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Quatro invenções praianas de Leonardo da Vinci

Stand up paddle, parapente, asa-delta, traje de mergulho... Estava tudo no cadernão de esboços do mestre há meio milênio.

Por Alexandre Versignassi - Atualizado em 4 jan 2020, 00h18 - Publicado em 2 jan 2020, 18h11

Stand up paddle

Leonardo Da Vinci (1452-1519), o mais renascentista entre os renascentistas, tem uma ligação inusitada com o verão. Entre seus vários projetos célebres (como o de um tanque de guerra e o de “robôs” analógicos) estão algumas criações que têm tudo a ver com as férias – e que, como boa parte da obra de Da Vinci ligada à engenharia, acabaria sendo inventada alguns séculos depois. É o caso desse equipamento para andar sobre a água – um primo desengonçado dos stand up paddles de hoje. 

Era bem simples. De acordo com os esboços preservados cadernão conhecido como Codex Atlanticus, o usuário só precisaria calçar sapatos especiais, que não passariam de versões modificadas de odres (aquelas bolsas de couro para armazenar vinho) cheios de ar para dar flutuação ao aventureiro.

Nas mãos, ele seguraria um par de varetas com círculos nas pontas, mais ou menos parecidos com bastões de esqui, que lhe garantiriam equilíbrio. Mas não. Os vários protótipos que já fizeram da coisa indicam que esse não foi exatamente o momento mais brilhantes de Leonardo.

 

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Divulgação / Reprodução/Superinteressante

Asa delta

Da Vinci era vidrado por aviação – cinco séculos antes do avião. O renascentista queria a todo custo descobrir o segredo dos pássaros. Gênio que era, achou que seria capaz de criar uma máquina voadora. E criou algo parecido com as asas-deltas de hoje.

O modelo tem asas inspiradas nas dos morcegos. A engenhoca seria equipada com uma grande argola, dentro da qual ficaria encaixado o corpo do piloto. Teria também suportes para direcionar as asas e estribos que permitiriam batê-las.

Tudo leva a crer que Da Vinci sabia o quão inviável era seu “morcegão”. Afinal, ele entendia muito de anatomia humana também. Seguramente tinha ciência de que nenhum ser humano conseguiria bater as asas do aparelho com a força e a rapidez necessárias para mantê-lo no ar. O mais provável é que o inventor, neste projeto específico, tenha literalmente dado asas à imaginação, com pouco – ou nenhum – compromisso com a realidade.

Divulgação / Reprodução/Superinteressante

Parapente 

Esse projeto célebre de Da Vinci costuma aparecer descrito como “paraquedas”. Mas o que temos aí é um parapente – um artefato para quem pretende saltar de montanhas, dada a não existência de aviões. O próprio Leonardo descreveu: “Com ela, pode-se saltar de qualquer grande altura sem sofrer nenhum tipo de ferimento”.

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Otimismo à parte, o fato é que, ao menos neste caso, o inventor não estava sendo propriamente revolucionário. Um desenho semelhante já tinha sido produzido por um engenheiro anônimo de Siena 15 ou 20 anos antes, por volta de 1470.

Superficialmente, o esboço mais antigo lembra o do florentino. O parapente em questão tem formato cônico e um sistema de armações de madeira para reforço, que serviria também como ponto de apoio para o usuário. Seu problema, aparentemente, era a escala: o mais provável é que a parte “mole” do paraquedas não fosse grande o bastante para dar sustentação a um ser humano no ar.

Ninguém sabe se Da Vinci ouviu falar desse primeiro esboço ou não, mas o fato é que seu projeto era melhor e teria mais chances de funcionar. Uma das principais diferenças era a moldura quadrada, que conferia ao aparato um formato piramidal. A estrutura seria feita de linho e teria uma abertura de aproximadamente 8 x 8 metros. Os desenhos indicam ainda que, da moldura até a ponta, o parapente também mediria cerca de 8 metros – proporções bem mais promissoras do que as apresentadas no esboço mais antigo. Diferentemente do que se vê nos equivalentes modernos, Da Vinci não previu no seu projeto um pequeno furo no topo –  essencial para a estabilidade na descida, pelo que sabemos hoje.

PESADÃO, MAS ESTÁVEL

Em julho de 2000, com a ajuda de engenheiros da Universidade de Cardiff, no País de Gales, o paraquedista britânico Adrian Nicholas saltou de 3.000 metros de altitude com um paraquedas igualzinho ao projetado por Da Vinci. Mas igualzinho mesmo. Construído, inclusive, com os mesmos materiais aos quais o inventor teria tido acesso em sua época: algodão, madeira de pinheiro e cânhamo. O salto ocorreu na África do Sul, em meio a um clima de muita ansiedade. Mas foi um sucesso. O paraquedas renascentista se comportou tão bem que Nicholas chegou a afirmar que ele era mais estável que os similares modernos. Só um “pequeno problema”, por assim dizer, não foi devidamente equacionado: o equipamento pesa cerca de 90 quilos, o que torna o pouso um momento potencialmente perigoso. Para não correr riscos, Nicholas preferiu abrir um paraquedas convencional quando faltavam 600 metros para atingir o solo.

Divulgação / Reprodução/Superinteressante

Traje de mergulho 

Tudo indica que uma rápida passagem de Leonardo da Vinci por Veneza, no fim do século 15, tenha inspirado a tentativa do mestre de criar um traje de mergulho – um escafandro, no caso. A tese faz sentido: além da localização semiaquática da cidade-estado italiana, com seus famosos canais, havia a motivação militar, que também está por trás de outros vários dos inventos do renascentista.

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Naquela época, a república veneziana travava uma guerra duríssima contra o Império Otomano, liderado por turcos muçulmanos. O conflito colocava em risco o poderio comercial de Veneza no Mar Mediterrâneo. Diante desse cenário conflituoso, Da Vinci teria tido um estalo. E se os venezianos conseguissem atacar as embarcações turcas por baixo, com investidas pelo fundo do mar?

A solução, esboçada pelo inventor no Codex Atlanticus, lembra, à primeira vista, uma roupa de aviador do começo do século 20. Feita de couro, ela recobriria o corpo todo do escafandrista, incluindo jaqueta, calças e uma máscara com um par de visores para que o mergulhador conseguisse enxergar o ambiente ao seu redor.

A parte mais legal, complicada e incerta, no entanto, tem a ver com o mecanismo usado para que a pessoa conseguisse respirar debaixo d’água. Os esboços mostram longos tubos flexíveis que saem da máscara e vão terminar acima da linha da superfície, em flutuadores que seriam feitos de cortiça – e que, por isso, ficariam boiando. Isso permitiria que as pontas desses tubos ficassem permanentemente em contato com o ar, possibilitando a respiração regular do mergulhador.

Da Vinci também levou em consideração outras necessidades de seus escafandristas teóricos, como a estabilidade dentro d’água (ele chegou a pensar em um sistema de pesos que os mantivesse eretos no solo marinho), a possibilidade de subir ou descer com a ajuda de balões cheios de ar e até uma bolsa de couro separada para guardar o xixi dos mergulhadores caso eles ficassem apertados durante suas missões.

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NA PRÁTICA, A TEORIA É OUTRA

Em 2003, o escafandro de Leonardo da Vinci foi testado por uma equipe de documentaristas da emissora britânica BBC, durante as filmagens de um programa sobre as invenções do gênio renascentista. Uma mergulhadora profissional experimentou o equipamento duas vezes. Primeiro, em uma piscina. Depois, nas águas turvas e geladas de Veneza. Nas duas situações, o aparato funcionou. Apresentou, no entanto, uma deficiência grave: pequenas variações de profundidade, por menores que fossem, tornavam a respiração da “cobaia” difícil e dolorosa. A solução encontrada pela equipe para contornar o problema foi o uso de um fole para bombear ar na câmara de cortiça. Da Vinci poderia ter previsto o bombeamento de ar em seu projeto, uma vez que havia tecnologia para isso na época. Mas não previu.

 

 

 

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