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Por que estamos aqui?

Para entender por que existe o Universo no lugar do vazio, seria necessário conceber uma ciência capaz de capturar evidências físicas de uma realidade que extrapola suas regras

Desde Sócrates, a filosofia é a senhora das dúvidas desconcertantes. Mas talvez não exista pergunta mais desconcertante e antiga quanto “por que existe o Universo e não o nada?”. Tente responder agora. Você não está sentindo um comichão intelectual?

É comum arriscar uma resposta rápida dizendo que o Big Bang deu origem ao Universo. Ponto final. Ainda assim, você está a milhas de distância de responder por qual razão o Big Bang disparou. O problema da explicação científica, diz o filósofo Jim Holt, é a circularidade. “O Universo abarca tudo o que existe fisicamente. Uma explicação científica deve contemplar algum tipo de causa física, porém qualquer causa física é por definição parte do Universo a ser explicado”, conclui o autor do best-seller Por que Existe o Mundo?, que virou livro de cabeceira de filósofos e cientistas no mundo inteiro, lançado em 2013 no Brasil.

A ciência não tem meios para explicar a origem do primeiro estado físico saído do nada porque estará sempre partindo de algo e não do nada — exatamente como o cachorro atrás do próprio rabo. Para chegar lá, a ciência teria de abarcar as regras que explicam por que a física é desse jeito e não de qualquer outro — ou seja, a metafísica, um campo original da filosofia. É por esse motivo que a dúvida sobre a origem do Universo é a grande candidata a continuar para sempre na pauta dos filósofos.

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Há ainda uma outra via, que consola parte dos cientistas. Ela postula que o mundo “apenas é”, um fato bruto, já que a questão extrapola a esfera científica. É uma forma de contornar a necessidade de explicar a existência de todas as coisas. Para Holt, porém, somos até capazes de aceitar um Universo sem propósito. Mas engolir que sua existência em si não tem explicação é mais nonsense que um filme do Monty Python. Para uma espécie racional como a nossa, é absurdo, escreve Holt.

Até mesmo instintivamente seguimos o que Leibniz chamou de Princípio da Razão Suficiente: para cada verdade, consideramos quase sem pensar que deve haver uma explicação para que ela seja assim e não de outra forma. E, se esse princípio funciona (e ele dá provas que sim, especialmente para a ciência), deve haver uma explicação para o mundo existir.

Mas, se a ciência não é capaz de encontrar uma solução, seria a filosofia a mais indicada para nos dar uma resposta? Não, mas é ela que não nos deixará esquecer que precisamos continuar perguntando.