferos. Essa formação vegetal serve de habitat para uma infinidade de animais, como o lobo-guará, o veado-campeiro, o cervo do-pantanal, a suçuarana, o tamanduá, as araras, os tucanos, os tatus, as queixadas, os cupins, além de grande número de aves de rapina.

Embora algumas dessas espécies também sejam encontradas no Pantanal e na Floresta Amazônica, outras só existem nessa reserva, o que aumenta a importância de sua preservação. Os cerrados do Parque das Emas apresentam quatro tipos de vegetação: os campos limpos, dominados por plantas rasteiras e gramíneas; os campos sujos, com alguns arbustos dispersos na paisagem; o cerrado propriamente dito, com vegetação arbustiva não muito densa; e o cerradão, quase um bosque. As árvores típicas, de casca e folhas grossas, têm aparência retorcida, com 5 a 6 metros de altura. Devido à freqüente exposição ao fogo e ao ataque de insetos e doenças. essa vegetação desenvolveu grande resistência às ameaças físicas e biológicas do próprio meio. Ao todo são cerca de 770 espécies de arbustos e árvores, 205 delas também encontradas na Mata Atlântica e duzentas na Floresta Amazônica.

Nas áreas de campos limpos sobressaem cerca de 25 milhões de cupinzeiros, alguns com 2,5 metros de altura. Sua coloração varia do acinzentado ao avermelhado, conforme o tipo de solo com que foram construídos, o que gera um efeito paisagístico bastante interessante. Curioso mesmo, porém, é o seu aspecto nas noites de primavera. Durante esse período as colônias de cupins apresentam o maior fenômeno de bioluminescência — emissão de luz produzida por seres vivos — registrado no mundo. No inicio da estação das chuvas, ao anoitecer, milhares de larvas de uma espécie de vaga-lume (Elaterídeo) emitem intensa luz esverdeada, salpicando a paisagem com uma miríade de pontos luminosos.

Tudo começa quando a fêmea da espécie, depois de ser fecundada, deposita os ovos no pé dos cupinzeiros. Ali se transformam em larvas e cavam buraquinhos nas paredes do próprio cupinzeiro, onde farão suas casas. À noite acendem suas “luzes”, para infelicidade dos insetos. Atraídos pela claridade muitos deles descobrem tarde demais que se trata de uma armadilha de caça montada pela voraz larva predadora Mariposas, cupins e formigas aladas são as principais vítimas dessa adaptação biológica. Mas nem tudo é maravilha para as larvas de vaga-lumes. As grandes queimadas que acontecem com freqüência na área do parque tendem a diminuir a população daquele inseto tornando o espetáculo luminoso menos intenso ano a ano.

A rigidez dos cupinzeiros. por outro lado, não é garantia absoluta de invulnerabilidade. Existem no cerrado muitos devoradores de insetos. que perturbam a vida dessa habitação comunitária, como o tamanduá-bandeira, o tamanduá-mirim, os tatus-canastras, pebas e galinhas e ainda um pequeno roedor (Oximyterus). Os tamanduás e os tatus possuem as patas dianteiras muito bem adaptadas para quebrar ou escavar o cupinzeiro, abrindo caminho até os cupins. Apesar da péssima visão que o impede de enxergar mesmo esses enormes cupinzeiros, o tamanduá, para compensar, tem excelente olfato. (Por isso. aliás, é possível chegar bem perto desse animal quando se caminha contra o vento.)

Alguns dos animais que povoam o parque estão com os nomes em listas oficiais de espécies ameaçadas de extinção. Entre eles o lobo-guará, que se alimenta de pequenos vertebrados, mas, principalmente, da fruta-do-lobo, um arbusto com frutos arredondados e folhas muito espinhosas. Existem também na região outros cães selvagens, como o cachorro-do-mato e a raposa-do-campo. A ave mais freqüente, a ema, já foi vista em bandos de mais de oitenta espécimes, entre machos e fêmeas. A vegetação aberta do cerrado também é um prato cheio para as aves de rapina. como as corujas, os gaviões e os urubus, todas dotadas de excelente visão. O urubu-rei, uma das espécies em vias de extinção, é um bom representante desse grupo de aves caçadoras, com 1,80 metro de envergadura (distância de asa a asa) e cerca de 30 quilos de peso.

Já o diminuto falcão quiriquiri, uma das menores aves de rapina do mundo (com 25 centímetros de altura), representa o outro extremo. Alimentando-se de lagartixas, gafanhotos e insetos grandes. As margens dos rios da região são cobertas por uma formação vegetal denominada mata ciliar que se acredita ser uma “invasão” da Floresta Amazônica no ecossistema do cerrado. É constituída por árvores mais altas, apresentando-se como uma formação de bosques densos ao longo dos rios. Serve de habitat e refúgio a uma série de animais. O maior mamífero da América do Sul, a anta, que pode ultrapassar os 200 quilos, assim como a capivara, o maior roedor do mundo ainda são encontradas com freqüência nas proximidades dos cursos de água.

Diversos predadores buscam esse ambiente atrás de caças como a capivara. A suçuarana ou puma, um felino com cerca de 60 quilos, se alimenta de roedores e de grandes mamíferos como o veado. Em suas investidas, costuma esconder o que sobrou para comer mais tarde cobrindo os restos de sua presa com folhas e ramos. As estações do ano ali são bastante definidas. No inverno, a estação seca, os dias são muito quentes, com a temperatura acima de 30 graus, e as noites muito frias, abaixo de 10. É nessa época que a vegetação já esturricada se transforma em excelente combustível para os incêndios. “A situação se agrava depois das geadas, que costumam acontecer de três em três anos”, observa o técnico agrícola Antonio Malheiros, que vive no parque há 28 anos e o dirige há dezessete. No verão, a estação das águas, desabam chuvas torrenciais. Nesse período do ano a vegetação é mais exuberante e os chamados herbívoros gastadores, como o veado-campeiro e o cervo-do-pantanal aproveitam para criar seus filhotes.

Essas chuvas alcançam a Amazônia pelas nascentes do rio Araguaia, que por sinal já fizeram parte da área do parque. Na década de 70, em pleno regime militar, um decreto do então presidente Emílio Médici tomou do parque 50 mil quilômetros quadrados, que acabaram transformados em propriedades particulares. Nelas, o desmatamento para a formação de pastagens e cultivo descaracterizaram a região, favorecendo a erosão do terreno e a formação de enormes voçorocas (desmoronamentos por erosão subterrânea), destruindo assim a beleza natural daquelas nascentes. A área das Emas ainda engloba a maioria das nascentes do Rio Formoso e da margem direita do Rio Jacuba, ambos de águas cristalinas. Nos meandros do Formoso é possível enxergar o leito do rio em locais com até 3 metros de profundidade. Um mergulho nesses rios revela um pequeno “bosque subaquático”, que se forma pela facilidade com que os raios solares penetram na água.

Como o parque está ilhado em meio a um mar de soja, as características desses rios começam a se alterar. O solo, que boa parte do ano fica totalmente exposto sem cultivo algum, é facilmente carregado pelas chuvas em direção aos rios, principalmente para o Jacuba, parte de cujas nascentes fica fora do parque. Esses sedimentos turvam a água, prejudicando o crescimento de plantas e algas e, conseqüentemente, afetam os invertebrados e peixes que dela se nutrem, interferindo em toda a cadeia alimentar aquática. Isso sem contar o dano à beleza natural das águas. Com o passar dos anos, o excesso de sedimentos irá assorear, ou seja fará subir o leito do rio, deixando-o cada vez mais raso.

Mais grave ainda são as toneladas de agrotóxicos despejados por aviões nas plantações vizinhas, que também acabam carregados pelas chuvas para as águas do parque, alterando sua qualidade, comprometendo a vida aquática e a de todos os animais que dela se utilizam. O parque é todo delimitado por uma cerca de arame de oito fios. Mas isso não impede que as espertas emas cruzem a fronteira à procura dos grãos de soja, abundantes na época da colheita. Nesse período, temendo a praga das lagartas, o agricultor combate-as com pesticidas. Comendo o grão ou as lagartas, a ema ingere assim grandes quantidades desses produtos químicos. Se fosse respeitada a legislação que obriga a existência de um cinturão verde de 20 por cento das fazendas ao redor das áreas preservadas, a situação poderia ser minimizada. Problemas desse tipo acumulam-se de modo a ameaçar o maior refúgio de fauna de cerrado do país, patrimônio genético de importância incalculável.

Para saber mais:

As verdades do verde

(SUPER número 7, ano 3)

A fauna paga o preço maior

Quando a vegetação tropical pega fogo não é difícil descobrir como tudo começou. Os incêndios de origem natural, geralmente conseqüência de um relâmpago, não chegam a atingir grandes proporções, pois as descargas elétricas são logo seguidas de fortes chuvas. Identificam-se ainda pelo formato circular da queimada e tendem a ocorrer nos meses de junho a setembro, tempo seco na região Centro-Oeste do país. Mas como se sabe, o principal causador de incêndios na mata é o homem. No Parque das Emas, incêndios criminosos traduzem a ambição dos fazendeiros vizinhos de estender suas plantações de soja. O incêndio de julho de 1988, que destruiu 80 por cento de sua área — algo como 1 000 quilômetros quadrados, o equivalente a 70 por cento do município de São Paulo —, foi o quarto de grandes proporções desde a sua criação, há quase trinta anos.

O fogo trouxe prejuízos cumulativos à fauna da região, principalmente a algumas aves, como a perdiz e a ema, que fazem os ninhos no solo na época da seca. Entre os mamíferos a vítima por excelência é o tamanduá-bandeira: por causa da péssima visão e do andar muito lento, lhe é muitas vezes impossível escapar das chamas. Mas nem sempre a rapidez assegura a sobrevivência: veados-campeiros quebram o pescoço na tentativa desesperada de pular a cerca dos limites do parque. Uma técnica simples e eficiente de reduzir o alcance dos incêndios consiste em criar aceiros — faixas de 20 a 60 metros de largura onde se deve manter a vegetação rasa ou já queimada — para isolar a área destruída. Se a planejada rede de aceiros no Parque das Emas tivesse ficado pronta a tempo o fogo de 1988 não teria sido tão devastador.

Os efeitos locais de uma queimada variam conforme a cobertura vegetal que houver sobre o solo e o ambiente da região. Como a Floresta Amazônica e a Mata Atlântica são formações vegetais mais densas e com maior biomassa, a temperatura se eleva mais, causando danos imediatos aos seres vivos e à composição dos nutrientes do solo. Já no cerrado a temperatura da chama sobre o solo às vezes não chega a ultrapassar o calor da simples exposição ao sol diário. Em solos pobres em matéria orgânica, como o do cerrado, o fogo acelera a longo prazo a reciclagem de minerais, o que favorece o crescimento das plantas. Nesse ambiente bastante suscetível a incêndios, as plantas desenvolveram ao longo de milhares de anos adaptações que lhes favoreceram a sobrevivência. Elas possuem cascas grossas para se proteger do fogo e produzem sementes resistentes a altas temperaturas. Algumas delas florescem logo após as queimadas. Isso permite a um inseto localizar facilmente uma flor num mar negro de carvão e recolher o pólen necessário à fecundação de outra flor, restabelecendo assim o ciclo da vida.